domingo, 17 de setembro de 2017

Caetano, Torquato e “Cajuína”

A canção Cajuína, composta por Caetano Veloso nos anos 70 e incluída no disco Cinema Transcendental, é considerada pelos piauienses como um segundo hino de Teresina, capital do estado. Talvez por causa do último verso da música (“A cajuína cristalina em Teresina”). No entanto, a história da música não é uma homenagem à Teresina, mas ao jornalista, poeta e letrista piauiense (e amigo de Caetano) Torquato Neto, que se matou em 1972, aos 28 anos, no Rio de Janeiro, onde vivia com a mulher e o filho.  
"A alegria é a prova dos nove
E a tristeza é teu Porto Seguro
Minha terra é onde o Sol é mais limpo
Em Mangueira é onde o Samba é mais puro
Tumbadora na selva-selvagem
Pindorama, país do futuro”
(Geleia Geral, Torquato Neto e Gilberto Gil)
Torquato Pereira de Araújo Neto nasceu na capital piauiense e, depois de passar a adolescência em Salvador, foi morar no Rio de Janeiro, onde trabalhou em jornais assinando colunas de crítica musical. Entre suas primeiras letras está Louvação, em co-autoria com Gilberto Gil, lançada por Elis Regina. Quando estourou o Tropicalismo, um movimento de ruptura da cultura brasileira, em 1967, Torquato Neto se tornou seu principal letrista, escrevendo inclusive a letra da canção-manifesto, Geleia geral, e de outras canções, como Marginália 2, Mamãe coragem e Deus vos salve esta casa santa, em parcerias com Gilberto Gil e Caetano Veloso.
Além do tropicalismo, Torquato, na condição de agente cultural e polemista (já que nunca concluíra o curso de jornalismo) defendia o cinema marginal e a poesia concreta. Há dez dias da publicação do AI-5, em 03 de dezembro de 1968, com os principais parceiros presos ou no exílio, embarcou para Londres na companhia da mulher. Na Europa, mantém contato com artistas e intelectuais brasileiros no exílio e estrangeiros. Apesar do receio com o endurecimento do regime aqui no Brasil, retorna em dezembro de 1969. 
No retorno ao Brasil, fez escreveu músicas para novelas da Globo em parceria com Roberto Menescal e Nonato Buzar e  participou como ator em filmes do cineasta Ivan Ângelo.   Mas fazer trabalhos comerciais não o deixava feliz. Começou um processo de isolamento, consequência não apenas do seu histórico de depressão e alcoolismo, mas também por se sentir alienado pelo Regime Militar. Numa carta de abril de 1971 ao artista plástico Hélio Oiticica, outro grande nome do Tropicalismo, Torquato desabafa: "O chato, Hélio, aqui, é que ninguém mais tem opinião sobre coisa alguma”. E completa: “Depois que cheguei no Rio, tive de sair por aí feito maluco atrás de alguma coisa pra fazer, e logo em seguida tive de fazer essas coisas: produção de discos de novela pra Globo, música para novela, músicas para vender e garantir qualquer dinheiro - enfim, um negócio chato e cansativíssimo que eu tinha de fazer”. Ainda em 1971, escreveu o poema Go Back, que se popularizou depois que foi musicado por Sérgio Brito e incluído no disco Titãs, da banda homônima, em 1984.
Você me chama
Eu quero ir pro cinema
Você reclama
Meu coração não contenta
Você me ama
Mas de repente
A madrugada mudou
E certamente
Aquele trem já passou
E se passou, passou
Daqui pra melhor, foi
Só quero saber do que pode dar certo
Não tenho tempo a perder
(Go Back – Torquato Neto)
Entre agosto de 1971 e março de 1972, assinou coluna diária Geleia Geral, no jornal Última Hora, um espaço iconoclasta e de resistência que abordava temas do dia a dia, música, televisão, teatro, cinema. Nela, Torquato fez duras críticas à censura, ao moralismo da classe média, à indústria fonográfica, aos festivais de moda e ao Cinema Novo, que para ele estava se vendendo ao governo ao receber verbas oficiais. Ainda em 1972, Torquato, em parceria com Waly Salomão, lançou o primeiro e único número da revista Navilouca, com trabalhos de vários nomes do cenário underground da época. Torquato Neto, em depressão profunda, se matou na madrugada de 10 de novembro de 1972.
Quando recebeu a notícia da morte do amigo, Caetano não chorou. “Senti uma dureza de ânimo dentro de mim. Me senti um tanto amargo e triste mas pouco sentimental”, relembrou Caetano. Em 1973 (a data não é exata, nem o próprio Caetano tem certeza quando foi), Caetano Veloso estava em Teresina para fazer um show e recebeu a visita no hotel de seu Heli, pai de Torquato. Na casa da família, numa sala repleta de fotos do filho recém-falecido, seu Heli tentava consolar um inconsolável Caetano. Naquele momento, a sua “dureza amarga se desfez”, como ele mesmo diz. Seu Heli serviu-lhe cajuína para acalma-lo e pegou no jardim uma Rosa-Menina. A cada gesto do pai do amigo, Caetano se desmanchava em lágrimas ainda mais. Depois do show, em outra cidade, nasceram os versos de Cajuína, que você lê abaixo:

