quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Contos novos – Mário de Andrade

“Fiz tudo o que a vida me apresentou e o meu ser exigia para se realizar com integridade. E me deixaram fazer tudo, por que eu era doido, coitado. Resultou disso uma existência sem complexos, de que não posso me queixar um nada”.
Além de ter uma vasta produção literária, com mais de duas dezenas de livros publicados ainda em vida, Mário de Andrade foi polígrafo, ou seja, escreveu poesia, romance, crônica e conto. Sem contar que foi um dos líderes do movimento modernista brasileiro que aplicou novos princípios estéticos à arte brasileira a partir das vanguardas europeias e um projeto de cultura genuinamente nacional. Contos novos é um livro póstumo, publicado em 1947 (o escritor morreu em 1945), que reúne nove contos escritor na maturidade artística do autor. Contos escritos e reescritos, já que Mário era um perfeccionista quando o assunto era a língua portuguesa. E como ele não era de guardar rascunhos, as várias edições dessa obra foram tentando se aproximar da verdadeira linguagem de Mário, um obcecado pelo português falado nos rincões do país.
Dos nove contos, quatro são narrados em primeira pessoa (Vestida de preto, O peru de Natal, Frederico paciência e Tempo de camisolinha) e tem como traço comum o fato de ser narrado pelo mesmo personagem, Juca, cuja personalidade é moldada a partir das suas experiências de rejeição e repressão. No ultimo caso, destaca-se a figura paterna, presente nos contos Tempo de camisolinha, quando Juca é obrigado a cortar o cabelo e perde os cachos de que tanto gostava (alegoria da castração); e Peru de Natal, quando a família aproveita o primeiro Natal após a morte do patriarca, que era avesso a festas, para fazer uma celebração.

Os outros cinco contos são narrados em terceira pessoa e deles se sobressaem duas imagens: a solidão e solidariedade. Em Nelson, o personagem misterioso sentado num bar não tem uma história precisa, mas apenas boatos. Em O ladrão, o alarde da presença de um fora da lei leva os moradores da rua para fora das suas casas durante a noite. Depois da revelação de várias histórias paralelas e sem encontrar o ladrão, todos retornam para a solidão dos seus lares. Por fim, mais solitária do que Mademoiselle é impossível. Quarentona e virgem, trabalha como dama de companhia de meninas ricas que certa vez lhes contam a história de um homem em atitude suspeita atrás da catedral francesa de Ruão. Perturbada mas cheia de desejos, mademoiselle passa a fazer com que todos os seus trajetos passem por traz das igrejas de São Paulo.    

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Casados com Paris – Paula McLain

“Grilhões e amarras não eram a fórmula para prender um homem como Ernest – se é que havia alguma”.
Mais uma vez vemos aqui aquela velha história do livro que é comprado por que estava barato (R$ 5,00) e nos surpreende. Casados com Paris foi achado perdido numa prateleira e, além do preço convidativo, a menção ao nome de Ernest Hemingway chamou a atenção. Ernest e Hadley se conhecem em Chicago nos anos 20. Ela é sete anos mais velha e sonha em ser feliz, já que se aproximava dos trinta anos e nunca vivera um grande amor. Ele sonha em ser escritor e viver da escrita. Em Casados em Paris, publicado em 2011, a escritora norte-americana Paula McLain utiliza-se de uma pesquisa rigorosa para escrever uma “biografia fictícia” da primeira esposa do escritor Ernest Hemingway, Hadley Richardson.
“Eu não confio num homem que nunca vi embriagado”.
Por causa da doença da mãe, Hadley tinha vivido até os 28 anos numa espécie de casulo. Com a morte da senhora Richardson, resolve passear em Chicago e, através da sua amiga Kate, conhece Ernest, então um belo e impetuoso jovem de 21 anos. Ao retornar para casa, continuam se relacionando por cartas, até engatarem um relacionamento e casarem. A princípio, o jovem casal vai morar num pequeno apartamento em Chicago, mas o sonho de Ernest de mudar para Paris e viver da escrita nunca foi esquecido. Ainda nos anos 20, o casal se muda para a Cidade Luz, onde trava conhecimento com grandes nomes das artes, como Gertrude Stein, Scott e Zelda Fitzgerald, Ezra Pound, entre outros. A famosa Geração Perdida!!
“Os muito ricos só admiram a si mesmos”.

Em Paris, travamos conhecimento com um Hemingway extremamente egoísta, que só pensava em concretizar seus sonhos na literatura; e uma Hadley muito submissa, que abria mão dos seus sonhos para sonhar os sonhos do marido. O nascimento da filha veio abrir um abismo entre os dois, com Hemingway se afastando de ambas sob a alegação de que precisava de silêncio e concentração para escrever. Narrado em primeira pessoa, ao contar a própria história, Hadley nos coloca a par não apenas da intimidade do escritor Ernest Hemingway, mas também das histórias de toda uma geração de gênios da arte, que erroneamente foram chamados de “Geração Perdida”.  

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

A resistência – Julián Fuks

Meu irmão é adotado, mas não posso e não quero dizer que meu irmão é adotado.
Com apenas dois romances publicados (o anterior, Procura do romance, é de 2011), o escritor e crítico literário Julián Fuks é um dos mais promissores autores da atual literatura brasileira. A Resistência, seu segundo romance, publicado em 2015, caminha no limite entre a realidade e a ficção; a história e a memória; o biográfico e o ficcional; entre Julián, o autor, e Sebastián, protagonista do livro. Filho de pais argentinos que se exilaram no Brasil fugindo da ditadura portenha, Fuks usa a obra para explicitar a sua obsessão com origens.
“Que força tem o silêncio quando se estende muito além do incômodo imediato, muito além da mágoa”. 
 Narrado em primeira pessoa por Sebastián, o mais novo de três irmãos de um casal de psiquiatras argentinos que se conheceram na universidade, o livro narra a história da família que veio fugida para o Brasil. Dos três filhos, o mais velho é adotado e avesso à vida familiar; o segundo, nascido no Brasil, permitiu a cidadania aos exiliados; e o mais novo, narrador dos dilemas de uma família que vive num país que não é o seu e tem um filho que não é seu (pelo menos não biologicamente). Mas esse não é o grande dilema da narração, mas se o fato de ser adotado deve ser explicitado ou não. Aliás, a frase que inicia o livro expressa esse dilema.
“Um filho nunca será o mais indicado para estimar a relação entre os pais, para compreender o que atraiu um ao outro, para destrinchar seus sentimentos”.

Fuks adota uma estratégia narrativa muito parecida com a utilizada por Chico Buarque de Holanda em Irmão alemão, romance de 2014. Nele, Ciccio é e não é Chico. Aqui Sabastán é e não é Julián. Um dos grandes méritos do autor é narrar com uma precisão assustadora os sentimentos familiares, sensações nem sempre fáceis de expressar em palavras por envolver múltiplos sentimentos. Tributo à Emi, irmão adotivo de Fuks, o livro usa como cenário a ditadura argentina e a vida de todos aqueles que foram atingidos por ela para reconstruir a sua história familiar e dá um significado aos desdobramentos emocionais da adoção. 

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Um defeito de cor – Ana Maria Gonçalves

“Não nos davam comida todos os dias, e me acostumei a isso”.
Tomei conhecimento da existência de Um defeito de cor por acaso, num programa de televisão, quando o ator Lázaro Ramos falou sobre ele. E foi sem muitas expectativas que resolvi ler o calhamaço de quase 950 páginas durante as férias. Logo no prólogo fiquei sabendo pela autora, a publicitária mineira Ana Maria Gonçalves, que também foi o acaso que a levou a escrevê-lo. Aquilo que ela chama de serendipty (palavra inglesa que pode significar uma descoberta afortunada ou o acaso) fez com que uma pilha de livros despencasse na sua cabeça numa livraria e ele só conseguisse segurar um, Bahia de Todos os Santos – Guias de ruas e mistérios, de Jorge Amado. Insatisfeita com a profissão de publicitária, cansada da cidade grande e recém-separada, Ana Maria interpretou aquele episódio como uma proposta de uma nova atividade. Dali em diante, passou a se programar para se mudar para a Bahia.
“Em terra do Brasil, eles (os escravos) tanto deveriam usar os nomes novos, de brancos, como louvar os deuses dos brancos, o que eu me negava a aceitar, pois tinha ouvido os conselhos da minha avó”.
Um ano depois, lá estava ela morando na Ilha de Itaparica, onde outra serendipidade vai coloca-la em contato com dona Clara, uma senhora que trabalhava numa igreja na ilha. Na casa dessa senhora, Ana Maria descobriu documentos escritos em português arcaico que estavam sendo usados como rascunhos pelo filho mais novo. Esses documentos teriam sido retirados da Igreja do Sacramento, com a autorização do padre, para serem jogados no lixo junto com revistas velhas. Antes de pôr fogo em tudo, dona Clara lembrou que seu filho mais novo vivia procurando papeis para desenhar e levou para casa. Nesses papéis danificados pelo tempo e pelo manuseio equivocado havia referencias à história dos malês, negros escravos seguidores da religião Islâmica. Defeito de cor, publicado em 2006, é fruto do que está escrito nesses documentos. A autora inventou apenas as partes ilegíveis ou que se extraviaram. Segundo ela, foram cinco anos de trabalho, dois dos quais reescrevendo dezenove vezes o texto, com redução de quinhentas páginas.
“Na minha convivência com brancos e mulatos, vi que nem todos eram maus, que existiam os de bom coração e até mesmo os que eram contra a escravatura, mas não haveria como separar uns dos outros”.
São várias histórias tendo como fio condutor a narrativa der uma mulher chamada Kehinde, conhecida também como Luísa, seu “nome de branco”, uma escrava negra que foi raptada aos oito anos na África e mandada para o Brasil junto com a irmã gêmea e a avó de ambas. Na verdade, trata-se de Luísa Mahin, mãe do poeta abolicionista Luís Gama, vendido como escravo pelo seu pai português aos 10 anos de idade. Nos cerca de trinta anos que permaneceu no Brasil, Kehinde foi preta de companhia na Casa-Grande, trabalhadora de eito, escrava de ganho, viveu “porta à dentro” com um português (o pai de Luís Gama), conspiradora rebelde e uma negra bem sucedida vendendo guloseimas inglesas nas ruas de São Salvador. Através da narrativa de Kehinde é possível conhecer a vida dos escravos a bordo dos navios tumbeiros que atravessavam o Atlântico abarrotados de negros que seriam vendidos no Brasil; a vida nas lavouras e na Casa-Grande nos engenhos de açúcar espalhados pelo Brasil; como os negros se organizavam para resistir às condições degradantes da escravidão.
“Por que será que tenho pelo menos um arrependimento em relação a cada um dos meus filhos? Arrependimentos por falta ou por excesso de zelo, mas nunca por falta de bem querer, e é isso o que me consola”.

