quarta-feira, 21 de junho de 2017

O papa e Mussolini – David I. Kertzer

Em fevereiro de 1922, Achille Ratti é eleito papa pelos seus colegas cardeais, na décima quinta votação, e adota o nome de Pio XI. No mesmo ano em outubro, Benito Mussolini foi nomeado primeiro-ministro pelo rei Vítor Emanuel III. A igreja precisava do poder político para recuperar seus domínios e outros benefícios perdidos no século anterior durante a Unificação Italiana. Mussolini precisava da Igreja para que a população Italiana, de maioria católica, o visse como o líder a ser seguido para a pacificação do país. A história desse acordo é o tema do livro O papa e Mussolini: a conexão secreta entre Pio XI e a ascensão do fascismo na Europa, do professor de antropologia e de estudos italianos da Universidade de Brown (EUA) David Kertzer.  
Apesar das diferenças brutais entre ambos (Pio XI era erudito e devoto; Mussolini, violento e tinha aversão ao catolicismo), os interesses de ambos prevaleceram. Segundo Kertzer, “o fascismo se estabeleceu na Itália graças ao apoio do Vaticano”. Em retribuição, Mussolini restaurou todos os privilégios que a Igreja Católica tinha antes da Unificação Italiana de 1870, como a obrigatoriedade do ensino de religião nas escolas, a presença do crucifixo nas repartições públicas, isenções de impostos e até mesmo a reforma de igrejas. O Tratado de Latrão, assinado em 1929 por Pio XI e Mussolini, entre outras coisas, restitui as propriedades que a igreja tinha pedido no século anterior e cria um Estado independente dentro da cidade de Roma, o Vaticano.  
Mas enquanto conta a história desse acordo, Kertzel traça um perfil de Pio XI, um papa que tinha aversão à democracia e um verdadeiro pavor de qualquer coisa parecida com comunismo, e desmistifica alguns fatos da biografia de Mussolini. Um desses mitos é sobre a famosa Marcha sobre Roma, a manifestação fascista que teria contribuído para a ascensão de Mussolini ao poder. Sempre se falou em 300 mil fascistas bem armados praticando atos de violência contra opositores. Kertzel afirma que não passavam de 26 mil homens mal armados (alguns desarmados). O que aconteceu para que o evento alcançasse a objetivo foi a falta de vontade do rei Vítor Emanuel em combatê-los. O soberano, assim como o papa, via em Mussolini não apenas um mal menor, mas a melhor forma de combater os comunistas. 
Esse acordo dura até 1939, quando Pio XI prepara dois documentos para denunciar a aliança de Mussolini com Hitler. No entanto, o pontífice morre na véspera da leitura de um dos documentos. Só foi possível contar uma versão diferente da narrativa padrão do Vaticano sobre esses acontecimentos depois que a própria Igreja liberou, em 2006, documentos referentes ao papado de Pio XI, como também vieram a público documentos do Arquivo do Jesuítas, em Roma. A expectativa agora é que o papa Francisco libere os documentos referentes ao papado de Pio XII (1939-1958), sucessor de Pio XI, chamado por muitos de “o papa de Hitler” pelo seu silêncio com relação ao Holocausto.


quarta-feira, 14 de junho de 2017

O rebelde do traço: a vida de Henfil – Dênis de Moraes

“Na minha opinião, o cartunista não pode trabalhar a serviço do Estado. Devemos ser eternas ovelhas negras”. (Henfil)
Publicado originalmente em 1996, O rebelde do traço: a vida de Henfil, do jornalista Dênis de Moraes, recebeu uma edição revista e ampliada no ano passado, vinte anos depois da publicação original. É um livro de fazer rir e chorar. Autor de personagens engraçadíssimos, como Graúna Fradinho, Henrique de Souza Filho, o Henfil, maior cartunista brasileiro, era ele próprio um personagem. Os méritos do livro não se resumem a contar a vida de um dos maiores artistas da sua geração, mas contar uma fase da história do Brasil da qual Henfil participou ativamente: a Ditadura Militar e redemocratização do Brasil, a partir de 1985.
Nascido em Ribeirão das Neves (MG), em 1944, foi um dos três filhos do casal Henrique e Maria da Conceição a nascer com hemofilia, doença pouco conhecida no País na época, o que obrigou a família a se mudar para Belo Horizonte. Foi exatamente o medo de se ferir durante as travessuras de infância (a hemofilia dificulta a coagulação do sengue) que levou o pequeno Henrique a se dedicar ao desenho. Seu trabalho como desenhista começa com os cartazes da AP (Ação Popular), organização de esquerda da qual fazia parte seu irmão Betinho, também hemofílico.

Dos cartazes para os jornais e revistas. Foi no seu primeiro emprego, na revista Alterosa, que Henfil recebeu o apelido que o acompanharia pelo resto da vida. Que o batizou foi ninguém menos que Roberto Drummond, editor da revista e responsável pela sua contratação. Mas, ao mesmo tempo em que narra os casos e conflitos, os afetos e desafetos de Henfil, o autor faz um panorama histórico dos anos 70 e 80, mostrando as organizações de esquerda que combatiam o governo militar e como a ditadura agia para reprimir os movimentos clandestinos que se infiltravam em vários setores da sociedade, entre eles o jornalismo. Henfil faleceu em janeiro de 1988, vítima da AIDS, e sua morte marcou, em um certo sentido, a morte do cartum político.      

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Bukowski: vida e loucuras de um velho safado – Howard Sounes

”Bukowski não perdia tempo com drogas, mas era um bêbado barulhento”. 
Começo com uma pergunta: se os textos de Charles Bukowski são autobiográficos, o que há mais para se saber sobre a sua vida? O jornalista britânico Howard Sounes não conheceu Charles Bukowski. Quando ele começou a trabalhar na biografia, o autor já tinha morrido. Todas as histórias de Bukowski: vida e loucuras de um velho safado, publicado originalmente em 1998 (aqui no Brasil, em 2016), foram contadas a partir de entrevistas com amigos, amantes, colegas de trabalho, editores e familiares. Como Bukowski era um missivista fértil, sua correspondência com amigos e amantes também foi fundamental para traçar não apenas um perfil literário, mas para desvendar o que pensava e como pensava esse escritor de textos ácidos e mal humorados (e ao mesmo tempo cômicos).
“A crueldade do pai foi o que mais influenciou a personalidade de Bukowski, seguida de perto da acne desfiguradora que estourou quando tinha treze anos”.
Nascido na Alemanha, filho de mãe alemã e pai americano (um soldado que foi para a Europa durante a I guerra), migrou ainda criança para os Estados Unidos. Com um pai violento e autoritário, uma mãe omissa e um problema terrível de acne, Bukowski teve uma infância e adolescência difíceis. Ainda criança, foi diagnosticado com dislexia, o que despertou a ira paterna, que atribuía seu mal desempenho escolar à falta de vontade de estudar.  Some-se à essa relação conflituosa com pai, o seu problema de espinhas, que dificultava a sua sociabilidade. “Uma infância atormentada me fodeu. Mas é assim que sou, então vou viver com isso”. Em cartas a amigos e entrevistas, o escritor dizia que sua infância foi “triste e assustadora”.   Expulso de casa, entregou-se à bebida e vagou pelo país, sem dinheiro e sem destino. Alistou-se voluntariamente no recrutamento para a segunda Guerra Mundial, mas, apesar de passar no exame físico, foi dispensado por problemas mentais e classificado como 4-F, que significava “psicopata”.
“fante era meu Deus. Ele viria a influenciar minha obra por toda a vida” (Charles Bukowski).
A vida sexual de Bukowski era um problema a parte. Perdeu a virgindade com uma prostituta depois dos vinte anos e conheceu seu grande amor somente aos vinte e oito. Jane Cooney Baker, dez anos mais velha que ele, era uma alcoólatra que perdera o contato com a família e morreu antes dele fazer sucesso. Apesar da relação turbulenta, Jane inspirou o que há de melhor na obra de Bukowski. E a relação com as mulheres que passaram em sua vida não foi diferente em termos de turbulência. Para piorar, muitas delas só vieram descobrir que ele as usava como matéria-prima para seus romances quando foi publicado Mulheres, seu terceiro romance, em 1978. Mesmo mudando os nomes e declarando que aquilo tudo era ficção, causou constrangimento para muitas ex-namoradas ver detalhes íntimos (inclusive sexual) expostos no livro.
“Uma das principais objeções de Bukowski aos escritores Beat era que muitos deles eram homossexuais”.
Se a vida sexual de Bukowski começou tarde, o sucesso também. Apesar de ver vários dos seus textos em pequenas revistas de público restrito, o primeiro livro, Cartas na rua, só foi publicado em 1960, quando o autor tinha quarenta anos. Nele, aparece pela primeira vez Henry Chinaski, alterego do autor. Respondendo a pergunta do início desse texto, a obra de Sounes é importante, pois ele desmistifica algumas das histórias contadas por Bukowski nos seus livros, ou seja, é a mesma história sob um ponto de vista diferente. E faz tudo isso com uma narrativa ágil, fluente e límpido, sem afetações estilísticas. E ainda mostra um lado pouco conhecido do autor, como a homofobia, uma das razões para ele desprezar os escritores Beat, na maioria homossexuais, segundo Bukowski. Mas nem os defeitos tiram a genialidade do “Velho safado”.         