Cajuína
Existirmos - a que será que se destina?
Pois quando tu me deste a rosa pequenina
Vi que és um homem lindo e que se acaso a sina
Do menino infeliz não se nos ilumina
Tampouco turva-se a lágrima nordestina
Apenas a matéria vida era tão fina
E éramos olharmo-nos, intacta retina:
A cajuína cristalina em Teresina

domingo, 10 de setembro de 2017

Paulo Leminski e a Poesia Marginal

Toda arte tem que ser transgressora. Se não transgride, não transforma, não cumpre integralmente seu papel de indagar, questionar e transformar. A Poesia Marginal, ou Geração Mimeógrafo, surgiu nos anos 70 para burlar a censura imposta pela Ditadura Militar aos movimentos culturais da época. Intelectuais, professores universitários, agitadores culturais, poetas e artistas em geral, inspirados nos movimentos de contracultura, buscaram burlar a censura criando novos meios de divulgação da arte e da cultura brasileira (música, cinema, teatro, artes plásticas).  
"O Paulo Leminski / é um cachorro louco / que deve ser morto / a pau a pedra / a fogo a pique / senão é bem capaz / o filhadaputa / de fazer chover / em nosso piquenique".
Uma das vertentes desse movimento sociocultural e artístico é a poesia marginal, contrária a qualquer modelo literário, não se encaixando em nenhuma escola ou tradição literária. Dentre esses poetas de linguagem espontânea, coloquial e sarcástica, se destaca Paulo Leminski, um curitibano filho de pai de origem polonesa e mãe de origem negra, que teria feito 73 anos no ultimo dia 24 de agosto. Dono de uma personalidade singular, encarnou o que havia de mais original na Geração Mimeógrafo: o inconformismo e a rebeldia. Poeta, romancista, tradutor e crítico literário, Leminski ganhava a vida como professor de História em cursinhos de pré-vestibular.
“Nunca cometo o mesmo erro / duas vezes / já cometo duas três / quatro cinco seis / até esse erro aprender / que só o erro tem vez”

Estreou na poesia em 1964, aos 20 anos, com cinco poemas na revista Invenção, dirigida por Décio Pignatari. Desde então, passou a produzir compulsivamente poemas, haicai, ensaios e, nos anos 80, arriscou-se como letrista, compondo Verdura, de 1981, gravada por Caetano Veloso (De repente/Vendi meus filhos/A uma família americana/Eles têm carro/Eles têm grana/Eles têm casa/A grama é bacana/Só assim eles podem voltar/E pegar um sol em Copacabana), além de músicas para Paulinho da Viola, A Cor do Som e Paulinho Boca de Cantor. Fluente em seis idiomas (inglês, francês, latim, grego, japonês, espanhol), entre os anos de 1984 e 1986 traduziu obras de John fante, John Lennon e Samuel Beckett.  Paulo Leminski Filho morreu em 07 de junho de 1989, aos 44 anos, de cirrose hepática. 

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Johnny vai à guerra – Dalton Trumbo