Em suma, Kehinde expõe ao leitor todos os aspectos políticos, econômicos, sociais e religiosos do Brasil, incluindo a espiritualidade afro-brasileira, e da África do século XIX. Já madura, resolve retornar à África, onde se junta com um mulato de origem inglesa, John, com quem tem filhos gêmeos. Lá, descobre que os ex-escravos que voltaram para a África, os retornados, formaram uma espécie de classe média que se acha superior aos que nunca saíram do continente africano. Ao lado do companheiro, Kehinde faz fortuna explorando vários setores da economia africana, do comércio à construção civil. Depois de enviuvar e já octogenária, resolve retornar ao Brasil na esperança de reencontrar o filho desaparecido a anos e contar todos os seus segredos. Kahinde nos deixa inúmeras lições durante a sua saga marcada pelo sofrimento, mas a principal delas é a de que a felicidade pode estar na próxima curva. Um livro que nasceu para ser clássico.  

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Eu, Christiane F., 13 anos, drogada e prostituída – Kai Hermann/Horst Rieck

“Todas as noites eu perguntava a meu pai, com muito jeito, se ele iria sair. Ele saía com frequência, e nós, as três mulheres, respirávamos aliviadas. Essas noites eram maravilhosamente tranquilas.”
No início de 1978, Christiane Vera Felscherinow, então com 15 anos, depunha em um tribunal de Berlim como testemunha em um processo por tráfico de drogas quando os jornalistas Kai Hermann e Horst Rieck (na época trabalhando na revista Stern) viram naquela garota franzina, frágil e delicada uma personagem interessante a ser entrevistada para o trabalho de pesquisa sobre os problemas da adolescência que estavam realizando.  Era para ser uma entrevista de, no máximo, duas horas. Durou dois meses e deu origem a Eu, Christiane F., 13 anos, drogada e prostituída, publicado ainda em 1978 e transformado em best-seller imediatamente.
“É a grande diferença entre os drogados e os alcoólatras. A maioria dos drogados é sensível aos sentimentos dos outros, pelo menos quando se trata de um dos membros da turma”. 
Apesar de ter sido escrito a partir do depoimento de Christiane, o livro ganhou um ar de diário, colocando os autores em segundo plano (o que é um mérito) e comovendo os leitores por sua contundente honestidade e crueza. Segundo seus relatos, começou a fumar maconha e haxixe e consumir medicamentos como Valium e Mandrix aos 12 anos, em 1974. No seguinte, frequentando a discoteca Sound, point de viciados em Berlim, conheceu Detlev, seu namorado, e começou a consumir heroína. Necessitando da droga pelo menos três vezes ao dia, Christiane é obrigada a se prostituir na Estação Zoo para sustentar o vício.
“A maioria dos jovens passa sozinho para a heroína, quando está maduro para isso. E eu estava...”. 

Na época, o consumo de drogas pesadas entre jovens transformou-se num problema de saúde pública na Alemanha. Quase todos os colegas de Christiane morreram de overdose de heroína, entre elas Babsi, sua melhor amiga que, aos 14 anos, foi a vítima mais jovem da heroína. Christiane, mesmo não tendo o mesmo destino, foi uma vítima da droga pelo resto da vida. Após várias internações, em 1978 se diz livre das drogas, mas em 1983 é presa no apartamento de um traficante. E em várias outras ocasiões teve recaídas, inclusive perdendo a guarda do seu filho, hoje maior de idade. Recentemente publicou sua autobiografia Eu, Christiane F. – Minha segunda vida. Traduzido para 15 idiomas, Eu, Christiane F., 13 anos, drogada e prostituída foi transformado em filme em 1981.  

quarta-feira, 12 de julho de 2017

O diário de Anne Frank

“Preocupada com a ideia de ir para um esconderijo, juntei as coisas mais malucas na pasta, mas não me arrependo. Para mim, lembranças são mais importantes do que os vestidos”.
Anne Frank era uma menina judia alemã de 13 anos que vivia com a família em Amsterdã, na Holanda. Quando o exército nazista invade o país, a família é obrigada a se esconder para não ser enviada para campos de concentração. O período em que a família fica confinada no anexo secreto no sótão da empresa do pai de Anne, de julho de 1942 a agosto de 1944, foi registrado pela adolescente em seu diário, publicado pela primeira vez em 1947, pelo seu pai, Otto Frank, único sobrevivente.  Desde então, O diário de Anne Frank se tornou um best-seller, traduzido para mais de 50 idiomas e adaptado para TV, cinema e teatro.
“Acho estranho os adultos discutirem tão facilmente e com tanta frequência sobre coisas tão mesquinhas”.
Além de ser a mais famosa história pessoal do Holocausto, O diário de Anne Frank é também o único relato de alguém que não sobreviveu à perseguição nazista. Normalmente, os relatos são de pessoas que sobreviveram para contar seus infortúnios. Mas o livro também é o relato dos dramas de uma adolescente que passou mais de dois anos confinada num espaço exíguo com outras oito pessoas, seus conflitos internos e com os outros habitantes do sótão, sua solidão e frustrações. Lendo o relato, observa-se menos uma heroína e mais uma jovem recém-saída da infância que tem seus sonhos frustrados e seus desejos roubados por uma guerra insana.
“Excelentes espécimes da humanidade, esses alemães, e pensar que na verdade sou um deles!”
Mas nem só de glórias vive o livro. São muitas as polemicas em torno do best-seller. A maior delas seria que o livro não teria sido escrito por Anne. Nos anos 50, o escritor Meyer Levin moveu uma ação contra Otto reclamando os direitos de autor do diário e a falta de pagamento pelo trabalho. Ganhou a ação e levou 50 mil dólares de indenização. Pego na mentira, Otto afirmou que não revelou os originais, apenas as transcrições feitas por Levin, por que Anne fazia duras críticas à mãe e revelava detalhes íntimos de sua relação com o jovem Peter, também confinado no anexo. Em 2007, o diário foi considerado autêntico. 
“Eu me agarro a papai porque meu desprezo por mamãe cresce dia a dia, e só por intermédio dele consigo manter o pouquinho de sentimento familiar que ainda trago dentro de mim”. 

Sendo verdadeiro ou não, O diário de Anne Frank é hoje o maior sucesso editorial do mundo, com vendas estimadas em 35 milhões de exemplares. Claro que com esses números, Anne Frank e tudo relacionado a ela virou um filão valioso. O local onde ficou escondida virou museu e as filas de visitantes se entendem diariamente das oito da manhã às nove da noite; várias versões do livro foram lançadas, até chegar a uma “definitiva” recentemente; biografias da adolescente escritas por quem conviveu com pessoas que conviveram com ela enchem as livrarias; sem contar as adaptações para cinema, teatro e TV. 

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Memórias de uma beatnik – Diane de Prima

“O que não é bom, o que é claustrofóbico e embotador, é o relacionamento normal entre duas pessoas”.
Sempre associamos a Geração Beat à nomes como William Burroughs, Allen Gisnberg e, principalmente, Jack Kerouac. São poucas as mulheres que aparecem nas inúmeras narrativas do período e, quando aparecem, são coadjuvantes, assumindo o papel de mães, companheiras ou amantes.  Até mesmo numa das mais famosas biografias de Jack kerouac, a do escritor britânico Barry Miles, já resenhada aqui, o papel feminino no movimento é pífio. Ao ler Memórias de uma beatnik, da escritora Diane di Prima, percebe-se que elas estavam presentes sim e não apenas em papéis secundários.
“O dinheiro que eu recebia por duas horas de trabalho como modelo era o suficiente para o jantar e o café da manhã seguinte, e para lavar e secar mais uma troca de roupa. E, como não tinha outras necessidades, eu me considerava bem rica”.
Escrito sob encomenda do editor Maurice Girondias no final dos anos 60, o livro só foi publicado no Brasil em 2013 e narra a convivência de uma adolescente (di Prima nasceu em 1934) com a boemia nova-iorquina nos anos 40 e 50. O Movimento Beat se notabilizou por questionar o que os jovens da época chamavam de “valores burgueses” e inspiraria o movimento hippie. Entre os “valores burgueses” questionados está a monogamia: “Viva com um único homem e você passa a ter uma reclamação contra ele. Viva com cinco, e você tem a mesma reclamação, mas ela é difusa, ambígua, indefinida”.  Em um caleidoscópio de sexo e drogas, Diane mostra como jovens transformava uma vida desregrada em arte.  
“Eu ficava com todas as fibras do corpo estremecendo e gritava na manhã calma, enquanto gozava de novo em um espasmo sem fim de liberação que me deixava oca, côncava e vazia, uma luz branca como um relâmpago explodindo em meu cérebro”.