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Discobiografia legionária – Chris Fuscaldo

“Não sei se há alguma contradição nisso. Depois que fiz o disco (As quatro estações), comecei a achar que Deus não existe”, Renato Russo, ao ser questionado pelo jornal O Globo se era compatível ser cristão e gostar de se relacionar com ambos os sexos. 
Em 2010, a jornalista e pesquisadora Chris Fuscaldo foi contratada pela gravadora EMI para escrever textos para o relançamento em CD da discografia completa da Legião Urbana que seria lançada naquele ano. Naquela ocasião, a edição mal feita pela gravadora gerou a insatisfação da autora. Depois de realizar novas entrevistas e apurar mais informações, tendo como base os textos de 2010, Fuscaldo publicou, no ano passado, durante as celebrações dos vinte anos da morte do líder da banda, Discobiografia legionária, um apanhado de histórias acontecidas dentro dos estúdios enquanto a banda gravava seus discos.
O livro se divide em três partes. Na primeira delas, Discos de estúdio, fala sobre os bastidores dos oito discos que a banda gravou. A primeira curiosidade está logo no primeiro disco, Legião Urbana, gravado em 1985, quando Renato, ainda um cantor desconhecido, não facilitou a vida da gravadora. Segundo Jorge Davidson, gerente artístico da EMI-Odeon, gravadora com quem o grupo iria assinar um contrato para a gravação de três discos afirma que Renato Russo “não foi humilde nem se emocionou, mas se mostrou gentil e agradável. Fez uma série de perguntas, como se já fosse um artista em negociação”.
Outra curiosidade está no terceiro disco, Que país é esse 1978/1985, lançado em 1987, que foi gravado às pressas, em pouco mais de um mês, por três motivos: a gravadora estava cobrando que a banda fechasse logo o ciclo dos três primeiros discos em 36 meses, prazo já estourado; Renato vivia uma crise de criatividade; e o cantor temia perder para a nova banda dos irmãos Lemos (Fê e Flávio), Capital Inicial, as músicas que o trio tocava na época do Aborto Elétrico. A gravação desse disco também é marcada pelo inicio da crise que levaria a expulsão do baixista Renato Rocha da banda por chegar reiteradamente atrasado ás gravações, perder voos e também por, do ponto de vista dos demais integrantes do grupo, não se dedicar às composições como deveria.   
A segunda parte do livro, Discos ao vivo e coletâneas, mostra que Música para acampamento, disco lançado em 1992, tinha uma única finalidade: ganhar dinheiro. “Não foi um álbum de carreira, foi um disco para a gente levantar recursos”, lembra Rafael Borges, então empresário da banda. Como a turnê do disco V, lançado no ano anterior, tinha sido suspensa para Renato se tratar dos seus vícios (álcool e heroína), da depressão e da doença descoberta em 1990, a banda passava por problemas financeiros. No entanto, o mesmo Rafael tenta minimizar, afirmando que Renato, “jamais faria algo puramente mercantilista”. Por isso, mesmo a distância, o vocalista quis dar aos fãs um disco que fosse relevante e não uma simples repetição, resgatando participações em programas de rádios, em ensaios e em shows para compor um disco ao vivo.
No disco Acústico MTV, os dramas de Renato tiraram o sono da direção da TV especializada em música. Alguns minutos antes de começar a gravação, Renato, ainda no hotel, desistiu de gravar o show alegando dúvidas com relação ao repertório. Problema contornado, foi a vez do baterista Marcelo Bonfá, que resistiu até o último minuto em trocar as baquetas pela vassourinha de jazz, usadas no formato umplugged.
A terceira e última parte, Discos solos, fala sobre os discos que foram lançados sem a participação dos demais membros da banda. No entanto, somente os dois primeiros, The Stonewall Celebration Concert, lançado em 1994, e Equilíbrio distante, de 1995, são projetos pessoais de Renato Russo. Os demais são projetos da gravadora com o intuito, é o que se percebe, de ganhar dinheiro após a morte do músico. The Stonewall Celebration Concert, planejado por Renato desde o ano anterior, foi uma forma do músico manifestar a sua militância pelos direitos dos homossexuais. Stonewall Inn é o nome do bar em Nova York onde, no fim da década de 60, gays entraram em confronto com a polícia. Já Equilíbrio distante foi uma realização pessoal de Renato, descendente de italianos, que queria conhecer suas origens e falar o idioma italiano sem sotaque. Apesar da depressão que o acometeu durante as gravações, é divertido conhecer as histórias que envolvem a produção desse disco.    

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Em uma só pessoa – John Irving

“Acho que você notou que pessoas muito convencionais ou ignorantes não têm senso de humor para travestis”.
Fiz uma releitura de Em uma só pessoa, do escritor e roteirista norte-americano John Irving, publicado em 2012. Se tinha gostado da primeira vez em que li, agora posso afirmar que o livro, além de ser considerado um candidato a clássico, pode ser transformado numa Bíblia para todos aqueles que defendem uma sociedade que respeite as diferenças de qualquer natureza. Com uma narrativa envolvente, Irving se mostra “intolerante com a intolerância”, contando as histórias de jovens que abriam mão de ser o que eram para viver o que a sociedade em que estavam inseridos esperava deles.  
“Nós somos formados pelo que desejamos. Em menos de um minuto de excitação e desejos secretos, eu quis me tornar escritor e fazer sexo com a Srta. Frost – não necessariamente nessa ordem”.
Toda a história é contada por Billy Abbott, um escritor bem sucedido que mora em Nova York e resolve fazer, em 2010, uma retrospectiva das suas paixões ao longo da vida. Paixões essas que incluíam o teatro, a literatura, as mulheres e os homens. Na casa dos sessenta anos, Billy relembra sua infância e adolescência na pequena e fictícia First Sister, no estado americano de Vermont, até a idade adulta, de forma não linear, uma existência marcada pela não aceitação social da sua bissexualidade e pelo amor à arte.
“Será que minha mãe e Nana Victória não conseguiam ver que eu me sentia ao mesmo tempo perplexo e assustado pela vida na terra?”
A narrativa começa nos anos cinquenta na pequena cidade natal de Billy quando ele, aos treze anos, vai fazer seu cartão na biblioteca pública e se apaixona pela escultural Srta. Frost, a bibliotecária quarentona (Billy não sabia, mas a paixão pela Srta. Frost iria moldar todas as paixões que ele teria por toda a sua vida). É ela quem o inicia na literatura, indicando livros sobre “atrações pelas pessoas erradas”, a pedido do garoto, já que Billy, ao mesmo tempo em que nutria a paixão pela bibliotecária, se sentia atraído pelo padrasto Richard Abbott. O coração de Billy também batia mais forte pela sua terapeuta e mãe da sua melhor amiga, Elaine, e por Jacques Kittredge, capitão da equipe de luta livre da escola.
“O lutador com o corpo mais bonito se chamava Kittredge. Ele tinha um peito sem pelos com músculos peitorais absurdamente bem definidos; esses músculos eram de uma clareza exagerada, de história em quadrinhos”.
Numa família de mulheres extremamente críticas, que tentavam a todo custo esconder a identidade verdadeira do seu pai biológico (outro mistério do livro e que será desvendado no decorrer da narrativa) e vivendo numa cidade pequena e conservadora, Billy buscava apoio na figura do seu avô, Harry, conhecido pela competência em interpretar papéis femininos no grupo de teatro amador da cidade e pelo gosto em vestir-se de mulher até o final da vida. A trama atravessa os anos 60 e 70 com Billy buscando sua identidade em várias cidades do mundo e desemboca nos anos 80 em plena epidemia de AIDS, que atingiu vários amigos e ex-amantes do narrador (O capítulo intitulado Um mundo de epílogos é emocionante, com a narrativa das seguidas mortes de amigos, amantes, conhecidos e desconhecidos).
“Eu corria da escola para casa para ler; eu lia correndo, sem conseguir obedecer à ordem da Srta. Frost para ler mais devagar”.

Além da trama em si, o que fascina nesse romance são as indicações bibliográficas que a Srta. Frost dá para o pequeno Billy. São romances dentro do romance. Charles Dickens se torna a grande paixão do pequeno leitor graças às indicações da bibliotecária, mas outros autores são indicados ou citados pelo narrador como marcantes em sua vida: James Baldwin, Emily Brontë, Charlotte Brontë. Para quem gosta de literatura, esse romance é prazer em dose dupla. Ou múltipla! 