“Então como é que um sujeito podia perder os braços e as pernas e os ouvidos e os olhos e o nariz e a boca e ainda continuar vivo? Que sentido podia fazer uma coisa dessas?”
Tomei conhecimento da existência de Dalton Trumbo quando achei a sua biografia, Trumbo: a vida do roteirista e ganhador do Oscar que derrubou a lista negra de Hollywood, do jornalista Bruce Cook, sobre a qual já falei aqui, por um preço baratinho. Minha ignorância tem uma explicação: Dalton Trumbo era mais roteirista do que romancista, seus maiores sucessos aconteceram no cinema, como o roteiro de Papillon, de 1973, e quem me conhece sabe que sou mais adepto da sexta arte. E foi lendo a biografia do homem que se recusou a delatar seus colegas de Hollywood (e foi condenado por isso) que soube de Johnny vai à guerra, seu romance pacifista de 1939, inspirado num artigo que Trumbo leu sobre um soldado que voltava da guerra desfigurado.
“Quatro ou talvez cinco milhões de pessoas mortas e nenhuma delas desejando morrer enquanto centenas talvez milhões resultavam loucas ou cegas ou aleijadas e não conseguiam morrer por mais que tentassem com afinco”.  
O livro é narrado por Joe Bonham, um jovem que levava uma vida banal nos Estados Unidos: tinha uma namorada, um trabalho e rusgas constantes com os pais. Até que Joe foi recrutado para a guerra. Muitos perdem a vida na guerra, outros são mutilados. Joe volta da guerra numa situação pior do que a maioria dos ex-combatentes. Perdeu tanto a vida quanto o direito de morrer. Atingido por uma explosão, perde braços, pernas e tem o rosto completamente destruído, a ponto de ficar sem visão, audição e fala. Mas não sofre nenhum dano cerebral, ficando preso a uma cama de hospital e ao seu corpo dilacerado. A partir daí o leitor viaja nas memórias de Joe e em sua obsessão em se comunicar com um mundo exterior que não sabia nem identificar a sua nacionalidade.
“Que raio lhe interessa sua pátria depois que você está morto? É terra natal de quem quando você já morreu?”

O livro foi lançado num momento especialmente delicado, quando tinha início a Segunda Guerra Mundial e os Estados Unidos teriam que recrutar milhares de jovens para as Forças Armadas. Em 1943, pressionado pela imprensa e pelo Governo, Trumbo e seus editores decidem suspender a reimpressão da obra. Chocante por mostrar a violência da guerra (de qualquer guerra) por um novo ângulo, o livro se revela um verdadeiro soco no estômago. Em 1971 foi transformado num filme homônimo e, pela primeira e única vez, Trumbo ocupou a cadeira de diretor. O livro também foi inspiração para a música One, da banda Metallica.     

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Contos novos – Mário de Andrade

“Fiz tudo o que a vida me apresentou e o meu ser exigia para se realizar com integridade. E me deixaram fazer tudo, por que eu era doido, coitado. Resultou disso uma existência sem complexos, de que não posso me queixar um nada”.
Além de ter uma vasta produção literária, com mais de duas dezenas de livros publicados ainda em vida, Mário de Andrade foi polígrafo, ou seja, escreveu poesia, romance, crônica e conto. Sem contar que foi um dos líderes do movimento modernista brasileiro que aplicou novos princípios estéticos à arte brasileira a partir das vanguardas europeias e um projeto de cultura genuinamente nacional. Contos novos é um livro póstumo, publicado em 1947 (o escritor morreu em 1945), que reúne nove contos escritor na maturidade artística do autor. Contos escritos e reescritos, já que Mário era um perfeccionista quando o assunto era a língua portuguesa. E como ele não era de guardar rascunhos, as várias edições dessa obra foram tentando se aproximar da verdadeira linguagem de Mário, um obcecado pelo português falado nos rincões do país.
Dos nove contos, quatro são narrados em primeira pessoa (Vestida de preto, O peru de Natal, Frederico paciência e Tempo de camisolinha) e tem como traço comum o fato de ser narrado pelo mesmo personagem, Juca, cuja personalidade é moldada a partir das suas experiências de rejeição e repressão. No ultimo caso, destaca-se a figura paterna, presente nos contos Tempo de camisolinha, quando Juca é obrigado a cortar o cabelo e perde os cachos de que tanto gostava (alegoria da castração); e Peru de Natal, quando a família aproveita o primeiro Natal após a morte do patriarca, que era avesso a festas, para fazer uma celebração.

Os outros cinco contos são narrados em terceira pessoa e deles se sobressaem duas imagens: a solidão e solidariedade. Em Nelson, o personagem misterioso sentado num bar não tem uma história precisa, mas apenas boatos. Em O ladrão, o alarde da presença de um fora da lei leva os moradores da rua para fora das suas casas durante a noite. Depois da revelação de várias histórias paralelas e sem encontrar o ladrão, todos retornam para a solidão dos seus lares. Por fim, mais solitária do que Mademoiselle é impossível. Quarentona e virgem, trabalha como dama de companhia de meninas ricas que certa vez lhes contam a história de um homem em atitude suspeita atrás da catedral francesa de Ruão. Perturbada mas cheia de desejos, mademoiselle passa a fazer com que todos os seus trajetos passem por traz das igrejas de São Paulo.    