Mas onde fica nessa narrativa a santíssima trindade do Movimento Beat? Kerouac, Burroughs e Ginsberg? Eles só aparecem nas últimas quinze páginas do livro, quando a autora narra a ocasião em que participou de uma orgia com os três e mais alguns outros personagens. O livro peca por não se aprofundar nas obras e nos autores Beats, ou até mesmo em mostrar a convivência literária da autora com outros nomes do movimento. O livro nada mais é do que uma sucessão de cenas de sexo e consumo desenfreado de drogas, o que era uma realidade na época, mas não a única realidade.        

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Doutor Jivago – Boris Pasternak

“Todo espírito de rebanho é refúgio para quem não tem talento”.
Escrito em sua maior parte nas décadas de 1910 e 1920, Doutor Jivago, do escritor russo Boris Pasternak, só foi concluído em 1956. Proibido na União Soviética por rejeitar, segundo os editores do país, os pilares do realismo socialista, o livro só foi publicado em 1957 na Itália. Para os censores soviéticos, o personagem que dá título ao livro, o poeta e médico Iúri Andreievitch Jivago, demonstra mais preocupação com os indivíduos do que com a coletividade. Com a proibição em território soviético, o livro tornou-se um sucesso no ocidente, sendo traduzido para dezoito idiomas e recebendo uma adaptação cinematográfica em 1965.
Tendo como pano de fundo a Revolução Russa de 1917, a obra conta a história do médico Iuri Jivago, um jovem descendente de uma família renomada e falida, que se cruza com a história da jovem Larissa Fiodorovna, ou Lara, de família muito pobre e que se vê envolvida nas investidas sexuais do amante da mãe. A vida de ambos é repleta de encontros e desencontros. Os dois se conhecem jovens, mas nunca se falaram, e suas vidas tomam rumos diferentes, casam e têm filhos até se reencontrarem por acaso durante a Guerra e serem finalmente apresentados. Claro que, em se tratando de um romance russo, há muitos mais personagens além do casal.
Talvez isso, mais a quantidade de lugares e a variação de nomes para a mesma pessoa (depende do grau de intimidade de quem está falando com o personagem) torna o livro cansativo. Para se sincero, o livro chato com louvor! Alias, Doutor Jivago faz jus à péssima (e injusta) fama que os clássicos são chatos. E não estou sozinho nessa! Alguns críticos literários afirmam que o romance não tem “nenhum verdadeiro enredo” e que “a sua cronologia é confusa”.  Vladimir Nabokov afirmava que a obra era "uma coisa pobre, desajeitada, banal e melodramática”. Mas ganhou o Nobel de Literatura em 1958. Como explicar? Somente a política internacional da época explica.  

quarta-feira, 21 de junho de 2017

O papa e Mussolini – David I. Kertzer

Em fevereiro de 1922, Achille Ratti é eleito papa pelos seus colegas cardeais, na décima quinta votação, e adota o nome de Pio XI. No mesmo ano em outubro, Benito Mussolini foi nomeado primeiro-ministro pelo rei Vítor Emanuel III. A igreja precisava do poder político para recuperar seus domínios e outros benefícios perdidos no século anterior durante a Unificação Italiana. Mussolini precisava da Igreja para que a população Italiana, de maioria católica, o visse como o líder a ser seguido para a pacificação do país. A história desse acordo é o tema do livro O papa e Mussolini: a conexão secreta entre Pio XI e a ascensão do fascismo na Europa, do professor de antropologia e de estudos italianos da Universidade de Brown (EUA) David Kertzer.  
Apesar das diferenças brutais entre ambos (Pio XI era erudito e devoto; Mussolini, violento e tinha aversão ao catolicismo), os interesses de ambos prevaleceram. Segundo Kertzer, “o fascismo se estabeleceu na Itália graças ao apoio do Vaticano”. Em retribuição, Mussolini restaurou todos os privilégios que a Igreja Católica tinha antes da Unificação Italiana de 1870, como a obrigatoriedade do ensino de religião nas escolas, a presença do crucifixo nas repartições públicas, isenções de impostos e até mesmo a reforma de igrejas. O Tratado de Latrão, assinado em 1929 por Pio XI e Mussolini, entre outras coisas, restitui as propriedades que a igreja tinha pedido no século anterior e cria um Estado independente dentro da cidade de Roma, o Vaticano.  
Mas enquanto conta a história desse acordo, Kertzel traça um perfil de Pio XI, um papa que tinha aversão à democracia e um verdadeiro pavor de qualquer coisa parecida com comunismo, e desmistifica alguns fatos da biografia de Mussolini. Um desses mitos é sobre a famosa Marcha sobre Roma, a manifestação fascista que teria contribuído para a ascensão de Mussolini ao poder. Sempre se falou em 300 mil fascistas bem armados praticando atos de violência contra opositores. Kertzel afirma que não passavam de 26 mil homens mal armados (alguns desarmados). O que aconteceu para que o evento alcançasse a objetivo foi a falta de vontade do rei Vítor Emanuel em combatê-los. O soberano, assim como o papa, via em Mussolini não apenas um mal menor, mas a melhor forma de combater os comunistas. 
Esse acordo dura até 1939, quando Pio XI prepara dois documentos para denunciar a aliança de Mussolini com Hitler. No entanto, o pontífice morre na véspera da leitura de um dos documentos. Só foi possível contar uma versão diferente da narrativa padrão do Vaticano sobre esses acontecimentos depois que a própria Igreja liberou, em 2006, documentos referentes ao papado de Pio XI, como também vieram a público documentos do Arquivo do Jesuítas, em Roma. A expectativa agora é que o papa Francisco libere os documentos referentes ao papado de Pio XII (1939-1958), sucessor de Pio XI, chamado por muitos de “o papa de Hitler” pelo seu silêncio com relação ao Holocausto.


quarta-feira, 14 de junho de 2017

O rebelde do traço: a vida de Henfil – Dênis de Moraes

“Na minha opinião, o cartunista não pode trabalhar a serviço do Estado. Devemos ser eternas ovelhas negras”. (Henfil)
Publicado originalmente em 1996, O rebelde do traço: a vida de Henfil, do jornalista Dênis de Moraes, recebeu uma edição revista e ampliada no ano passado, vinte anos depois da publicação original. É um livro de fazer rir e chorar. Autor de personagens engraçadíssimos, como Graúna Fradinho, Henrique de Souza Filho, o Henfil, maior cartunista brasileiro, era ele próprio um personagem. Os méritos do livro não se resumem a contar a vida de um dos maiores artistas da sua geração, mas contar uma fase da história do Brasil da qual Henfil participou ativamente: a Ditadura Militar e redemocratização do Brasil, a partir de 1985.
Nascido em Ribeirão das Neves (MG), em 1944, foi um dos três filhos do casal Henrique e Maria da Conceição a nascer com hemofilia, doença pouco conhecida no País na época, o que obrigou a família a se mudar para Belo Horizonte. Foi exatamente o medo de se ferir durante as travessuras de infância (a hemofilia dificulta a coagulação do sengue) que levou o pequeno Henrique a se dedicar ao desenho. Seu trabalho como desenhista começa com os cartazes da AP (Ação Popular), organização de esquerda da qual fazia parte seu irmão Betinho, também hemofílico.

Dos cartazes para os jornais e revistas. Foi no seu primeiro emprego, na revista Alterosa, que Henfil recebeu o apelido que o acompanharia pelo resto da vida. Que o batizou foi ninguém menos que Roberto Drummond, editor da revista e responsável pela sua contratação. Mas, ao mesmo tempo em que narra os casos e conflitos, os afetos e desafetos de Henfil, o autor faz um panorama histórico dos anos 70 e 80, mostrando as organizações de esquerda que combatiam o governo militar e como a ditadura agia para reprimir os movimentos clandestinos que se infiltravam em vários setores da sociedade, entre eles o jornalismo. Henfil faleceu em janeiro de 1988, vítima da AIDS, e sua morte marcou, em um certo sentido, a morte do cartum político.      