quarta-feira, 17 de maio de 2017

A garota dinamarquesa – David Ebershoff

“Os sapatos amarelos pareciam estar perfeitamente a vontade arqueados; era como se ele estivesse esticando um músculo caído em desuso”. 
Tomei conhecimento da história do pintor dinamarquês Einar Wegener quando me falaram do filme A garota dinamarquesa. Descobri que o filme, na realidade, é uma adaptação do romance homônimo do escritor norte-americano David Ebershoff, publicado no ano 2000. Professor de escrita literária da Universidade de Colúmbia e editor da Random House, um das principais editoras em língua inglesa do mundo, Ebershoff ganhou o Prêmio Literário Lambda, no mesmo ano de publicação do livro, e figurou nos dois anos seguintes como uma das cem pessoas LGBT mais influentes, elaborada pela revista Out.
“Muitas coisas são ditas na grande caverna do matrimônio, e felizmente a maioria delas fica pairando inofensiva, negra, pequena e de cabeça para baixo feito um morcego adormecido”.
O próprio Ebershoff explica que o romance “contêm alguns fatos importantes acerca da transformação de Einar, mas os detalhes da história são invenções da minha imaginação”. Einar Wegener era um pintor famoso nos anos 20 pelas suas pinturas de paisagens e pântanos. Casado com a também pintora Greta, que tenta se firmar pintando retratos para os burgueses de Copenhague, Einar é pego de surpresa com um pedido da esposa. Como a sua modelo tinha faltado à sessão, Greta pede ao marido que coloque um vestido e pose para ela, a fim de terminar o quadro mais rapidamente.
“Lili olhou para Greta, que usava um vestido preto, e sentiu-se grata por tudo que jazia à sua frente. Do nada surgira Lili. Sim, era preciso agradecer a Greta”.
Esse acontecimento representará um divisor de águas no casamento de ambos. Foi como se um gatilho tivesse sido acionado na alma de Einar. Outras vezes Greta fez o mesmo pedido e, gostando da brincadeira, sugeriu a Einar que comparecesse a festas como Lili Elbe, a prima de Einar. O que, à princípio, era apenas uma brincadeira do casal para ajudar Greta a pintar quadros, se transforma numa segunda personalidade de Einar. Lili começa a sair e atrair a atenção de rapazes na rua, “aparece” em casa sem se fazer anunciar e, como se fosse outra pessoa, se mostra linda e doce para Greta.
“Tinha a impressão de ter a alma presa numa jaula de ferro forjado: era o seu coração enfiando o focinho nas costelas, enquanto Lili mexia-se lá no fundo, despertando e esfregando o lado do corpo nas barras do corpo de Einar”. 
Fazendo inúmeras pinturas tendo Lili como tema, Greta se torna uma pintora famosa e valorizada, e Einar vai descobrindo cada vez mais sua verdadeira personalidade. A partir de 1929, Einar/Lili, certa do que quer, se submete a cirurgia de mudança de sexo, algo considerado incomum e, para muitos médicos, impossível. Apesar de a história girar em torno de Einar/Lili é impossível não observar a força de Greta, uma mulher quer percebe seu marido se descobrindo outra pessoa e o apoia de forma irrestrita. Mesmo sendo classificada como uma história de ficção é inspirada em personagens reais e, por que não dizer, fortes, que enfrentaram a sociedade em que viviam e trouxeram, nos longínquos anos 30, uma discussão sobre sexo e gênero.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Submissão – Michel Houellebecq

“Só a literatura permite entrar em contato com o espírito de um morto, da maneira mais direta, mais completa e até mais profunda do que a conversa com um amigo”.
O segundo turno da eleição na França, entre o centrista Emmanuel Macron e a candidata de extrema direita Marine Le Pen, chamou a atenção do mundo para o país que tem a maior população muçulmana na Europa. A imigração (não apenas muçulmana) e a necessidade de impedir novos ataques terroristas em território francês, ao lado do papel do país na União Europeia, têm sido os assuntos mais explorados nos debates entre os candidatos, que têm propostas diametralmente opostas sobre esses assuntos. Para mim, a eleição na França me levou a releitura de Submissão, sexto romance do francês Michel Houellebecq. Em setembro de 2015 já tinha falado sobre ele aqui.
“No fundo, meu pau era o único dos meus órgãos que jamais tinha se manifestado à minha consciência pelo viés da dor, e sim do gozo”.
Famoso e premiado, nascido na França em 1958, Michel Houellebecq é o tipo de escritor-filósofo que, ao invés de apenas escrever uma história que entretenha, usa suas tramas para palpitar sobre tudo o que lhe interessa, desde história e religião até costumes, passando por gastronomia e a geopolítica do Mediterrâneo, sempre utilizando um olhar corrosivo. E ele não foge dessa característica em Submissão, romance lançado no início de 2015, exatamente no dia do atentado ao jornal Charlie Abdo, quando 12 jornalistas foram mortos, entre eles Bernard Maris, amigo pessoal de Houellebecq, o que o levou a cancelar a turnê de promoção do livro.
“Um casal é um mundo, um mundo autônomo e fechado que se desloca no meio de um mundo mais vasto, sem ser realmente atingido por ele...” 
François é um professor de literatura de meia idade da Sorbonne que dorme mal, come mal e só se preocupa em manter romances com alunas duas décadas mais novas. Homem culto e solitário que despreza o mundo ao seu redor, especialista e fã do grande representante do realismo literário Joris-Karl Huysmans (a ponto de viver comparando sua vida ao do escritor e até mesmo tentando imitá-lo), François descrê de tudo, dos laços afetivos duradouros à socialdemocracia. E assim ia a vida do professor até que um fato politico muda tudo.
“A humanidade não me interessava, até me repugnava, eu não considerava de jeito nenhum os humanos meus irmãos...”
Em 2022, a Fraternidade Muçulmana chega a Presidência da República na França, com Mohammed Ben Abbes, um líder carismático e moderado, e logo as mudanças se fazem sentir. O desemprego diminui por que as mulheres devem ficar em casa; aumenta o auxílio-moradia, mas diminui o da educação; a poligamia é incentivada (quem tem mais de uma esposa ganha mais do que quem só tem uma). Com dificuldades para se adaptar à nova realidade, François é induzido a se aposentar precocemente.
“Nietzsche enxergara muito bem, com seu faro de puta velha, que o Cristianismo era no fundo uma religião feminina”.

Meses depois é convidado a voltar para a universidade por um amigo carreirista e agora convertido ao Islã (É emblemática a figura de sua esposa mais nova, de 15 anos, vestindo uma camiseta da Hello Kitty). Mesmo retornando à cátedra, François continua acompanhando tudo com a mesma indiferença explícita, amoral e chocantemente neutra. O título do livro é uma tradução literal de “Islã”. 

quarta-feira, 3 de maio de 2017

O mundo é uma bola – Vários autores

Publicado originalmente em 2006, O mundo é uma bola, uma coletânea de textos de figuras renomadas da literatura brasileira sobre futebol, humor e qualquer tema relacionado aos dois anteriores, foi relançada em 2014, em virtude da Copa do Mundo que se realizou naquele ano aqui no Brasil. O time não é amador, mesmo que o leitor queira questionar a inclusão de nomes como o de Rachel de Queiróz que, até onde se sabe, não era grande expert no assunto. Mas é aí que está o segredo. O livro é sobre futebol e qualquer assunto relacionado à ele. Por outro lado, não se podem questionar nomes como Armando Nogueira, Stanislaw Ponte-Preta e Luis Fernando Veríssimo.
A obra se divide em três partes. Na primeira delas, Futebol tem gosto de infância, destaque para o conto A bola, de Luis Fernando Veríssimo, que mostra o choque de gerações quando o pai dá uma bola de presente ao filho. Acostumado com jogos de vídeo game, o garoto não sabe o que fazer com o presente, tentando encontrar respostas para as suas dúvidas num “manual de instrução” inexistente. Destaque também para Vai que é suuua Lelê!, de José Roberto Torero, que trata com muito humor do machismo típico do universo do futebol. Essa primeira parte se encerra com Gol de padre, do impagável Stanislaw Ponte-Preta que espeta: “O menino que a pessoa conserva em si é um obstáculo no caminho da velhice”.
Na segunda parte, O humor entra em campo, o escritor gaúcho David Coimbra nos presenteia com Cueca lilás. Carpins preto, abordando algo que é comum no mundo futebol, a superstição. Mais uma vez Luis Fernando Veríssimo se faz presente com a crônica Choque cultural, em que um casal se descobre incompatíveis por causa da paixão pelo futebol. E na terceira e última parte, A bola rola, outra vez David Coimbra relata a paixão dos brasileiros, até mesmo os mais durões, pelo futebol a ponto de ir às lagrimas com uma derrota da seleção brasileira em Era tudo bagaceirada. Voltada para o público infanto-juvenil, a obra tem crônicas para todos os gostos, principalmente para quem tem o gosto pelo riso.   

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Um time de primeira – Vários autores

“Em toda parte do mundo uma dúzia de ingleses juntos queria dizer um clube”. (Mário Filho)
Em 2014, ano em que se realizava a segunda Copa do Mundo no Brasil (para quem não sabe, a primeira foi em 1950), a editora Saraiva lançou um volume com crônicas relacionadas ao futebol. A boa notícia é que Um time de primeira faz jus ao título e reúne grandes nomes da literatura brasileira para falar sobre a paixão brasileira. A má notícia é quem nem todos entendem do assunto. Ou o futebol ainda não era o fenômeno que é hoje. É o caso do poema Franzina, de Mário de Andrade (ou sou eu que não entendo, nem gosto, de poesia?). Logo depois, com João do Rio e Coelho Neto, seis crônicas que não empolgam muito.
“Em trinta segundos, Garrincha desmoralizou o quadro científico da Rússia”. (Nelson Rodrigues)
Mas é fantástico ler Lima Barreto, lá no início do século XX, quando o futebol ainda engatinhava no Brasil, chamando a atenção para os malefícios do esporte para o país, em Bendito football, quando afirma que “o football é eminentemente um fator de dissensão” para o país. Ou ainda quando critica, de forma irônica, a violência do esporte, em Vantagens do football, e os seus malefícios à saúde, em Ainda e sempre. Repito: essas crônicas foram escritas nos primórdios do século XX quando o futebol ainda não era uma paixão nacional.
“Somos o povo que berra o insulto e sussurra o elogio”. (Nelson Rodrigues)
Mas os textos se tornam clássicos quando entra em cena o jornalista Mário Filho, um apaixonado pelo esporte. Em Nasce o Fluminense, o cronista narra a história de Oscar Cox, um dos pioneiros da prática do futebol no Rio de Janeiro e um dos fundadores do tricolor carioca e seu primeiro presidente. Em O primeiro Fla-Flu, conta a história do primeiro clássico carioca, no ano de 1912. Outro apaixonado pelo futebol é seu irmão, o dramaturgo Nelson Rodrigues, que contribui com seis crônicas, todas tendo a seleção brasileira como personagem. O entusiasmo com que Nelson Rodrigues narra as proezas e fracassos da seleção canarinho é contagiante.
“O maracanã nasceu com a vocação da vaia”. (Nelson Rodrigues)

O poeta Vinícius de Moraes dá sua contribuição falando poeticamente, claro, sobre a seleção de 1962. Rubem Fonseca, em Abril, no Rio, em 1970, conta a história de um jovem que tenta  sorte no futebol. Em Copa do Mundo: alegria e sofrimento, lembra a Copa de 1950 e a tristeza pela perda do título naquele lendário Brasil e Uruguai no Maracanã. Aí vem Luis Fernando Veríssimo, com seus saborosos textos fazendo um retrospecto das Seleções Brasileiras de 1970 a 1998 em Recapitulando. Depois, em Prefiro terremoto, fala da final da Copa de 2002, quando o Brasil derrotou a Alemanha com dois gols de Ronaldo, o Fenômeno. No final, dois poemas de João Cabral de Melo Neto. Ou futebol não combina com poesia ou eu, definitivamente, não gosto de poesia.           