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Casados com Paris – Paula McLain

“Grilhões e amarras não eram a fórmula para prender um homem como Ernest – se é que havia alguma”.
Mais uma vez vemos aqui aquela velha história do livro que é comprado por que estava barato (R$ 5,00) e nos surpreende. Casados com Paris foi achado perdido numa prateleira e, além do preço convidativo, a menção ao nome de Ernest Hemingway chamou a atenção. Ernest e Hadley se conhecem em Chicago nos anos 20. Ela é sete anos mais velha e sonha em ser feliz, já que se aproximava dos trinta anos e nunca vivera um grande amor. Ele sonha em ser escritor e viver da escrita. Em Casados em Paris, publicado em 2011, a escritora norte-americana Paula McLain utiliza-se de uma pesquisa rigorosa para escrever uma “biografia fictícia” da primeira esposa do escritor Ernest Hemingway, Hadley Richardson.
“Eu não confio num homem que nunca vi embriagado”.
Por causa da doença da mãe, Hadley tinha vivido até os 28 anos numa espécie de casulo. Com a morte da senhora Richardson, resolve passear em Chicago e, através da sua amiga Kate, conhece Ernest, então um belo e impetuoso jovem de 21 anos. Ao retornar para casa, continuam se relacionando por cartas, até engatarem um relacionamento e casarem. A princípio, o jovem casal vai morar num pequeno apartamento em Chicago, mas o sonho de Ernest de mudar para Paris e viver da escrita nunca foi esquecido. Ainda nos anos 20, o casal se muda para a Cidade Luz, onde trava conhecimento com grandes nomes das artes, como Gertrude Stein, Scott e Zelda Fitzgerald, Ezra Pound, entre outros. A famosa Geração Perdida!!
“Os muito ricos só admiram a si mesmos”.

Em Paris, travamos conhecimento com um Hemingway extremamente egoísta, que só pensava em concretizar seus sonhos na literatura; e uma Hadley muito submissa, que abria mão dos seus sonhos para sonhar os sonhos do marido. O nascimento da filha veio abrir um abismo entre os dois, com Hemingway se afastando de ambas sob a alegação de que precisava de silêncio e concentração para escrever. Narrado em primeira pessoa, ao contar a própria história, Hadley nos coloca a par não apenas da intimidade do escritor Ernest Hemingway, mas também das histórias de toda uma geração de gênios da arte, que erroneamente foram chamados de “Geração Perdida”.  

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

A resistência – Julián Fuks

Meu irmão é adotado, mas não posso e não quero dizer que meu irmão é adotado.
Com apenas dois romances publicados (o anterior, Procura do romance, é de 2011), o escritor e crítico literário Julián Fuks é um dos mais promissores autores da atual literatura brasileira. A Resistência, seu segundo romance, publicado em 2015, caminha no limite entre a realidade e a ficção; a história e a memória; o biográfico e o ficcional; entre Julián, o autor, e Sebastián, protagonista do livro. Filho de pais argentinos que se exilaram no Brasil fugindo da ditadura portenha, Fuks usa a obra para explicitar a sua obsessão com origens.
“Que força tem o silêncio quando se estende muito além do incômodo imediato, muito além da mágoa”. 
 Narrado em primeira pessoa por Sebastián, o mais novo de três irmãos de um casal de psiquiatras argentinos que se conheceram na universidade, o livro narra a história da família que veio fugida para o Brasil. Dos três filhos, o mais velho é adotado e avesso à vida familiar; o segundo, nascido no Brasil, permitiu a cidadania aos exiliados; e o mais novo, narrador dos dilemas de uma família que vive num país que não é o seu e tem um filho que não é seu (pelo menos não biologicamente). Mas esse não é o grande dilema da narração, mas se o fato de ser adotado deve ser explicitado ou não. Aliás, a frase que inicia o livro expressa esse dilema.
“Um filho nunca será o mais indicado para estimar a relação entre os pais, para compreender o que atraiu um ao outro, para destrinchar seus sentimentos”.

Fuks adota uma estratégia narrativa muito parecida com a utilizada por Chico Buarque de Holanda em Irmão alemão, romance de 2014. Nele, Ciccio é e não é Chico. Aqui Sabastán é e não é Julián. Um dos grandes méritos do autor é narrar com uma precisão assustadora os sentimentos familiares, sensações nem sempre fáceis de expressar em palavras por envolver múltiplos sentimentos. Tributo à Emi, irmão adotivo de Fuks, o livro usa como cenário a ditadura argentina e a vida de todos aqueles que foram atingidos por ela para reconstruir a sua história familiar e dá um significado aos desdobramentos emocionais da adoção. 