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Bukowski: vida e loucuras de um velho safado – Howard Sounes

”Bukowski não perdia tempo com drogas, mas era um bêbado barulhento”. 
Começo com uma pergunta: se os textos de Charles Bukowski são autobiográficos, o que há mais para se saber sobre a sua vida? O jornalista britânico Howard Sounes não conheceu Charles Bukowski. Quando ele começou a trabalhar na biografia, o autor já tinha morrido. Todas as histórias de Bukowski: vida e loucuras de um velho safado, publicado originalmente em 1998 (aqui no Brasil, em 2016), foram contadas a partir de entrevistas com amigos, amantes, colegas de trabalho, editores e familiares. Como Bukowski era um missivista fértil, sua correspondência com amigos e amantes também foi fundamental para traçar não apenas um perfil literário, mas para desvendar o que pensava e como pensava esse escritor de textos ácidos e mal humorados (e ao mesmo tempo cômicos).
“A crueldade do pai foi o que mais influenciou a personalidade de Bukowski, seguida de perto da acne desfiguradora que estourou quando tinha treze anos”.
Nascido na Alemanha, filho de mãe alemã e pai americano (um soldado que foi para a Europa durante a I guerra), migrou ainda criança para os Estados Unidos. Com um pai violento e autoritário, uma mãe omissa e um problema terrível de acne, Bukowski teve uma infância e adolescência difíceis. Ainda criança, foi diagnosticado com dislexia, o que despertou a ira paterna, que atribuía seu mal desempenho escolar à falta de vontade de estudar.  Some-se à essa relação conflituosa com pai, o seu problema de espinhas, que dificultava a sua sociabilidade. “Uma infância atormentada me fodeu. Mas é assim que sou, então vou viver com isso”. Em cartas a amigos e entrevistas, o escritor dizia que sua infância foi “triste e assustadora”.   Expulso de casa, entregou-se à bebida e vagou pelo país, sem dinheiro e sem destino. Alistou-se voluntariamente no recrutamento para a segunda Guerra Mundial, mas, apesar de passar no exame físico, foi dispensado por problemas mentais e classificado como 4-F, que significava “psicopata”.
“fante era meu Deus. Ele viria a influenciar minha obra por toda a vida” (Charles Bukowski).
A vida sexual de Bukowski era um problema a parte. Perdeu a virgindade com uma prostituta depois dos vinte anos e conheceu seu grande amor somente aos vinte e oito. Jane Cooney Baker, dez anos mais velha que ele, era uma alcoólatra que perdera o contato com a família e morreu antes dele fazer sucesso. Apesar da relação turbulenta, Jane inspirou o que há de melhor na obra de Bukowski. E a relação com as mulheres que passaram em sua vida não foi diferente em termos de turbulência. Para piorar, muitas delas só vieram descobrir que ele as usava como matéria-prima para seus romances quando foi publicado Mulheres, seu terceiro romance, em 1978. Mesmo mudando os nomes e declarando que aquilo tudo era ficção, causou constrangimento para muitas ex-namoradas ver detalhes íntimos (inclusive sexual) expostos no livro.
“Uma das principais objeções de Bukowski aos escritores Beat era que muitos deles eram homossexuais”.
Se a vida sexual de Bukowski começou tarde, o sucesso também. Apesar de ver vários dos seus textos em pequenas revistas de público restrito, o primeiro livro, Cartas na rua, só foi publicado em 1960, quando o autor tinha quarenta anos. Nele, aparece pela primeira vez Henry Chinaski, alterego do autor. Respondendo a pergunta do início desse texto, a obra de Sounes é importante, pois ele desmistifica algumas das histórias contadas por Bukowski nos seus livros, ou seja, é a mesma história sob um ponto de vista diferente. E faz tudo isso com uma narrativa ágil, fluente e límpido, sem afetações estilísticas. E ainda mostra um lado pouco conhecido do autor, como a homofobia, uma das razões para ele desprezar os escritores Beat, na maioria homossexuais, segundo Bukowski. Mas nem os defeitos tiram a genialidade do “Velho safado”.         

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Discobiografia legionária – Chris Fuscaldo

“Não sei se há alguma contradição nisso. Depois que fiz o disco (As quatro estações), comecei a achar que Deus não existe”, Renato Russo, ao ser questionado pelo jornal O Globo se era compatível ser cristão e gostar de se relacionar com ambos os sexos. 
Em 2010, a jornalista e pesquisadora Chris Fuscaldo foi contratada pela gravadora EMI para escrever textos para o relançamento em CD da discografia completa da Legião Urbana que seria lançada naquele ano. Naquela ocasião, a edição mal feita pela gravadora gerou a insatisfação da autora. Depois de realizar novas entrevistas e apurar mais informações, tendo como base os textos de 2010, Fuscaldo publicou, no ano passado, durante as celebrações dos vinte anos da morte do líder da banda, Discobiografia legionária, um apanhado de histórias acontecidas dentro dos estúdios enquanto a banda gravava seus discos.
O livro se divide em três partes. Na primeira delas, Discos de estúdio, fala sobre os bastidores dos oito discos que a banda gravou. A primeira curiosidade está logo no primeiro disco, Legião Urbana, gravado em 1985, quando Renato, ainda um cantor desconhecido, não facilitou a vida da gravadora. Segundo Jorge Davidson, gerente artístico da EMI-Odeon, gravadora com quem o grupo iria assinar um contrato para a gravação de três discos afirma que Renato Russo “não foi humilde nem se emocionou, mas se mostrou gentil e agradável. Fez uma série de perguntas, como se já fosse um artista em negociação”.
Outra curiosidade está no terceiro disco, Que país é esse 1978/1985, lançado em 1987, que foi gravado às pressas, em pouco mais de um mês, por três motivos: a gravadora estava cobrando que a banda fechasse logo o ciclo dos três primeiros discos em 36 meses, prazo já estourado; Renato vivia uma crise de criatividade; e o cantor temia perder para a nova banda dos irmãos Lemos (Fê e Flávio), Capital Inicial, as músicas que o trio tocava na época do Aborto Elétrico. A gravação desse disco também é marcada pelo inicio da crise que levaria a expulsão do baixista Renato Rocha da banda por chegar reiteradamente atrasado ás gravações, perder voos e também por, do ponto de vista dos demais integrantes do grupo, não se dedicar às composições como deveria.   
A segunda parte do livro, Discos ao vivo e coletâneas, mostra que Música para acampamento, disco lançado em 1992, tinha uma única finalidade: ganhar dinheiro. “Não foi um álbum de carreira, foi um disco para a gente levantar recursos”, lembra Rafael Borges, então empresário da banda. Como a turnê do disco V, lançado no ano anterior, tinha sido suspensa para Renato se tratar dos seus vícios (álcool e heroína), da depressão e da doença descoberta em 1990, a banda passava por problemas financeiros. No entanto, o mesmo Rafael tenta minimizar, afirmando que Renato, “jamais faria algo puramente mercantilista”. Por isso, mesmo a distância, o vocalista quis dar aos fãs um disco que fosse relevante e não uma simples repetição, resgatando participações em programas de rádios, em ensaios e em shows para compor um disco ao vivo.
No disco Acústico MTV, os dramas de Renato tiraram o sono da direção da TV especializada em música. Alguns minutos antes de começar a gravação, Renato, ainda no hotel, desistiu de gravar o show alegando dúvidas com relação ao repertório. Problema contornado, foi a vez do baterista Marcelo Bonfá, que resistiu até o último minuto em trocar as baquetas pela vassourinha de jazz, usadas no formato umplugged.
A terceira e última parte, Discos solos, fala sobre os discos que foram lançados sem a participação dos demais membros da banda. No entanto, somente os dois primeiros, The Stonewall Celebration Concert, lançado em 1994, e Equilíbrio distante, de 1995, são projetos pessoais de Renato Russo. Os demais são projetos da gravadora com o intuito, é o que se percebe, de ganhar dinheiro após a morte do músico. The Stonewall Celebration Concert, planejado por Renato desde o ano anterior, foi uma forma do músico manifestar a sua militância pelos direitos dos homossexuais. Stonewall Inn é o nome do bar em Nova York onde, no fim da década de 60, gays entraram em confronto com a polícia. Já Equilíbrio distante foi uma realização pessoal de Renato, descendente de italianos, que queria conhecer suas origens e falar o idioma italiano sem sotaque. Apesar da depressão que o acometeu durante as gravações, é divertido conhecer as histórias que envolvem a produção desse disco.    

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Em uma só pessoa – John Irving

“Acho que você notou que pessoas muito convencionais ou ignorantes não têm senso de humor para travestis”.
Fiz uma releitura de Em uma só pessoa, do escritor e roteirista norte-americano John Irving, publicado em 2012. Se tinha gostado da primeira vez em que li, agora posso afirmar que o livro, além de ser considerado um candidato a clássico, pode ser transformado numa Bíblia para todos aqueles que defendem uma sociedade que respeite as diferenças de qualquer natureza. Com uma narrativa envolvente, Irving se mostra “intolerante com a intolerância”, contando as histórias de jovens que abriam mão de ser o que eram para viver o que a sociedade em que estavam inseridos esperava deles.  
“Nós somos formados pelo que desejamos. Em menos de um minuto de excitação e desejos secretos, eu quis me tornar escritor e fazer sexo com a Srta. Frost – não necessariamente nessa ordem”.
Toda a história é contada por Billy Abbott, um escritor bem sucedido que mora em Nova York e resolve fazer, em 2010, uma retrospectiva das suas paixões ao longo da vida. Paixões essas que incluíam o teatro, a literatura, as mulheres e os homens. Na casa dos sessenta anos, Billy relembra sua infância e adolescência na pequena e fictícia First Sister, no estado americano de Vermont, até a idade adulta, de forma não linear, uma existência marcada pela não aceitação social da sua bissexualidade e pelo amor à arte.
“Será que minha mãe e Nana Victória não conseguiam ver que eu me sentia ao mesmo tempo perplexo e assustado pela vida na terra?”
A narrativa começa nos anos cinquenta na pequena cidade natal de Billy quando ele, aos treze anos, vai fazer seu cartão na biblioteca pública e se apaixona pela escultural Srta. Frost, a bibliotecária quarentona (Billy não sabia, mas a paixão pela Srta. Frost iria moldar todas as paixões que ele teria por toda a sua vida). É ela quem o inicia na literatura, indicando livros sobre “atrações pelas pessoas erradas”, a pedido do garoto, já que Billy, ao mesmo tempo em que nutria a paixão pela bibliotecária, se sentia atraído pelo padrasto Richard Abbott. O coração de Billy também batia mais forte pela sua terapeuta e mãe da sua melhor amiga, Elaine, e por Jacques Kittredge, capitão da equipe de luta livre da escola.
“O lutador com o corpo mais bonito se chamava Kittredge. Ele tinha um peito sem pelos com músculos peitorais absurdamente bem definidos; esses músculos eram de uma clareza exagerada, de história em quadrinhos”.
Numa família de mulheres extremamente críticas, que tentavam a todo custo esconder a identidade verdadeira do seu pai biológico (outro mistério do livro e que será desvendado no decorrer da narrativa) e vivendo numa cidade pequena e conservadora, Billy buscava apoio na figura do seu avô, Harry, conhecido pela competência em interpretar papéis femininos no grupo de teatro amador da cidade e pelo gosto em vestir-se de mulher até o final da vida. A trama atravessa os anos 60 e 70 com Billy buscando sua identidade em várias cidades do mundo e desemboca nos anos 80 em plena epidemia de AIDS, que atingiu vários amigos e ex-amantes do narrador (O capítulo intitulado Um mundo de epílogos é emocionante, com a narrativa das seguidas mortes de amigos, amantes, conhecidos e desconhecidos).
“Eu corria da escola para casa para ler; eu lia correndo, sem conseguir obedecer à ordem da Srta. Frost para ler mais devagar”.