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Adultérios – Wood Allen

“Coerência é o fantasma das mentes pequenas”.
Dos livros que li de Woody Allen e sobre os quais falei aqui no blog nas semanas anteriores, Adultérios, publicado em 2003, é o melhor. Podemos dizer que aqui ele acerta a mão. Por coincidência, é um livro em que Allen não tenta fazer aquelas piadas tipicamente americanas que só americanos nascidos e criados em Nova York, mais especificamente em Manhattan, entendem. Nesse livro, Woody Allen consegue fazer jus à sua fama de gênio criativo, com personagens imprevisíveis e enredo cheio de reviravoltas.  São três histórias só com diálogos, num formato parecido com peça de teatro, todas passadas em Nova York com personagens tipicamente nova-iorquinos e que têm como temática a infidelidade.
“Por que qualquer marido fica entediado em relação à própria mulher? Porque com o tempo eles ficam se conhecendo demais”.
Na primeira delas, Bloqueio criativo – Riverside Drive, encontramos o escritor e roteirista Jim Swain num parque à espera de alguém. Antes que a pessoa esperada chegue, Fred, um mendigo, aborda e escritor com uma conversa desconexa. O problema é que Fred, na sua loucura, conhece a fundo a vida de Jim, inclusive seus detalhes mais íntimos, o que assusta o escritor. Para complicar, Fred acusa Jim de ter roubado a sua ideia em um dos roteiros de sucesso do escritor. Fred expõe os fatos de forma confusa, afirmando que recebe informações de uma antena instalada num dos prédios da cidade. Jim não sabe se está diante de um gênio ou de um louco.     
“Um pau duro não tem consciência”.
Na segunda história (e a melhor), Bloqueio criativo – Old Saybrook, Sheila e Norman estão fazendo um churrasco em casa para Jenny (irmã de Sheila) e David. Tudo corria bem, até que Hal e Sandy, antigos moradores da casa, chegam e revelam a existência de um cofre secreto na casa que guarda segredos de um dos personagens. Mas essa não é a única confusão na história. Max Krolian, primeiro morador da casa, aparece descendo as escadas, amordaçado e gritando, e faz revelações surpreendentes. O que torna essa história a melhor das três é o fato das reviravoltas no enredo não ensejarem no final da história, mas abrir a possibilidade de continuidade do enredo.
“As pessoas nunca nos odeiam pelas nossas fraquezas... elas nos odeiam pelos nossos pontos fortes”. 

A terceira história, Central Park West, tem semelhanças com a história anterior, porém com um viés mais dramático. Phylis, uma renomada terapeuta, fala para a amiga Carol que seu marido, Sam, está tendo um caso com outra mulher e saiu de casa. Essa outra mulher, revela Phyllis, era Carol, que não nega o romance. Quando o marido de Carol, Howard, um bobalhão, chega, tudo é revelado. Sam entre em cena e confirma toda a história, mas revela que a mulher por quem se apaixonou não é Carol, mas Juliet, que tem metade da sua idade e é paciente de Phyllis. Uma história com inúmeras reviravoltas e um final inesperado. 

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Jucá sincero

A chamada “delação do fim do mundo”, que veio à tona na semana passada, poderia representar um divisor de águas na história política brasileira. Só poderia! Facilmente veremos, no ano que vem, os 39 deputados federais, os 24 senadores e os 12 governadores denunciados pelos executivos e ex-dirigentes da construtora Odebrecht reeleitos ou eleitos para algum cargo eletivo. Se os políticos são as prostitutas de luxo do empresariado, como vimos nas delações, onde ninguém é de ninguém, vale quem der mais, o eleitor é a puta barata do político, se vendendo por qualquer carguinho comissionado ou favores menores ainda.
Mas nem tudo está perdido! Temos Romero Jucá, o Sincero. O indefectível senador Romero Jucá, do PMDB de Roraima, teve um surto de sinceridade em meio à uma enxurrada de desculpas esfarrapadas. É costume aos envolvidos em escândalos, qualquer escândalo, emitir aquela nota protocolar em que afirma que “todas as doações foram registradas legalmente e a prestação de contas foi aprovada pela justiça eleitoral” ou “estou à disposição da justiça para qualquer esclarecimento” ou ainda “minha inocência será comprovada no decorrer do processo”. Parece até que fazem Ctrl+C/Ctrl+V.
Mas Romero Jucá, o Sincero, fez diferente. Podem acusa-lo de qualquer coisa, menos de falta de originalidade. Citado em cinco inquéritos por suspeita de receber dinheiro em troca de aprovação de Medidas Provisórias, Jucá, o Sincero, falou numa entrevista na rádio CBN que por “R$ 150 mil não se vende Medida Provisória nem na feira do Paraguai”. Tá certo! As Medidas provisórias de Brasília são originais, portanto são mais caras. Vai querer comparar uma MP original de fábrica com uma produzida na China ou em Taiwan? Que disparate!
Se Renan Calheiros (PMDB-AL) é acusado de receber, em apenas um dos quatro inquéritos, R$ 4 milhões, por que o nosso Jucá, o Sincero, teria que se contentar com “apenas” R$ 150 mil? Se Valdir Raupp (PMDB-RO) é acusado de ter um “fundo” de R$ 20 milhões originário da Odebrecht e Andrade Gutierrez, por que nosso transparente Jucá tem que se contentar com reles R$ 150 mil? Jucá, o nacionalista, está apenas defendendo a MP nacional contra a MP fabricada no estrangeiro de qualidade duvidosa. Jucá, o legalista, está apenas defendendo a MP original de fábrica contra a pirataria que destrói os empregos do nosso povo.
Contra a Medida Provisória pirata!
Conta a Medida Provisória imperialista!
Pela isonomia na corrupção!

Viva Jucá, o Sincero!   

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Que loucura! – Woody Allen

“Como uma pessoa consegue ficar casada por 40 anos? Para mim, isso parece um milagre ainda maior do que a divisão do Mar Vermelho, embora meu pai, na sua ingenuidade, considere essa façanha muito mais impressionante”.
Publicado em 1980, quando Allen já era um artista conhecido e aclamado, Que loucura!  traz dezesseis textos (e não dezessete, como é anunciado na contracapa) em que autor mistura humor (na maioria sem graça), filosofia e psicanálise. Logo no primeiro texto, Retribuição, Allen acerta ao contar a história do sujeito insípido e sem atrativos que se apaixona e tem a paixão correspondida por uma mulher belíssima. O problema está quando o sujeito conhece a sogra. Um conto que poderia ser perfeitamente transformado em filme, com um personagem cheio de neuroses típico de Woody Allen. O segundo texto, Meu tipo inesquecível, é um conto repleto de piadas sem graça onde o personagem/narrador relembra a morte do seu amigo Sandor Needleman.
“Esse é o problema da filosofia: já não funciona tão bem depois da aula, ou seja, na vida real”.
Woody Allen fracassa ao tentar ser engraçado em O condenado e A ameaça de um OVNI, mas nesse último consegue pelo menos fazer uns questionamentos ligeiramente inteligentes, como ”se os discos voadores vêm do espaço exterior, por que seus pilotos não entram em contato conosco, em vez de insistirem nesses ridículos voos rasantes sobre áreas desertas?”. O ponto alto do livro é, indiscutivelmente, O caso Gugelmass, sobre um professor de literatura da Universidade de Nova York que se sente sufocado pela mesmice da vida e por um casamento sem nenhum atrativo. Certo dia é procurado por um mágico que promete coloca-lo dentro de qualquer livro. De uma hora para outra, Gugelmass se vê tendo um caso com Madame Bovary, personagem de Flaubert. Enquanto isso, estudantes de literatura mundo afora se perguntam: "Quem é esse judeu careca que entrou na história por volta da página 100 e já foi beijando Madame Bovary?".
“A loucura é relativa. Quem pode definir o que é verdadeiramente são ou insano?”

Alguns veem similaridade entre essa história e o enredo de Meia noite em Paris, do próprio Allen, lançado em 2011. Os dois textos seguintes, Como quase matei o presidente dos Estados Unidos e Na pele se Sócrates, podemos classificar como “bonzinhos”, o leitor não perderá nada se não lê-los. Os textos que vem a seguir são dispensáveis, com um humor sem graça e histórias que saem do nada e chegam a lugar algum. É o caso do texto que dá título ao livro, Que loucura!, tinha tudo para ser um bom conto, mas faz jus ao título, é uma loucura sem sentido! O mais idiota dos homens é um exemplo de como Allen se sai bem quando tenta contar uma história sem fazer graça, mesmo quando essa história não é tão boa. O seu talento para a telona, em enredos com grande capacidade de articulação de ideias, não aparece quando Allen se aventura na literatura. 