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Um defeito de cor – Ana Maria Gonçalves

“Não nos davam comida todos os dias, e me acostumei a isso”.
Tomei conhecimento da existência de Um defeito de cor por acaso, num programa de televisão, quando o ator Lázaro Ramos falou sobre ele. E foi sem muitas expectativas que resolvi ler o calhamaço de quase 950 páginas durante as férias. Logo no prólogo fiquei sabendo pela autora, a publicitária mineira Ana Maria Gonçalves, que também foi o acaso que a levou a escrevê-lo. Aquilo que ela chama de serendipty (palavra inglesa que pode significar uma descoberta afortunada ou o acaso) fez com que uma pilha de livros despencasse na sua cabeça numa livraria e ele só conseguisse segurar um, Bahia de Todos os Santos – Guias de ruas e mistérios, de Jorge Amado. Insatisfeita com a profissão de publicitária, cansada da cidade grande e recém-separada, Ana Maria interpretou aquele episódio como uma proposta de uma nova atividade. Dali em diante, passou a se programar para se mudar para a Bahia.
“Em terra do Brasil, eles (os escravos) tanto deveriam usar os nomes novos, de brancos, como louvar os deuses dos brancos, o que eu me negava a aceitar, pois tinha ouvido os conselhos da minha avó”.
Um ano depois, lá estava ela morando na Ilha de Itaparica, onde outra serendipidade vai coloca-la em contato com dona Clara, uma senhora que trabalhava numa igreja na ilha. Na casa dessa senhora, Ana Maria descobriu documentos escritos em português arcaico que estavam sendo usados como rascunhos pelo filho mais novo. Esses documentos teriam sido retirados da Igreja do Sacramento, com a autorização do padre, para serem jogados no lixo junto com revistas velhas. Antes de pôr fogo em tudo, dona Clara lembrou que seu filho mais novo vivia procurando papeis para desenhar e levou para casa. Nesses papéis danificados pelo tempo e pelo manuseio equivocado havia referencias à história dos malês, negros escravos seguidores da religião Islâmica. Defeito de cor, publicado em 2006, é fruto do que está escrito nesses documentos. A autora inventou apenas as partes ilegíveis ou que se extraviaram. Segundo ela, foram cinco anos de trabalho, dois dos quais reescrevendo dezenove vezes o texto, com redução de quinhentas páginas.
“Na minha convivência com brancos e mulatos, vi que nem todos eram maus, que existiam os de bom coração e até mesmo os que eram contra a escravatura, mas não haveria como separar uns dos outros”.
São várias histórias tendo como fio condutor a narrativa der uma mulher chamada Kehinde, conhecida também como Luísa, seu “nome de branco”, uma escrava negra que foi raptada aos oito anos na África e mandada para o Brasil junto com a irmã gêmea e a avó de ambas. Na verdade, trata-se de Luísa Mahin, mãe do poeta abolicionista Luís Gama, vendido como escravo pelo seu pai português aos 10 anos de idade. Nos cerca de trinta anos que permaneceu no Brasil, Kehinde foi preta de companhia na Casa-Grande, trabalhadora de eito, escrava de ganho, viveu “porta à dentro” com um português (o pai de Luís Gama), conspiradora rebelde e uma negra bem sucedida vendendo guloseimas inglesas nas ruas de São Salvador. Através da narrativa de Kehinde é possível conhecer a vida dos escravos a bordo dos navios tumbeiros que atravessavam o Atlântico abarrotados de negros que seriam vendidos no Brasil; a vida nas lavouras e na Casa-Grande nos engenhos de açúcar espalhados pelo Brasil; como os negros se organizavam para resistir às condições degradantes da escravidão.
“Por que será que tenho pelo menos um arrependimento em relação a cada um dos meus filhos? Arrependimentos por falta ou por excesso de zelo, mas nunca por falta de bem querer, e é isso o que me consola”.

Em suma, Kehinde expõe ao leitor todos os aspectos políticos, econômicos, sociais e religiosos do Brasil, incluindo a espiritualidade afro-brasileira, e da África do século XIX. Já madura, resolve retornar à África, onde se junta com um mulato de origem inglesa, John, com quem tem filhos gêmeos. Lá, descobre que os ex-escravos que voltaram para a África, os retornados, formaram uma espécie de classe média que se acha superior aos que nunca saíram do continente africano. Ao lado do companheiro, Kehinde faz fortuna explorando vários setores da economia africana, do comércio à construção civil. Depois de enviuvar e já octogenária, resolve retornar ao Brasil na esperança de reencontrar o filho desaparecido a anos e contar todos os seus segredos. Kahinde nos deixa inúmeras lições durante a sua saga marcada pelo sofrimento, mas a principal delas é a de que a felicidade pode estar na próxima curva. Um livro que nasceu para ser clássico.