Além da trama em si, o que fascina nesse romance são as indicações bibliográficas que a Srta. Frost dá para o pequeno Billy. São romances dentro do romance. Charles Dickens se torna a grande paixão do pequeno leitor graças às indicações da bibliotecária, mas outros autores são indicados ou citados pelo narrador como marcantes em sua vida: James Baldwin, Emily Brontë, Charlotte Brontë. Para quem gosta de literatura, esse romance é prazer em dose dupla. Ou múltipla! 

quarta-feira, 17 de maio de 2017

A garota dinamarquesa – David Ebershoff

“Os sapatos amarelos pareciam estar perfeitamente a vontade arqueados; era como se ele estivesse esticando um músculo caído em desuso”. 
Tomei conhecimento da história do pintor dinamarquês Einar Wegener quando me falaram do filme A garota dinamarquesa. Descobri que o filme, na realidade, é uma adaptação do romance homônimo do escritor norte-americano David Ebershoff, publicado no ano 2000. Professor de escrita literária da Universidade de Colúmbia e editor da Random House, um das principais editoras em língua inglesa do mundo, Ebershoff ganhou o Prêmio Literário Lambda, no mesmo ano de publicação do livro, e figurou nos dois anos seguintes como uma das cem pessoas LGBT mais influentes, elaborada pela revista Out.
“Muitas coisas são ditas na grande caverna do matrimônio, e felizmente a maioria delas fica pairando inofensiva, negra, pequena e de cabeça para baixo feito um morcego adormecido”.
O próprio Ebershoff explica que o romance “contêm alguns fatos importantes acerca da transformação de Einar, mas os detalhes da história são invenções da minha imaginação”. Einar Wegener era um pintor famoso nos anos 20 pelas suas pinturas de paisagens e pântanos. Casado com a também pintora Greta, que tenta se firmar pintando retratos para os burgueses de Copenhague, Einar é pego de surpresa com um pedido da esposa. Como a sua modelo tinha faltado à sessão, Greta pede ao marido que coloque um vestido e pose para ela, a fim de terminar o quadro mais rapidamente.
“Lili olhou para Greta, que usava um vestido preto, e sentiu-se grata por tudo que jazia à sua frente. Do nada surgira Lili. Sim, era preciso agradecer a Greta”.
Esse acontecimento representará um divisor de águas no casamento de ambos. Foi como se um gatilho tivesse sido acionado na alma de Einar. Outras vezes Greta fez o mesmo pedido e, gostando da brincadeira, sugeriu a Einar que comparecesse a festas como Lili Elbe, a prima de Einar. O que, à princípio, era apenas uma brincadeira do casal para ajudar Greta a pintar quadros, se transforma numa segunda personalidade de Einar. Lili começa a sair e atrair a atenção de rapazes na rua, “aparece” em casa sem se fazer anunciar e, como se fosse outra pessoa, se mostra linda e doce para Greta.
“Tinha a impressão de ter a alma presa numa jaula de ferro forjado: era o seu coração enfiando o focinho nas costelas, enquanto Lili mexia-se lá no fundo, despertando e esfregando o lado do corpo nas barras do corpo de Einar”. 
Fazendo inúmeras pinturas tendo Lili como tema, Greta se torna uma pintora famosa e valorizada, e Einar vai descobrindo cada vez mais sua verdadeira personalidade. A partir de 1929, Einar/Lili, certa do que quer, se submete a cirurgia de mudança de sexo, algo considerado incomum e, para muitos médicos, impossível. Apesar de a história girar em torno de Einar/Lili é impossível não observar a força de Greta, uma mulher quer percebe seu marido se descobrindo outra pessoa e o apoia de forma irrestrita. Mesmo sendo classificada como uma história de ficção é inspirada em personagens reais e, por que não dizer, fortes, que enfrentaram a sociedade em que viviam e trouxeram, nos longínquos anos 30, uma discussão sobre sexo e gênero.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Submissão – Michel Houellebecq

“Só a literatura permite entrar em contato com o espírito de um morto, da maneira mais direta, mais completa e até mais profunda do que a conversa com um amigo”.
O segundo turno da eleição na França, entre o centrista Emmanuel Macron e a candidata de extrema direita Marine Le Pen, chamou a atenção do mundo para o país que tem a maior população muçulmana na Europa. A imigração (não apenas muçulmana) e a necessidade de impedir novos ataques terroristas em território francês, ao lado do papel do país na União Europeia, têm sido os assuntos mais explorados nos debates entre os candidatos, que têm propostas diametralmente opostas sobre esses assuntos. Para mim, a eleição na França me levou a releitura de Submissão, sexto romance do francês Michel Houellebecq. Em setembro de 2015 já tinha falado sobre ele aqui.
“No fundo, meu pau era o único dos meus órgãos que jamais tinha se manifestado à minha consciência pelo viés da dor, e sim do gozo”.
Famoso e premiado, nascido na França em 1958, Michel Houellebecq é o tipo de escritor-filósofo que, ao invés de apenas escrever uma história que entretenha, usa suas tramas para palpitar sobre tudo o que lhe interessa, desde história e religião até costumes, passando por gastronomia e a geopolítica do Mediterrâneo, sempre utilizando um olhar corrosivo. E ele não foge dessa característica em Submissão, romance lançado no início de 2015, exatamente no dia do atentado ao jornal Charlie Abdo, quando 12 jornalistas foram mortos, entre eles Bernard Maris, amigo pessoal de Houellebecq, o que o levou a cancelar a turnê de promoção do livro.
“Um casal é um mundo, um mundo autônomo e fechado que se desloca no meio de um mundo mais vasto, sem ser realmente atingido por ele...” 
François é um professor de literatura de meia idade da Sorbonne que dorme mal, come mal e só se preocupa em manter romances com alunas duas décadas mais novas. Homem culto e solitário que despreza o mundo ao seu redor, especialista e fã do grande representante do realismo literário Joris-Karl Huysmans (a ponto de viver comparando sua vida ao do escritor e até mesmo tentando imitá-lo), François descrê de tudo, dos laços afetivos duradouros à socialdemocracia. E assim ia a vida do professor até que um fato politico muda tudo.
“A humanidade não me interessava, até me repugnava, eu não considerava de jeito nenhum os humanos meus irmãos...”
Em 2022, a Fraternidade Muçulmana chega a Presidência da República na França, com Mohammed Ben Abbes, um líder carismático e moderado, e logo as mudanças se fazem sentir. O desemprego diminui por que as mulheres devem ficar em casa; aumenta o auxílio-moradia, mas diminui o da educação; a poligamia é incentivada (quem tem mais de uma esposa ganha mais do que quem só tem uma). Com dificuldades para se adaptar à nova realidade, François é induzido a se aposentar precocemente.
“Nietzsche enxergara muito bem, com seu faro de puta velha, que o Cristianismo era no fundo uma religião feminina”.