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Sem plumas – Woody Allen

“Fico me perguntando se haverá vida depois da morte e, se houver, se eles me permitirão chegar ao fim dos meus dias”.
Woody Allen é praticamente uma unanimidade como cineasta, mas não creio que seja como escritor. Pelo menos é essa conclusão a que se chega lendo alguns dos seus livros. Sem plumas, publicado originalmente em 1975, na edição brasileira da editora L&PM há uma curiosidade. Ali é dito fala que a obra é composta de 18 textos. Na realidade são dezessete. Outra curiosidade é que o livro teria frequentado as listas dos mais vendidos em todo o mundo. É difícil de saber a razão para isso. O livro não é bom. Tem textos bons, mas tais textos não seriam suficientes para torna-lo um best-seller
“E depois da morte, ainda será necessário tomar banho?”
Em Excertos de um diário, a sensação que fica é que se você nunca ler o texto não terá perdido nada. A sensação insiste em permanecer no segundo texto, Examinando fenômenos psíquicos. No terceiro, Alguns balés sem importância, fiquei seriamente tentado a abandonar a leitura, pois esse texto faz jus ao título. No quarto, Os pergaminhos, a esperança ressurge. É um texto que traz sutis críticas (irônicas) às religiões. Em As mulheres de Lovborg, a sensação é que Allen não escreve, apenas coloca as palavras umas depois das outras, aleatoriamente. Finalmente o leitor se depara com um texto digno de um gênio que dizem que Allen é, Puta com PhD, uma sátira com os romances noir, onde as prostitutas não vendem sexo, mas seu conhecimento literário.
“Morrer é uma das coisas que mais detesto fazer”. 

O texto seguinte também é bom, Morte, sobre um sujeito pacato (eufemismo para medroso) chamado Kleinman, é acordado de madrugada pelos homens da pequena cidade onde morava para caçar um serial killer que estava atacando na região. Depois desse texto, o que se vê é uma aridez criativa (ou seria excesso de criatividade? O problema estaria nesse pobre leitor ignorante?), escapando apenas mais um texto, Deus, sobre uma peça que se passa na Grécia Antiga que o autor não consegue escrever o final. Os outros nove textos são um amontoado de piadas sem graça, aquelas piadas tipicamente americanas em que somente os americanos riem. Se elas realmente são engraçadas, o resto da humanidade é parvo. 

quarta-feira, 29 de março de 2017

Os cães ladram: pessoas públicas e lugares privados – Truman Capote

“As leituras por conta própria desempenharam um papel mais importante do que a instrução oficial, que foi pura perda de tempo e se encerrou quando completei dezessete anos...”.
Para o jornalista e escritor americano Truman Capote, tudo podia render uma boa história, desde que bem observado. Ele deu mostras disso ao escrever A sangue frio, o relato de um brutal assassinato cometido num vilarejo do extremo oeste do estado do Arkansas e que virou um marco da literatura americana do século XX, publicado em 1966. Em Os cães ladram: pessoas públicas e lugares privados, uma coletânea de relatos de viagens e rascunhos pessoais que cobre trinta anos da sua vida, publicado em 1973, Truman Capote fala de diversos locais por onde passou e os personagens que encontrou em cada um desses locais. A forma como as pessoas são descritas parece ao leitor que se trata de personagens de um livro. Mas algumas dessas pessoas eram (e ainda são) conhecidas do grande público, o que, em alguns casos, trouxe problemas para o autor.
“A morte de um sonho não é menos triste do que a morte e, realmente, exige de quem a sofre um lamento tão profundo quanto”.
A primeira parte do livro, Cor local, é composta por textos que o autor chama de “impressões imaturas” e fizeram parte de um livro publicado em 1951. São os relatos das viagens que autor fez ao redor do mundo e pelos Estados Unidos. No relato da viagem ao Haiti, onde esteve em 1948, Capote faz um relato fantástico das festas populares do país. Em Veneza, no mesmo ano, a paixão obsessiva de uma delinquente juvenil pela pessoa que acompanhava Capote obriga os dois a saírem da cidade às pressas. No ano seguinte, o autor esteve na ilha italiana de Ischia, onde teve a oportunidade de encontra, refugiados numa ilha deserta, o que sobrou da família Mussolini. Num dos bairros boêmios de Tânger, no Marrocos, chamado Petit Soko, Capote relatará a existência de personagens, que ele chama de “celebridades” locais, como Estelle, a prostituta que chegou de iate particular e foi abandonada no local; o dançarino Maumi; e Lady Warbanks, que já teria sido, num passado não especificado, considerada a mulher mais bonita de Londres.        
“Não há gênero de intolerância mais desgastante do que o resultante da condenação de características que você mesmo possui”.
Na segunda parte, intitulada As musas são ouvidas, nos dois primeiros textos, Quando os canhões se calam e As musas são ouvidas, Capote relata a viagem de um grupo de teatro americano á União Soviética, em dezembro de 1955, em plena Guerra Fria, apresentando a ópera Porgy and Bass. Entre relatos sobre a burocracia da viagem, como as dificuldades para entrar na URSS, o financiamento dos atores pelo Partido Comunista, já que o governo americano se recusou a patrocinar a viagem, Capote flana sobre tudo e todos. Descreve as apreensões dos artistas sobre possíveis escutas instaladas nos quartos dos hotéis, o cotidiano da companhia teatral numa terra estrangeira e sobre peculiaridades de cada um, o que levou muitos dos citados a descrevê-lo como um texto “apenas venenoso”.
“A arte e a verdade não são necessariamente compatíveis”.

Mas não foi assim que Marlon Brando reagiu a O duque em seus domínios. O relato que Capote fez da viagem ao Japão, em 1956, para entrevistar o astro que estava no país granando o filme Saionara. Foi pior! “Vou matar aquele cara!”, teria dito Brando quando soube do texto. Não matou. Mas o perfil traçado do astro de Hollywood é de um sujeito egocêntrico, entediado com o sucesso, mas que não consegue viver sem o clima de bajulação que se criou em sua volta. No prefácio Os cães ladram, Capote fala que Brando pode até “ser um gênio, mas não se distingue pela inteligência”. E volta a falar de Brando na terceira parte do livro, Observações, quando diz que nenhum outro ator levou “a falsidade intelectual a níveis tão altos de pretensão risível”. Sobra também para Bob Dylan, “um sofisticado (?) vigarista musical que finge ser um revolucionário sincero (?) e caipira piegas”. Nessa parte do livro Capote dispara sua metralhadora verbal. Disse que Greta Garbo era “uma mulher egoísta e cansativa” e que Elizabeth Taylor era essencialmente inocente por achar que, ao dormir com um homem, teria que, necessariamente, casar com ele. Capote acrescentou que ambas faziam do “encanto” uma profissão. André Gide é descrito como um “escritor desprovido de imaginação”, Jean Cocteau, uma figura “vigorosamente insincera” e Marilyn Monroe uma “divindade desleixada”, conquistada pelo cartão de crédito, cuja carreira progrediu “do cabelo pintado aos doze a um ou três maridos confiscados aos vinte”.        

quarta-feira, 22 de março de 2017

The 42nd Street Band – Renato Russo

Durante a juventude, Renato Manfredini Jr. foi acometido pela epifisiólise, uma doença rara que provoca fortes dores nos ossos. Entre os quinze e os dezesseis anos, o futuro astro do rock nacional foi obrigado a ficar preso a uma cama por causa de uma cirurgia mal sucedida (um pino foi aplicado sobre seu nervo) e nesse período de convalescência e ócio, escreveu a história de uma banda imaginária. Esses manuscritos ficaram longe dos olhos do público até o ano passado, quando foram reunidos pelo seu filho, Giuliano Manfredini, e lançado em livro durante as homenagens pelos 20 anos da morte do músico.
Todo escrito em inglês, o material estava disperso em cadernos e folhas soltas e deu origem a The 42nd Street Band, a história de uma banda inglesa homônima formada pelos primos Eric Russel (homenagem a Jean-Jacques Rousseau e Bertrand Russell, que Renato adotaria mais tarde como nome artístico, mudando-o para Russo), Jesse Philips e Nick Beauvy. Nos textos reunidos, Renato mistura realidade e imaginação, colocando na história personagens reais, como Mick Taylor, dos Rolling Stones, e fictícios. Como também faz referências a musicas e álbuns que existiram de fato.
É possível também observar um prenúncio do que viria a ser Renato como astro do rock nacional. Vestígios e traços das letras e nomes de músicas da banda imaginária apareceram mais tarde em músicas feitas pelo músico durante a sua carreira. Mas o livro é confuso. A narrativa, muitas vezes, começa e termina de forma abrupta, como também apresenta repetições e divergências de informações. Na “Nota Editorial”, no início do livro, esses “deslizes” são creditados ao fato do material ter sido encontrado “espalhado”. Mas a imagem que fica é a de que o livro é tão somente uma forma de ganhar algum dinheiro a mais com a imagem do músico, pegando uma carona nas homenagens dos 20 anos de sua morte. Em outras palavras, uma obra “caça-níquel”, perfeitamente dispensável.

No entanto, apesar de ser uma obra dispensável até mesmo para o mais apaixonado dos fãs do Renato e da Legião Urbana, como eu, o livro nos deixa duas conclusões sobre o músico. A primeira delas é que Renato Russo vivia e respirava música desde a mais tenra idade. A segunda conclusão é de que devemos comemorar a fato dele não ter se tornado escritor. Ganharíamos um romancista sofrível e perderíamos um músico genial.            

domingo, 19 de março de 2017

Há algo de podre no reino da Dinamarca

Há algo de podre no reino da Dinamarca. Hamlet talvez jurasse que o mau cheiro viesse do Planalto Central. Ele descobriu, tarde demais, que o cheiro pútrido vinha da sua cozinha, da sua panela, do seu prato. A carne que ele comprou, a mais cara da melhor marca, estava podre. Isso se Hamlet vivesse no Brasil do século XXI e comprasse carne em supermercado. Isso se Hamlet vivesse no Brasil e assistisse os comerciais dos frigoríficos falando em “carnes nobres e linguiça com 30% menos sódio” ou sendo convencido de que “a qualidade vai te surpreender”.
Se as investigações da Polícia Federal com a operação “Carne Fraca” estiverem certas, o que vai nos surpreender são as estratégias dos frigoríficos para aumentar seus lucros. E não estamos falando de matadouros clandestinos na periferia do país! Estamos falando de grandes frigoríficos, pertencentes a algumas das maiores empresas do ramo no mundo, que são donos de marcas conhecidas e líderes do mercado, como Sadia, Perdigão, Friboi, Seara, Swift. Estamos falando de marcas que gastam fortunas em comerciais com estrelas de renome e que tem (ou tinham) a confiança do consumidor.
Nessa semana, a Polícia Federal mobilizou 1.100 agentes para cumprir 309 mandados judiciais em sete estados, naquela que é considerada a maior operação da história da instituição. Os alvos eram os grandes frigoríficos do país. O que a investigação revela é um verdadeiro cenário de horrores. Se os vegetarianos já afirmavam que comíamos cadáveres, agora já podem afirmar que comemos cadáveres em decomposição.
Segundo a PF, algumas empresas (não citou quais) usavam ácido sórbico, uma substância cancerígena, para disfarçar o sabor da carne para os consumidores e utilizavam notas fiscais frias para que o produto fosse vendido como se tivesse em condições ideias para consumo. Além disso, injetavam água na carne para aumentar seu peso. Ou seja, além de podre, o consumidor não levava o que pagava. Sem contar o aproveitamento da carne de cabeça em linguiça suína, o que é proibido pela legislação; e a comercialização de carne contaminada com Salmonela, uma bactéria que causa diarreia, dores abdominais e febre. Em casos mais graves pode causar a morte.  
Mas nada disso diminuiu a vontade das empresas de aumentar os seus lucros. Nem a vontade dos fiscais, funcionários públicos que deveriam zelar pela qualidade dos produtos que seriam consumidos pela população, em levar algum tipo de vantagem ilegal. Parece ironia, mas umas das formas de propina oferecidas pelas empresas aos fiscais era carne. A mesma carne contaminada e vencida que era vendida aos consumidores. A desonestidade do fiscal corrupto era maior do que os cuidados com a própria saúde e a dos seus familiares. 

A soda cáustica no leite, o solvente na gasolina, o milho na cerveja, a farinha no remédio e o papelão no frango mostram que há algo de podre, muito podre nesse reino.   

quarta-feira, 15 de março de 2017

Meninos em fúria: e o som que mudou a música para sempre - Marcelo Rubens Paiva e Clemente Tadeu Nascimento

“O rock’n’roll é rebelião, não consumo!”
Fruto da parceria do jornalista e escritor Marcelo Rubens Paiva com o baixista e vocalista da banda punk Inocentes Clemente Tadeu Nascimento, Meninos em fúria: e o som que mudou a música para sempre, publicado em 2016, faz um registro da história do rock brasileiro, mais especificamente do punk. Originalmente, segundo o depoimento dos autores, a livro era para ser uma biografia do Clemente, um dos precursores do punk rock no Brasil. No entanto, por algum motivo não explicado (e acredito que nem eles saibam), o livro se transformou numa compilação de memórias dos dois: um velho punk de meia idade e um jornalista quase punk também de meia idade, ambos com muitas histórias para contar.
“Na ditadura, nossos pensamentos eram vedados, nossas palavras, mais ainda, mas nossos corpos eram livres. Nossos corpos e cabelos eram a nossa única possibilidade de expressão”.
Marcelo Rubens Paiva, veterano escritor, autor do best-seller Feliz ano velho (1981), mostra que é um competente contador de histórias e anedotas. Nos dois primeiros capítulos, Paiva de dedica a mostrar, sempre em primeira pessoa, a cena musical brasileira no final dos anos 70 e início dos anos 80. Por coincidência, na mesma época em que sofreu o acidente que o deixou paraplégico, tema do seu primeiro livro. Muito próximo do ambiente musical da época, ensaiava os primeiros passos como músico (e estudante universitário) quando sofreu o acidente. Esse fato, porém, não impediu Paiva de continuar frequentando os shows das bandas que surgiam.
“Algo difícil de explicar do mundo punk: o sucesso não interessava. O sucesso é burguês. Fazer sucesso é ceder”.

Já clemente é o fio condutor da narrativa. De origem humilde, sempre foi obcecado por música. Em 1978, aos quinze anos, iniciou sua carreira como baixista da banda Restos de Nada, considerada a primeira banda punk do Brasil. Em 1981, foi um dos fundadores da banda Inocentes, até hoje em atividade. Era uma época conturbada, além da repressão da polícia à qualquer movimento cultural que fosse visto como “subversivo”, os próprio punks também não se entendiam. As tretas entre os punks de são Paulo, entre os quais Clemente, com os punks do ABC eram frequentes. Como se fosse num bate papo numa roda de amigos, Marcelo Rubens Paiva e Clemente usam as próprias experiências para falar de uma época em que o país passava por intensas mudanças políticas, sociais, econômicas e, por que não dizer, musical também.   

domingo, 12 de março de 2017

O poder que usurpa, mata e tripudia

Não basta matar. Se possível, chute o cadáver, cuspa nele. Pise-o, se for o caso. Se não for suficiente para aplacar a sua vontade indisfarçável de tripudiar, vá ao velório, ria do morto apontando para aquela cara arroxeada e inexpressiva, típica dos cadáveres. Se tiver achando pouco, vá ao enterro, jogue a primeira pá de terra sobre o caixão e, após a última pá, jogada por algum parente ou amigo, pisoteie a cova para socar e endurecer a terra, evitando o impossível: o defunto escapar.
Não. Não é nenhuma manifestação de sadismo da minha parte. Também não estou a ameaçar quem quer que seja, muito menos dando conselhos macabros a ninguém. Mas, ao observar o comportamento (e as palavras) daqueles que nos governa, é assim que pensam quem deveria nos representar. O deputado Arthur Maia (PPS-BA), relator da proposta do governo para a reforma da previdência, falou na semana passada, para uma plateia de sindicalistas da CSB (Central dos Sindicalistas Brasileiros) que aposentadoria é “subsistência” e que quem quiser ter uma “vida melhor” depois de aposentado, faça outro tipo de poupança.
O grande problema é que, pela proposta apresentada pelo governo e que o deputado acima citado defende, não haverá tempo para o trabalhador subsistir. Serão necessários 49 anos de contribuição para ter uma aposentaria integral. Vira cadáver antes! Isso tudo com a justificativa de que a Previdência terá um rombo de R$ 180 bilhões somente esse ano. O deputado e o governo ignoram (ou não querem ver) que a inadimplência com o INSS chega a R$ 426 bilhões. Isso mesmo!!! Quase meio trilhão de reais!!!!
E quem deve? O trabalhador? Não! Empresas como a do próprio deputado Arthur Maia, a Lapa Distribuidora de Combustíveis, que deve ao INSS R$ 151,9 mil. Isso mesmo! O sujeito que quer acabar com o rombo da Previdência às nossas custas é devedor da própria Previdência. E ele não está só!
Estre as cem maiores devedoras do INSS está a empresa do senador Acyr Gurgacz (PDT-RO), a Eucatur, que deve R$ 480 milhões. Detalhe: o senador defende a reforma da Previdência. É uma oportunidade que ele tem de passar a dívida para os futuros cadáveres que hoje se esfalfam de trabalhar para sustentar seus calotes. Em tempo, o deputado “filósofo” Arthur Maia, que é proprietário rural e advogado, responde no STF por peculato e lavagem de dinheiro.
Inaugura-se a máxima: eu te devo, mas é você que me paga!
No dia seguinte ao discurso do deputado Arthur Oliveira Maia, foi a vez do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), fazer uso da verborragia demencial ao afirmar que a Justiça do Trabalho “não deveria nem existir”. Segundo ele, as decisões “irresponsáveis” de juízes do trabalho quebraram o “sistema de bar, hotel e restaurantes do Rio de Janeiro”. O “gordinho mimado” precisa ser informado que TODO o Rio de Janeiro está quebrado e que Sérgio Cabral, Pezão, Eduardo Cunha, o próprio Rodrigo Maia, entre outros não são juízes do trabalho.