Meses depois é convidado a voltar para a universidade por um amigo carreirista e agora convertido ao Islã (É emblemática a figura de sua esposa mais nova, de 15 anos, vestindo uma camiseta da Hello Kitty). Mesmo retornando à cátedra, François continua acompanhando tudo com a mesma indiferença explícita, amoral e chocantemente neutra. O título do livro é uma tradução literal de “Islã”. 

quarta-feira, 3 de maio de 2017

O mundo é uma bola – Vários autores

Publicado originalmente em 2006, O mundo é uma bola, uma coletânea de textos de figuras renomadas da literatura brasileira sobre futebol, humor e qualquer tema relacionado aos dois anteriores, foi relançada em 2014, em virtude da Copa do Mundo que se realizou naquele ano aqui no Brasil. O time não é amador, mesmo que o leitor queira questionar a inclusão de nomes como o de Rachel de Queiróz que, até onde se sabe, não era grande expert no assunto. Mas é aí que está o segredo. O livro é sobre futebol e qualquer assunto relacionado à ele. Por outro lado, não se podem questionar nomes como Armando Nogueira, Stanislaw Ponte-Preta e Luis Fernando Veríssimo.
A obra se divide em três partes. Na primeira delas, Futebol tem gosto de infância, destaque para o conto A bola, de Luis Fernando Veríssimo, que mostra o choque de gerações quando o pai dá uma bola de presente ao filho. Acostumado com jogos de vídeo game, o garoto não sabe o que fazer com o presente, tentando encontrar respostas para as suas dúvidas num “manual de instrução” inexistente. Destaque também para Vai que é suuua Lelê!, de José Roberto Torero, que trata com muito humor do machismo típico do universo do futebol. Essa primeira parte se encerra com Gol de padre, do impagável Stanislaw Ponte-Preta que espeta: “O menino que a pessoa conserva em si é um obstáculo no caminho da velhice”.
Na segunda parte, O humor entra em campo, o escritor gaúcho David Coimbra nos presenteia com Cueca lilás. Carpins preto, abordando algo que é comum no mundo futebol, a superstição. Mais uma vez Luis Fernando Veríssimo se faz presente com a crônica Choque cultural, em que um casal se descobre incompatíveis por causa da paixão pelo futebol. E na terceira e última parte, A bola rola, outra vez David Coimbra relata a paixão dos brasileiros, até mesmo os mais durões, pelo futebol a ponto de ir às lagrimas com uma derrota da seleção brasileira em Era tudo bagaceirada. Voltada para o público infanto-juvenil, a obra tem crônicas para todos os gostos, principalmente para quem tem o gosto pelo riso.   

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Um time de primeira – Vários autores

“Em toda parte do mundo uma dúzia de ingleses juntos queria dizer um clube”. (Mário Filho)
Em 2014, ano em que se realizava a segunda Copa do Mundo no Brasil (para quem não sabe, a primeira foi em 1950), a editora Saraiva lançou um volume com crônicas relacionadas ao futebol. A boa notícia é que Um time de primeira faz jus ao título e reúne grandes nomes da literatura brasileira para falar sobre a paixão brasileira. A má notícia é quem nem todos entendem do assunto. Ou o futebol ainda não era o fenômeno que é hoje. É o caso do poema Franzina, de Mário de Andrade (ou sou eu que não entendo, nem gosto, de poesia?). Logo depois, com João do Rio e Coelho Neto, seis crônicas que não empolgam muito.
“Em trinta segundos, Garrincha desmoralizou o quadro científico da Rússia”. (Nelson Rodrigues)
Mas é fantástico ler Lima Barreto, lá no início do século XX, quando o futebol ainda engatinhava no Brasil, chamando a atenção para os malefícios do esporte para o país, em Bendito football, quando afirma que “o football é eminentemente um fator de dissensão” para o país. Ou ainda quando critica, de forma irônica, a violência do esporte, em Vantagens do football, e os seus malefícios à saúde, em Ainda e sempre. Repito: essas crônicas foram escritas nos primórdios do século XX quando o futebol ainda não era uma paixão nacional.
“Somos o povo que berra o insulto e sussurra o elogio”. (Nelson Rodrigues)
Mas os textos se tornam clássicos quando entra em cena o jornalista Mário Filho, um apaixonado pelo esporte. Em Nasce o Fluminense, o cronista narra a história de Oscar Cox, um dos pioneiros da prática do futebol no Rio de Janeiro e um dos fundadores do tricolor carioca e seu primeiro presidente. Em O primeiro Fla-Flu, conta a história do primeiro clássico carioca, no ano de 1912. Outro apaixonado pelo futebol é seu irmão, o dramaturgo Nelson Rodrigues, que contribui com seis crônicas, todas tendo a seleção brasileira como personagem. O entusiasmo com que Nelson Rodrigues narra as proezas e fracassos da seleção canarinho é contagiante.
“O maracanã nasceu com a vocação da vaia”. (Nelson Rodrigues)

O poeta Vinícius de Moraes dá sua contribuição falando poeticamente, claro, sobre a seleção de 1962. Rubem Fonseca, em Abril, no Rio, em 1970, conta a história de um jovem que tenta  sorte no futebol. Em Copa do Mundo: alegria e sofrimento, lembra a Copa de 1950 e a tristeza pela perda do título naquele lendário Brasil e Uruguai no Maracanã. Aí vem Luis Fernando Veríssimo, com seus saborosos textos fazendo um retrospecto das Seleções Brasileiras de 1970 a 1998 em Recapitulando. Depois, em Prefiro terremoto, fala da final da Copa de 2002, quando o Brasil derrotou a Alemanha com dois gols de Ronaldo, o Fenômeno. No final, dois poemas de João Cabral de Melo Neto. Ou futebol não combina com poesia ou eu, definitivamente, não gosto de poesia.           

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Adultérios – Wood Allen

“Coerência é o fantasma das mentes pequenas”.
Dos livros que li de Woody Allen e sobre os quais falei aqui no blog nas semanas anteriores, Adultérios, publicado em 2003, é o melhor. Podemos dizer que aqui ele acerta a mão. Por coincidência, é um livro em que Allen não tenta fazer aquelas piadas tipicamente americanas que só americanos nascidos e criados em Nova York, mais especificamente em Manhattan, entendem. Nesse livro, Woody Allen consegue fazer jus à sua fama de gênio criativo, com personagens imprevisíveis e enredo cheio de reviravoltas.  São três histórias só com diálogos, num formato parecido com peça de teatro, todas passadas em Nova York com personagens tipicamente nova-iorquinos e que têm como temática a infidelidade.
“Por que qualquer marido fica entediado em relação à própria mulher? Porque com o tempo eles ficam se conhecendo demais”.
Na primeira delas, Bloqueio criativo – Riverside Drive, encontramos o escritor e roteirista Jim Swain num parque à espera de alguém. Antes que a pessoa esperada chegue, Fred, um mendigo, aborda e escritor com uma conversa desconexa. O problema é que Fred, na sua loucura, conhece a fundo a vida de Jim, inclusive seus detalhes mais íntimos, o que assusta o escritor. Para complicar, Fred acusa Jim de ter roubado a sua ideia em um dos roteiros de sucesso do escritor. Fred expõe os fatos de forma confusa, afirmando que recebe informações de uma antena instalada num dos prédios da cidade. Jim não sabe se está diante de um gênio ou de um louco.     
“Um pau duro não tem consciência”.
Na segunda história (e a melhor), Bloqueio criativo – Old Saybrook, Sheila e Norman estão fazendo um churrasco em casa para Jenny (irmã de Sheila) e David. Tudo corria bem, até que Hal e Sandy, antigos moradores da casa, chegam e revelam a existência de um cofre secreto na casa que guarda segredos de um dos personagens. Mas essa não é a única confusão na história. Max Krolian, primeiro morador da casa, aparece descendo as escadas, amordaçado e gritando, e faz revelações surpreendentes. O que torna essa história a melhor das três é o fato das reviravoltas no enredo não ensejarem no final da história, mas abrir a possibilidade de continuidade do enredo.
“As pessoas nunca nos odeiam pelas nossas fraquezas... elas nos odeiam pelos nossos pontos fortes”. 

A terceira história, Central Park West, tem semelhanças com a história anterior, porém com um viés mais dramático. Phylis, uma renomada terapeuta, fala para a amiga Carol que seu marido, Sam, está tendo um caso com outra mulher e saiu de casa. Essa outra mulher, revela Phyllis, era Carol, que não nega o romance. Quando o marido de Carol, Howard, um bobalhão, chega, tudo é revelado. Sam entre em cena e confirma toda a história, mas revela que a mulher por quem se apaixonou não é Carol, mas Juliet, que tem metade da sua idade e é paciente de Phyllis. Uma história com inúmeras reviravoltas e um final inesperado. 

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Jucá sincero

A chamada “delação do fim do mundo”, que veio à tona na semana passada, poderia representar um divisor de águas na história política brasileira. Só poderia! Facilmente veremos, no ano que vem, os 39 deputados federais, os 24 senadores e os 12 governadores denunciados pelos executivos e ex-dirigentes da construtora Odebrecht reeleitos ou eleitos para algum cargo eletivo. Se os políticos são as prostitutas de luxo do empresariado, como vimos nas delações, onde ninguém é de ninguém, vale quem der mais, o eleitor é a puta barata do político, se vendendo por qualquer carguinho comissionado ou favores menores ainda.
Mas nem tudo está perdido! Temos Romero Jucá, o Sincero. O indefectível senador Romero Jucá, do PMDB de Roraima, teve um surto de sinceridade em meio à uma enxurrada de desculpas esfarrapadas. É costume aos envolvidos em escândalos, qualquer escândalo, emitir aquela nota protocolar em que afirma que “todas as doações foram registradas legalmente e a prestação de contas foi aprovada pela justiça eleitoral” ou “estou à disposição da justiça para qualquer esclarecimento” ou ainda “minha inocência será comprovada no decorrer do processo”. Parece até que fazem Ctrl+C/Ctrl+V.
Mas Romero Jucá, o Sincero, fez diferente. Podem acusa-lo de qualquer coisa, menos de falta de originalidade. Citado em cinco inquéritos por suspeita de receber dinheiro em troca de aprovação de Medidas Provisórias, Jucá, o Sincero, falou numa entrevista na rádio CBN que por “R$ 150 mil não se vende Medida Provisória nem na feira do Paraguai”. Tá certo! As Medidas provisórias de Brasília são originais, portanto são mais caras. Vai querer comparar uma MP original de fábrica com uma produzida na China ou em Taiwan? Que disparate!
Se Renan Calheiros (PMDB-AL) é acusado de receber, em apenas um dos quatro inquéritos, R$ 4 milhões, por que o nosso Jucá, o Sincero, teria que se contentar com “apenas” R$ 150 mil? Se Valdir Raupp (PMDB-RO) é acusado de ter um “fundo” de R$ 20 milhões originário da Odebrecht e Andrade Gutierrez, por que nosso transparente Jucá tem que se contentar com reles R$ 150 mil? Jucá, o nacionalista, está apenas defendendo a MP nacional contra a MP fabricada no estrangeiro de qualidade duvidosa. Jucá, o legalista, está apenas defendendo a MP original de fábrica contra a pirataria que destrói os empregos do nosso povo.
Contra a Medida Provisória pirata!
Conta a Medida Provisória imperialista!
Pela isonomia na corrupção!