Colocam um nariz de palhaço no cadáver e ainda querem que achemos graça da brincadeira.  

quarta-feira, 8 de março de 2017

Medo e delírio em Las Vegas: uma jornada selvagem ao coração do sonho americano – Hunter S. Thompson

“Quando sentem que vão morrer,  os elefantes velhos cambaleiam até as montanhas; os americanos velhos, por sua vez, vão para as rodovias e rumam para a morte em carros imensos”.
O jornalista americano Hunter S. Thompson é considerado o criador do chamado Jornalismo Gonzo, onde o narrador se mistura com a ação, confundindo realidade e ficção. Já escrevi aqui, em 2014, sobre o livro Rum: diário de um jornalista bêbado, escrito em 1960, mas publicado apenas nos anos 90, baseado na experiência do autor quando foi enviado para Porto Rico como correspondente de uma revista de esportes. Medo e delírio em Las Vegas também é baseado numa viagem de Thompson, dessa vez para Las Vegas para cobrir uma tradicional corrida de motos. Publicado em 1970 na revista Rolling Stones em artigos, sai em formato de livro no ano seguinte. Em 1998, recebe uma versão para o cinema com Johnny Depp (Raoul Duke) e Benicio Del Toro (Dr. Gonzo).
“Numa sociedade fechada, na qual todos são culpados, o único crime é ser pego. Num mundo de ladrões, o único pecado capital é a burrice”.
O repórter Raoul Duke (alter ego de Thompson) é designado para cobrir uma corrida off-road em Las Vegas. Na companhia do seu advogado, um junkie samoano chamado Dr. Gonzo (inspirado no advogado mexicano Oscar Zeta Acosta), aluga um conversível vermelho e, munidos de um arsenal de drogas (LSD, mescalina, cocaína, haxixe, éter e muito álcool), cruzam o deserto desmistificando o sonho americano. Sempre alucinados devido ao consumo desenfreado de drogas e álcool, os protagonistas vão se metendo numa confusão atrás da outra. Como a grana da revista acabou antes mesmo da viagem começar, Duke não hesita em utilizar seus cartões de crédito sem crédito, acumulando dívidas astronômicas.
“A imprensa é uma gangue de covardes impiedosos”.

Com a mente encharcada de drogas e álcool, Duke tenta fazer o seu trabalho, mas só consegue se meter em repetidas confusões e não enxergar o sentido naquilo tudo. A poeira e a sede (além das drogas e do álcool) nublam sua visão do evento. Ao término da corrida, Duke é designado para outro evento, uma conferência nacional de promotores públicos sobre entorpecentes e drogas perigosas. Não sei por que, mas acho que ele e seu advogado samoano não seriam as pessoas mais indicadas para tal missão. Um livro memorável e uma das narrativas mais intensas e malucas que já li. É aquele tipo de obra que lê somente uma vez não é suficiente.      

quarta-feira, 1 de março de 2017

Assombro: um romance de histórias - Chuck Palahniuk

“É essa sopa de sangue, milho, merda, esperma e amendoim que flutua à minha volta. Mesmo com as tripas saindo pelo cu, eu segurando o que restou, mesmo assim minha primeira vontade é recolocar o meu calção de banho”. (Tripas)
O primeiro livro que li do Palahniuk foi Clube da luta (1996) e fiquei fã do escritor, dono de um estilo agressivo e transgressor. Depois li Sobrevivente (1999), No sufoco (2001) e Clímax (2014). Em todos eles não senti a mesma “pegada” do primeiro livro, mas continuei fã. Agora li Assombro, publicado em 2005, e vi o mesmo Palahniuk de o Clube da luta, talvez até mais agressivo e transgressor. O que me chamou a atenção para esse livro, além do fato de ser do Palahniuk, foi um artigo na internet que falava de 73 que passaram mal enquanto o autor lia Tripas, primeiro conto de livro, em suas turnês.
“Não importa quão imbecil seja uma ideia, estamos fadados a estar certos por que ela é nossa”.
Apesar do subtítulo, Assombro é uma coletânea de contos unidos por um enredo comum. Dezoito escritores são misteriosamente convidados para um retiro literário com duração de três meses. Durante esse período, ficarão completamente isolados para escrever o que poderia vir a ser uma obra prima. Encerrados num teatro (estavam proibidos de sair, mesmo que quisessem) à prova de fuga, os personagens-escritores, enquanto escrevem seus contos, vão se sabotando numa terrível luta pela sobrevivência e, o que é pior, pela fama, que viria quando saíssem do cativeiro.  
“Nossa maior alegria é quando vemos alguém que invejamos se dar mal. Não há alegria mais genuína”. (Canção de despedida)

O primeiro conto é o tão falado Tripas, que conta a história de um garoto que adora se masturbar no fundo da piscina enquanto a pressão da água descendo pelo ralo faz sucção no seu ânus. Apesar do desfecho grotesco e escatológico, não senti nada parecido com um desmaio. Mas é um conto fantástico! Outro conto que merece atenção especial é Fondue, que narra o que acontece quando uma pessoa é fervida viva. Na história que serve de elo para os contos, o canibalismo é algo recorrente (“A gordura brilha nos nossos queixos e nas pontas dos dedos” e “- Nossa, é dura, amarga”), como também as disputas (na maioria das vezes desleais) entre os escritores. Não dá para não perceber uma crítica aos realities shows e àquelas histórias edificantes de sobreviventes de desastres. É um livro FODA!   

domingo, 26 de fevereiro de 2017

E a culpa é do capeta!

Essa semana, o pastor Silas Malafaia, da Associação Vitória em Cristo, Ligada à igreja Assembleia de Deus, foi indiciado pela Polícia Federal por lavagem de dinheiro num esquema de corrupção em cobranças judiciais de royalties da exploração mineral. O histriônico pastor é o mesmo que vivia vociferando contra os desmandos do PT durante o governo da ex-presidente Dilma Rousseff e conclamou os evangélicos a lutar pelo impeachment. O verborrágico pastor é o mesmo que, quando da eleição de Eduardo Cunha para presidente da Câmara, afirmou que aquela era uma vitória de um “homem de Deus”, e, segundo ele a pessoa, mais “inteligente e honesta do mundo”. E a culpa é do capeta!
Por falar em Eduardo Cunha, que até pouco tempo era um membro honorável da Assembleia de Deus, tendo inclusive usado a igreja para lavar U$ 250 mil recebidos de propinas, foi eleito presidente da Câmara com apoio da bancada evangélica e festejado pelo “povo de Deus” quase como um messias. Somente o “povo de Deus” não via que ele vinha se metendo em maus feitos desde o governo Collor. Marco Feliciano (PSC-SP), estrela pop da “bancada da Bíblia” chegou a afirmar, em abril do ano passado, que ele era seu “malvado favorito”. E a culpa é do capeta!
Por falar em Marco Feliciano, o metrossexual deputado da bancada evangélica, no ano passado uma jovem militante do seu partido o acusou de estupro. Tão mitomaníaca quanto o acusado, a jovem afirmou e negou sucessivamente a acusação. O caso está sendo investigado pelo STF e hoje ela se dedica a apoiar causas antes criticadas por ela e pelo deputado, como o empoderamento feminino. O plastificado deputado, numa das suas inúmeras sandices, afirmou que os atentados em Paris, que vitimaram 129 pessoas, eram culpa da própria França. Um país, segundo ele, defensor do aborto e da liberdade sexual. E a culpa é do capeta!
Em Ariquemes, o prefeito mandou suprimir (rasgar) as páginas dos livros didáticos da Rede Pública do município que continham qualquer referência a diversidade sexual ou casamento homossexual. O prefeito tomou a decisão após oito vereadores protocolarem ofício solicitando a suspensão e o recolhimento dos livros. A justificativa? Segundo o vereador Amalec da Costa (PSDB), que é radialista, existe uma lei municipal que proíbe tais assuntos nas escolas. Não sabe o “especialista” que os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN’s) têm como um dos temas transversais a “Orientação sexual” e o que ele (e outros imbecis) chama de “ideologia de gênero” nada mais é do que respeito à diversidade sexual, algo que qualquer pessoa civilizada conhece. Não sabe também que rasgar as páginas dos livros é dano ao patrimônio público. São esses tipos de políticos que governam a pequena e poeirenta Ariquemes. E a culpa é do capeta!
São sujeitos como o esbravejador Silas Malafaia, o presidiário Eduardo Cunha, o almofadinha Marco Feliciano e os desinformados vereadores de Ariquemes acompanhado do seu frouxo prefeito que querem decidir os destinos do país inteiro amparados em seus (pré) conceitos supostamente retirados da Bíblia. Amparados na ideia esdrúxula de que “deus fez macho e fêmea”, pessoas com conduta muitas vezes reprováveis querem criar um país de cidadãos com direitos diferentes de acordo com sua identidade sexual.
Os “homens de bem” não conseguem (ou não querem) entender que esse deus opressor que discrimina e persegue não é o deus de todo mundo; que o que eles chamam de “ideologia de gênero” nada mais é do que respeito à diversidade sexual, que está previsto nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN’s) como um dos temas transversais; que ninguém ensina a ninguém a ser homossexual, bissexual ou heterossexual, as pessoas apenas são, e independente do que sejam, tem o direito a viver com dignidade; que as pessoas são livres para escolher, ninguém pode impor suas ideias religiosas para toda a sociedade.

Mas a culpa sempre é do capeta!     