Viva Jucá, o Sincero!   

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Que loucura! – Woody Allen

“Como uma pessoa consegue ficar casada por 40 anos? Para mim, isso parece um milagre ainda maior do que a divisão do Mar Vermelho, embora meu pai, na sua ingenuidade, considere essa façanha muito mais impressionante”.
Publicado em 1980, quando Allen já era um artista conhecido e aclamado, Que loucura!  traz dezesseis textos (e não dezessete, como é anunciado na contracapa) em que autor mistura humor (na maioria sem graça), filosofia e psicanálise. Logo no primeiro texto, Retribuição, Allen acerta ao contar a história do sujeito insípido e sem atrativos que se apaixona e tem a paixão correspondida por uma mulher belíssima. O problema está quando o sujeito conhece a sogra. Um conto que poderia ser perfeitamente transformado em filme, com um personagem cheio de neuroses típico de Woody Allen. O segundo texto, Meu tipo inesquecível, é um conto repleto de piadas sem graça onde o personagem/narrador relembra a morte do seu amigo Sandor Needleman.
“Esse é o problema da filosofia: já não funciona tão bem depois da aula, ou seja, na vida real”.
Woody Allen fracassa ao tentar ser engraçado em O condenado e A ameaça de um OVNI, mas nesse último consegue pelo menos fazer uns questionamentos ligeiramente inteligentes, como ”se os discos voadores vêm do espaço exterior, por que seus pilotos não entram em contato conosco, em vez de insistirem nesses ridículos voos rasantes sobre áreas desertas?”. O ponto alto do livro é, indiscutivelmente, O caso Gugelmass, sobre um professor de literatura da Universidade de Nova York que se sente sufocado pela mesmice da vida e por um casamento sem nenhum atrativo. Certo dia é procurado por um mágico que promete coloca-lo dentro de qualquer livro. De uma hora para outra, Gugelmass se vê tendo um caso com Madame Bovary, personagem de Flaubert. Enquanto isso, estudantes de literatura mundo afora se perguntam: "Quem é esse judeu careca que entrou na história por volta da página 100 e já foi beijando Madame Bovary?".
“A loucura é relativa. Quem pode definir o que é verdadeiramente são ou insano?”

Alguns veem similaridade entre essa história e o enredo de Meia noite em Paris, do próprio Allen, lançado em 2011. Os dois textos seguintes, Como quase matei o presidente dos Estados Unidos e Na pele se Sócrates, podemos classificar como “bonzinhos”, o leitor não perderá nada se não lê-los. Os textos que vem a seguir são dispensáveis, com um humor sem graça e histórias que saem do nada e chegam a lugar algum. É o caso do texto que dá título ao livro, Que loucura!, tinha tudo para ser um bom conto, mas faz jus ao título, é uma loucura sem sentido! O mais idiota dos homens é um exemplo de como Allen se sai bem quando tenta contar uma história sem fazer graça, mesmo quando essa história não é tão boa. O seu talento para a telona, em enredos com grande capacidade de articulação de ideias, não aparece quando Allen se aventura na literatura. 

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Sem plumas – Woody Allen

“Fico me perguntando se haverá vida depois da morte e, se houver, se eles me permitirão chegar ao fim dos meus dias”.
Woody Allen é praticamente uma unanimidade como cineasta, mas não creio que seja como escritor. Pelo menos é essa conclusão a que se chega lendo alguns dos seus livros. Sem plumas, publicado originalmente em 1975, na edição brasileira da editora L&PM há uma curiosidade. Ali é dito fala que a obra é composta de 18 textos. Na realidade são dezessete. Outra curiosidade é que o livro teria frequentado as listas dos mais vendidos em todo o mundo. É difícil de saber a razão para isso. O livro não é bom. Tem textos bons, mas tais textos não seriam suficientes para torna-lo um best-seller
“E depois da morte, ainda será necessário tomar banho?”
Em Excertos de um diário, a sensação que fica é que se você nunca ler o texto não terá perdido nada. A sensação insiste em permanecer no segundo texto, Examinando fenômenos psíquicos. No terceiro, Alguns balés sem importância, fiquei seriamente tentado a abandonar a leitura, pois esse texto faz jus ao título. No quarto, Os pergaminhos, a esperança ressurge. É um texto que traz sutis críticas (irônicas) às religiões. Em As mulheres de Lovborg, a sensação é que Allen não escreve, apenas coloca as palavras umas depois das outras, aleatoriamente. Finalmente o leitor se depara com um texto digno de um gênio que dizem que Allen é, Puta com PhD, uma sátira com os romances noir, onde as prostitutas não vendem sexo, mas seu conhecimento literário.
“Morrer é uma das coisas que mais detesto fazer”. 

O texto seguinte também é bom, Morte, sobre um sujeito pacato (eufemismo para medroso) chamado Kleinman, é acordado de madrugada pelos homens da pequena cidade onde morava para caçar um serial killer que estava atacando na região. Depois desse texto, o que se vê é uma aridez criativa (ou seria excesso de criatividade? O problema estaria nesse pobre leitor ignorante?), escapando apenas mais um texto, Deus, sobre uma peça que se passa na Grécia Antiga que o autor não consegue escrever o final. Os outros nove textos são um amontoado de piadas sem graça, aquelas piadas tipicamente americanas em que somente os americanos riem. Se elas realmente são engraçadas, o resto da humanidade é parvo. 

quarta-feira, 29 de março de 2017

Os cães ladram: pessoas públicas e lugares privados – Truman Capote

“As leituras por conta própria desempenharam um papel mais importante do que a instrução oficial, que foi pura perda de tempo e se encerrou quando completei dezessete anos...”.
Para o jornalista e escritor americano Truman Capote, tudo podia render uma boa história, desde que bem observado. Ele deu mostras disso ao escrever A sangue frio, o relato de um brutal assassinato cometido num vilarejo do extremo oeste do estado do Arkansas e que virou um marco da literatura americana do século XX, publicado em 1966. Em Os cães ladram: pessoas públicas e lugares privados, uma coletânea de relatos de viagens e rascunhos pessoais que cobre trinta anos da sua vida, publicado em 1973, Truman Capote fala de diversos locais por onde passou e os personagens que encontrou em cada um desses locais. A forma como as pessoas são descritas parece ao leitor que se trata de personagens de um livro. Mas algumas dessas pessoas eram (e ainda são) conhecidas do grande público, o que, em alguns casos, trouxe problemas para o autor.
“A morte de um sonho não é menos triste do que a morte e, realmente, exige de quem a sofre um lamento tão profundo quanto”.
A primeira parte do livro, Cor local, é composta por textos que o autor chama de “impressões imaturas” e fizeram parte de um livro publicado em 1951. São os relatos das viagens que autor fez ao redor do mundo e pelos Estados Unidos. No relato da viagem ao Haiti, onde esteve em 1948, Capote faz um relato fantástico das festas populares do país. Em Veneza, no mesmo ano, a paixão obsessiva de uma delinquente juvenil pela pessoa que acompanhava Capote obriga os dois a saírem da cidade às pressas. No ano seguinte, o autor esteve na ilha italiana de Ischia, onde teve a oportunidade de encontra, refugiados numa ilha deserta, o que sobrou da família Mussolini. Num dos bairros boêmios de Tânger, no Marrocos, chamado Petit Soko, Capote relatará a existência de personagens, que ele chama de “celebridades” locais, como Estelle, a prostituta que chegou de iate particular e foi abandonada no local; o dançarino Maumi; e Lady Warbanks, que já teria sido, num passado não especificado, considerada a mulher mais bonita de Londres.        
“Não há gênero de intolerância mais desgastante do que o resultante da condenação de características que você mesmo possui”.
Na segunda parte, intitulada As musas são ouvidas, nos dois primeiros textos, Quando os canhões se calam e As musas são ouvidas, Capote relata a viagem de um grupo de teatro americano á União Soviética, em dezembro de 1955, em plena Guerra Fria, apresentando a ópera Porgy and Bass. Entre relatos sobre a burocracia da viagem, como as dificuldades para entrar na URSS, o financiamento dos atores pelo Partido Comunista, já que o governo americano se recusou a patrocinar a viagem, Capote flana sobre tudo e todos. Descreve as apreensões dos artistas sobre possíveis escutas instaladas nos quartos dos hotéis, o cotidiano da companhia teatral numa terra estrangeira e sobre peculiaridades de cada um, o que levou muitos dos citados a descrevê-lo como um texto “apenas venenoso”.
“A arte e a verdade não são necessariamente compatíveis”.

Mas não foi assim que Marlon Brando reagiu a O duque em seus domínios. O relato que Capote fez da viagem ao Japão, em 1956, para entrevistar o astro que estava no país granando o filme Saionara. Foi pior! “Vou matar aquele cara!”, teria dito Brando quando soube do texto. Não matou. Mas o perfil traçado do astro de Hollywood é de um sujeito egocêntrico, entediado com o sucesso, mas que não consegue viver sem o clima de bajulação que se criou em sua volta. No prefácio Os cães ladram, Capote fala que Brando pode até “ser um gênio, mas não se distingue pela inteligência”. E volta a falar de Brando na terceira parte do livro, Observações, quando diz que nenhum outro ator levou “a falsidade intelectual a níveis tão altos de pretensão risível”. Sobra também para Bob Dylan, “um sofisticado (?) vigarista musical que finge ser um revolucionário sincero (?) e caipira piegas”. Nessa parte do livro Capote dispara sua metralhadora verbal. Disse que Greta Garbo era “uma mulher egoísta e cansativa” e que Elizabeth Taylor era essencialmente inocente por achar que, ao dormir com um homem, teria que, necessariamente, casar com ele. Capote acrescentou que ambas faziam do “encanto” uma profissão. André Gide é descrito como um “escritor desprovido de imaginação”, Jean Cocteau, uma figura “vigorosamente insincera” e Marilyn Monroe uma “divindade desleixada”, conquistada pelo cartão de crédito, cuja carreira progrediu “do cabelo pintado aos doze a um ou três maridos confiscados aos vinte”.        

quarta-feira, 22 de março de 2017

The 42nd Street Band – Renato Russo

Durante a juventude, Renato Manfredini Jr. foi acometido pela epifisiólise, uma doença rara que provoca fortes dores nos ossos. Entre os quinze e os dezesseis anos, o futuro astro do rock nacional foi obrigado a ficar preso a uma cama por causa de uma cirurgia mal sucedida (um pino foi aplicado sobre seu nervo) e nesse período de convalescência e ócio, escreveu a história de uma banda imaginária. Esses manuscritos ficaram longe dos olhos do público até o ano passado, quando foram reunidos pelo seu filho, Giuliano Manfredini, e lançado em livro durante as homenagens pelos 20 anos da morte do músico.
Todo escrito em inglês, o material estava disperso em cadernos e folhas soltas e deu origem a The 42nd Street Band, a história de uma banda inglesa homônima formada pelos primos Eric Russel (homenagem a Jean-Jacques Rousseau e Bertrand Russell, que Renato adotaria mais tarde como nome artístico, mudando-o para Russo), Jesse Philips e Nick Beauvy. Nos textos reunidos, Renato mistura realidade e imaginação, colocando na história personagens reais, como Mick Taylor, dos Rolling Stones, e fictícios. Como também faz referências a musicas e álbuns que existiram de fato.
É possível também observar um prenúncio do que viria a ser Renato como astro do rock nacional. Vestígios e traços das letras e nomes de músicas da banda imaginária apareceram mais tarde em músicas feitas pelo músico durante a sua carreira. Mas o livro é confuso. A narrativa, muitas vezes, começa e termina de forma abrupta, como também apresenta repetições e divergências de informações. Na “Nota Editorial”, no início do livro, esses “deslizes” são creditados ao fato do material ter sido encontrado “espalhado”. Mas a imagem que fica é a de que o livro é tão somente uma forma de ganhar algum dinheiro a mais com a imagem do músico, pegando uma carona nas homenagens dos 20 anos de sua morte. Em outras palavras, uma obra “caça-níquel”, perfeitamente dispensável.

No entanto, apesar de ser uma obra dispensável até mesmo para o mais apaixonado dos fãs do Renato e da Legião Urbana, como eu, o livro nos deixa duas conclusões sobre o músico. A primeira delas é que Renato Russo vivia e respirava música desde a mais tenra idade. A segunda conclusão é de que devemos comemorar a fato dele não ter se tornado escritor. Ganharíamos um romancista sofrível e perderíamos um músico genial.            

domingo, 19 de março de 2017

Há algo de podre no reino da Dinamarca

Há algo de podre no reino da Dinamarca. Hamlet talvez jurasse que o mau cheiro viesse do Planalto Central. Ele descobriu, tarde demais, que o cheiro pútrido vinha da sua cozinha, da sua panela, do seu prato. A carne que ele comprou, a mais cara da melhor marca, estava podre. Isso se Hamlet vivesse no Brasil do século XXI e comprasse carne em supermercado. Isso se Hamlet vivesse no Brasil e assistisse os comerciais dos frigoríficos falando em “carnes nobres e linguiça com 30% menos sódio” ou sendo convencido de que “a qualidade vai te surpreender”.
Se as investigações da Polícia Federal com a operação “Carne Fraca” estiverem certas, o que vai nos surpreender são as estratégias dos frigoríficos para aumentar seus lucros. E não estamos falando de matadouros clandestinos na periferia do país! Estamos falando de grandes frigoríficos, pertencentes a algumas das maiores empresas do ramo no mundo, que são donos de marcas conhecidas e líderes do mercado, como Sadia, Perdigão, Friboi, Seara, Swift. Estamos falando de marcas que gastam fortunas em comerciais com estrelas de renome e que tem (ou tinham) a confiança do consumidor.
Nessa semana, a Polícia Federal mobilizou 1.100 agentes para cumprir 309 mandados judiciais em sete estados, naquela que é considerada a maior operação da história da instituição. Os alvos eram os grandes frigoríficos do país. O que a investigação revela é um verdadeiro cenário de horrores. Se os vegetarianos já afirmavam que comíamos cadáveres, agora já podem afirmar que comemos cadáveres em decomposição.
Segundo a PF, algumas empresas (não citou quais) usavam ácido sórbico, uma substância cancerígena, para disfarçar o sabor da carne para os consumidores e utilizavam notas fiscais frias para que o produto fosse vendido como se tivesse em condições ideias para consumo. Além disso, injetavam água na carne para aumentar seu peso. Ou seja, além de podre, o consumidor não levava o que pagava. Sem contar o aproveitamento da carne de cabeça em linguiça suína, o que é proibido pela legislação; e a comercialização de carne contaminada com Salmonela, uma bactéria que causa diarreia, dores abdominais e febre. Em casos mais graves pode causar a morte.  
Mas nada disso diminuiu a vontade das empresas de aumentar os seus lucros. Nem a vontade dos fiscais, funcionários públicos que deveriam zelar pela qualidade dos produtos que seriam consumidos pela população, em levar algum tipo de vantagem ilegal. Parece ironia, mas umas das formas de propina oferecidas pelas empresas aos fiscais era carne. A mesma carne contaminada e vencida que era vendida aos consumidores. A desonestidade do fiscal corrupto era maior do que os cuidados com a própria saúde e a dos seus familiares. 

A soda cáustica no leite, o solvente na gasolina, o milho na cerveja, a farinha no remédio e o papelão no frango mostram que há algo de podre, muito podre nesse reino.   

quarta-feira, 15 de março de 2017

Meninos em fúria: e o som que mudou a música para sempre - Marcelo Rubens Paiva e Clemente Tadeu Nascimento

“O rock’n’roll é rebelião, não consumo!”
Fruto da parceria do jornalista e escritor Marcelo Rubens Paiva com o baixista e vocalista da banda punk Inocentes Clemente Tadeu Nascimento, Meninos em fúria: e o som que mudou a música para sempre, publicado em 2016, faz um registro da história do rock brasileiro, mais especificamente do punk. Originalmente, segundo o depoimento dos autores, a livro era para ser uma biografia do Clemente, um dos precursores do punk rock no Brasil. No entanto, por algum motivo não explicado (e acredito que nem eles saibam), o livro se transformou numa compilação de memórias dos dois: um velho punk de meia idade e um jornalista quase punk também de meia idade, ambos com muitas histórias para contar.
“Na ditadura, nossos pensamentos eram vedados, nossas palavras, mais ainda, mas nossos corpos eram livres. Nossos corpos e cabelos eram a nossa única possibilidade de expressão”.
Marcelo Rubens Paiva, veterano escritor, autor do best-seller Feliz ano velho (1981), mostra que é um competente contador de histórias e anedotas. Nos dois primeiros capítulos, Paiva de dedica a mostrar, sempre em primeira pessoa, a cena musical brasileira no final dos anos 70 e início dos anos 80. Por coincidência, na mesma época em que sofreu o acidente que o deixou paraplégico, tema do seu primeiro livro. Muito próximo do ambiente musical da época, ensaiava os primeiros passos como músico (e estudante universitário) quando sofreu o acidente. Esse fato, porém, não impediu Paiva de continuar frequentando os shows das bandas que surgiam.
“Algo difícil de explicar do mundo punk: o sucesso não interessava. O sucesso é burguês. Fazer sucesso é ceder”.

Já clemente é o fio condutor da narrativa. De origem humilde, sempre foi obcecado por música. Em 1978, aos quinze anos, iniciou sua carreira como baixista da banda Restos de Nada, considerada a primeira banda punk do Brasil. Em 1981, foi um dos fundadores da banda Inocentes, até hoje em atividade. Era uma época conturbada, além da repressão da polícia à qualquer movimento cultural que fosse visto como “subversivo”, os próprio punks também não se entendiam. As tretas entre os punks de são Paulo, entre os quais Clemente, com os punks do ABC eram frequentes. Como se fosse num bate papo numa roda de amigos, Marcelo Rubens Paiva e Clemente usam as próprias experiências para falar de uma época em que o país passava por intensas mudanças políticas, sociais, econômicas e, por que não dizer, musical também.