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

As sandálias do pescador – Morris West

“Tudo o que a humanidade quer saber é se existe ou não um Deus, qual é a sua relação com Ele, e como é possível a Ele regressar quando Dele se extravia”.
O escritor australiano Morris West (1916-1999) passou 12 anos da sua vida em um mosteiro e, embora não tenha sido ordenado padre por opção própria, o catolicismo nunca deixou de ser um assunto recorrente em sua obra, além da política internacional. Em As sandálias do pescador, seu décimo livro, publicado originalmente em 1963, West consegue unir as suas duas paixões. Em pleno auge da Guerra Fria, com a morte do papa, o vaticano, às vésperas do Concílio Vaticano II, elege como sucessor um cardeal vindo do Leste Europeu, recém-saído das masmorras do regime soviético.
“Quando estamos em situação de poder, não nos devemos mostrar humildes em público, pois uma das funções do governante é reafirmar-se com decisão e energia”.
Mas ter nascido no Leste europeu não será o único “pecado” de Kiril Lakota. Desafiando o tradicionalismo do Vaticano, manteve seu primeiro nome, as insígnias orientais e uma vasta barba que escondia uma cicatriz, fruto das torturas sofridas no cárcere. Além disso, estreitou relações com Jéan Télemond, um jesuíta censurado pelo Santo Ofício a longos anos de silêncio público por causa das suas ideias.  Ao mesmo tempo em que ascendia ao trono de São Pedro, seu torturador, Kamenev, assumia o poder no Kremlin, estabelecendo-se entre ambos em nome da paz mundial.
“Por que é que Deus onipotente fizera instrumentos humanos capazes de se revoltar, instrumentos que podia rejeitar os divinos desígnios, ou degradá-los, ou ainda impedir o seu progresso?”

Em paralelo à ascensão de Kiril, conhecemos o vaticanista americano George Faber, que luta para vencer a lentidão do processo de divórcio da sua namorada, Chiara, casada oficialmente com Corrado Calitri, influente ministro italiano de conduta moral duvidosa, aspirante ao cargo máximo italiano e muito próximo de figuras influentes do Vaticano. Confesso que quando li o livro, não consegui evitar uma comparação com Jorge Mario Bergoglio, o papa Francisco. Resguardando as devidas proporções, tanto Kiril quanto Francisco assumiu um discurso de rompimento com determinadas tradições católicas, mesmo que isso não tenha representado muita coisa na prática.   

domingo, 19 de fevereiro de 2017

O preço do pato ou: Você é o pato!

Durante as manifestações pelo impeachment da presidente Dilma, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) criou a campanha “Chega de pagar o pato”, que tinha como símbolo um pato amarelo de 12 metros de altura, instalado em frente ao prédio da entidade na Avenida Paulista. Um das principais articuladoras dos movimentos pró-impeachment (chegou a servir almoço com filé mignon para manifestantes de verde amarelo), a entidade não revela quanto gastou para conseguir tirar Dilma da Presidência, mas é inegável que o investimento teve retorno garantido.
A fatura começou a ser cobrada com a PEC 241 ou PEC 55, conhecida também como a “PEC do fim do mundo”, que congela os gastos públicos por 20 anos com o objetivo de tirar as contas do governo do vermelho. Como assim? Estamos em crise? Mas e o aumento de 41,4% dos salários do Judiciário que vai causar um impacto de mais de R$ 22 bilhões nas contas públicas em três anos? E cada deputado federal, que custa R$ 143 mil mensais ou R$ 1,8 milhão/ano? E cada senador, que custa R$ 160 mil mensais ou 2 milhões/ano? Não ouvi nenhum parlamentar (de direita ou de esquerda, de oposição ou de situação) falar em abrir mão de parte dessas mordomias. Tem certeza que há crise?
A fatura continuou sendo cobrada com a Reforma de Previdência, que foi enviada ao Congresso e deverá ser votada (com modificações ou não) em breve. A proposta prevê aposentadoria integral após 49 anos de contribuição e idade mínima de 65 anos para homens e mulheres se aposentarem. O objetivo é economizar R$ 678 bilhões em dez anos e estancar a sangria que a Previdência Social causa nas contas públicas. E a Previdência está em crise? Como assim? E os militares não foram incluídos? E os parlamentares? Em 2015, segundo a revista Exame, o governo deixou de arrecadar R$ 40 bilhões por causa de isenções previdenciárias concedidas a pequenas e médias empresas, entidades filantrópicas e exportadores agrícolas. Esse ano, a previsão é que o governo deixe de arrecadar R$ 62 bilhões, um terço do rombo previsto que é de R$ 180 bilhões.
Tem mais: O senador Hélio José (PMDB-DF) é o relator do Projeto de Lei do Senado (PLS 409/2016), de autoria do também senador Dalírio Beber (PSDB-SC), que cria mecanismos para permitir que a União, estados e municípios possam reduzir os percentuais de correção de pisos salariais nacionais, como o do magistério, os dos agentes de saúde e os dos agentes de combate às endemias. O senador Hélio José já deu parecer favorável à iniciativa na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) e usa como argumento a “forte crise econômica”. Como se o cinismo não tivesse barreiras, pede a “compreensão” dos profissionais atingidos pela medida. Vamos pedir também a “compreensão” dos nobres parlamentares para baixar seus salários e a retirada das suas verbas de gabinete. Será que eles aceitariam? 
Em Rondônia, a Assembleia Legislativa acabou com o feriado na segunda-feira de carnaval, Dia do Comerciário, alegando o “momento econômico mundial”. Mas o comércio não abria na segunda-feira de carnaval? Sim! Mas por ser feriado, os comerciantes tinham que pagar dobrado aos seus funcionários. Agora não! Ou seja, o governo não abre mão da sua carga tributária, os lojistas não abrem mão da sua margem de lucro, mas o comerciário é obrigado a abrir mão do seu poder aquisitivo.
Em Porto velho, o problema não são as ruas esburacadas, enlameadas, fedorentas e escuras; muito menos as obras inacabadas, as nuvens de mosquitos, a inoperância da Câmara de Vereadores ou o excesso de cargos comissionados (mais de 1.400, que tiveram seus CDS reajustados). Para a prefeitura, o problema da cidade está no “Quinquênio” dos 13.000 servidores municipais, uma gratificação que dá 10% de reajuste a cada cinco anos. Pois bem, o prefeito, numa manobra na “calada da noite”, em conluio com os vereadores, retirou esse “privilégio” dos servidores e colocou o seu exército de comissionados para chamar os trabalhadores de “vagabundos” nas redes sociais. Diante das pressões dos servidores e dos próprios vereadores, que se disseram “enganados” pelo esperto prefeito, a medida foi suspensa por 90 dias.

Até os candirus do Madeira, o lixo despejado na Baía da Guanabara e os esgotos jogados no Rio Tietê sabiam quem ia pagar o pato. Você não?  E agora, ainda tem dúvida de quem é que vai pagar o pato?           

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Trumbo: a vida do roteirista ganhador do Oscar que derrubou a lista negra de Hollywood – Bruce Cook

"Posso não ser o melhor roteirista de Hollywood, mas sou de longe o mais rápido."      (Dalton Trumbo)
No início do ano passado, foram lançadas simultaneamente no Brasil a biografia e a cinebiografia de Dalton Trumbo. Roteirista mais bem pago de Hollywood nos anos 50, Trumbo assinou o roteiro de clássicos do cinema como Papillon, A princesa e o plebeu, Exodus e Spartacus. No livro Trumbo: a vida do roteirista ganhador do Oscar que derrubou a lista negra de Hollywood, o crítico, jornalista e escritor Robin Cook aborda a vida do roteirista desde a infância difícil, quando teve que se envolver em negócios ilícitos para sobrevir, até sua morte, em 1976, aos 70 anos, vítima de um ataque cardíaco.
“Nunca fiquei desempregado em toda a minha vida, nem durante a Depressão, nem durante a lista negra”. (Dalton Trumbo)
James Dalton Trumbo nasceu na pequena Montrose, no Colorado, em 1905, onde teve uma infância difícil, tendo que exercer vários tipos de profissão para sustentar a mãe e as irmãs após a morte do pai. Ainda adolescente, trabalhou em jornais locais, cobrindo tribunais e fazendo obituário. Seu primeiro romance, Eclipse, publicado em 1935, narrava, sob uma perspectiva realista, a história de uma pequena cidade e seus habitantes. O problema é que muitos moradores de Montrose se viram naquelas descrições, o que causou embaraços à Trumbo durante décadas.
“Todos aqueles anos de privações só serviram para aumentar sua estima pelo dinheiro”.
Começou a trabalhar em roteiros de filmes em 1936 e, três anos depois, publicou seu segundo romance, Johnny vai à guerra, um clássico pacifista inspirado num artigo sobre um soldado que ficou desfigurado na Primeira Guerra Mundial. No início dos anos 40, Trumbo já era um roteirista bem remunerado e requisitado em Hollywood e, em 1943, filia-se ao Partido comunista, fato que lhe trará problemas anos depois e marcará a sua biografia. O episódio, ocorrido em 1947, ficou conhecido como Os dez de Hollywood, quando Trumbo e mais nove cineastas foram convocados a depor numa comissão do Congresso americano que investigava uma suposta infiltração de comunistas na indústria do cinema.
“Ele (trumbo) é o homem mais desprovido de hipocrisia numa cidade de hipócritas”.

Trumbo recusou-se a falar nome de colegas que supostamente seriam comunistas e, três anos depois, é condenado por desobediência, passando onze meses na prisão, e foi incluído na Lista Negra, a relação de profissionais do cinema (atores, diretores, roteiristas) que estavam proibidos de trabalhar no setor. Mesmo preso e incluído na Lista negra não parou de escrever. E depois de solto foi para o México, onde escreveu mais de trinta roteiros sob pseudônimos ou usando nomes de colegas. Chegou a ganhar o Oscar desse jeito. Trumbo só foi reabilitado em 1960, quando assinou o roteiro do filme Exodus.