segunda-feira, 30 de abril de 2012

Dilemas de um vegetariano


- Pesquei um peixão! – gritava para os meus amigos. Era uma festa só.
Íamos em grupo para um sítio de um conhecido do pai de um dos meus amigos... ou era do pai de um conhecido...sei lá, não lembro mais. O fato é que íamos pescar, tínhamos em torno de quinze anos de idade e tudo era festa.
Nem tudo. Quando eu via aquele peixinho se debatendo, ficava imaginando que ele tinha filhos, esposa ou namorada e o jogava de volta no lago. Quase apanhava dos outros.
Sempre á mesa, me via pensando no que teria sido a vida daquele bife a milanesa que estava no prato na minha frente. Pensar em como ele tinha sido abatido nem pensar...
- Esse menino está doente! – vivia dizendo a minha mãe, preocupada com a minha magreza e com o pouco que comia.
Aos dezoito anos cheguei a conclusão que não conseguiria comer carne. Não conseguia parar de pensar na vida que aquele filé posto no meu prato a minha frente tinha antes de ali chegar. Virei vegetariano!
- Come só um pedacinho! – era o que eu mais ouvia quando ia com amigos a churrascos.
Quando resolvia tomar uma cervejinha, meu tira-gosto era azeitona. Na churrascaria, enquanto todos se refestelavam com lombinhos, cupins e toscanas, eu comia agrião, alface, rúcula, agrião, acompanhado de feijão e arroz.
Apesar das sacanagens dos amigos, isso não me incomodava. Eu era bem resolvido.
Até eu conhecer um guru de ioga védica tântrica indiana... ou seria tântrica védica... sei lá! O fato era que o cara tinha um nome impronunciável, que eu desconfiava ser artístico, pois soube mais tarde que ele não nasceu numa cidade de nome igualmente impronunciável no Himalaia, como ele dizia, mas em Santa Cruz do Capemba, uma cidade em algum lugar de algum estado de alguma região do país. A população cabia numa Kombi!
- Todo ser vivo, meu filho, possui alma. – falou o infeliz.
Essa frase de sete palavras, menor do que o nome do guru, mudou a minha vida.
Passei a imaginar o brócolis desesperado ao me ver com a faca e o garfo na mão na iminência de cortá-lo ao meio. Imaginei o agrião esperneando para não ser devorado. Mas agrião tem perna? Deixa pra lá...
Sonhei com a rúcula pedindo pela sua alma. Alma? Para onde será que foram as almas dos vegetais que comi? Para! Aí já é muita profundidade filosófica para o meu pobre cérebro carente de carne vermelha.
- A covardia é maior com os vegetais. Ao contrário dos animais, eles não podem correr. – me peguei pensando.
Pensei em comer apenas massa. Mas lembrei-me que para fazer a massa usa-se ovo. Era um infanticídio galináceo! Oh, deus das salsinhas, agriões, rúculas e assemelhados, dê-me uma luz.
- Luz! Vou me alimentar de luz! Já vi isso na televisão.
Será que existe uma incandescente a milanesa? Uma florescente bem passada? Ou uma econômica compacta ao molho pardo?
- Que idiotice!
Ninguém sobrevive de luz! Vou decidir-me.
Passei a noite insone e fiz um esforço enorme para conseguir levantar da cama. Durante a manhã pouco produzi no trabalho e cada minuto sabia que o meu tempo para decidir diminuía. O meio-dia aproximava-se!
Ao meio dia me levantei pra sair e ouvi a pergunta que sempre ouvia.
- Já vai almoçar? – eles sabiam da resposta. Mas naquele dia a resposta, se tivesse sido dada, seria outra.
Fui ao restaurante mais próximo. Ao abrir a porta de vidro, o ambiente climatizado, o burburinho das mesas, o cheiro de comida e o ar de formalidade forçada dos garçons facilitaram a minha decisão. Fui até o balcão buffet e peguei um prato.
Peguei uma porção de todas as carnes que encontrei pela frente. Aproveitei também pra me servir de rúcula, alface, brócolis e todas as verduras coloridas. Em nenhum momento parei para pensar na legião de espíritos que havia naquele prato.

sábado, 28 de abril de 2012

Eu já sabia


Onde há fumaça há fogo. A voz do povo é a voz de Deus. Quando todo mundo fala, é fato. Tudo isso vale no caso de Batman, o homem morcego, o super-herói das histórias em quadrinhos. Batman saiu do armário! Ou melhor, tiraram ele. O roteirista Grant Morrison, em entrevista à última edição da Playboy americana, afirmou que o personagem é gay. Não que ninguém desconfiasse, mas alguém tinha que admitir. Todo via que a relação de Batman com seu parceiro Robin com muitas suspeitas.
“Ele é muito, muito gay. Não tem como negar”, afirmou Morrison. Eu não sei exatamente o que ele quis dizer com isso, a não ser o fato óbvio de que Batman é gay. Mas eu não sabia (santa ignorância) que existe muito gay e pouco gay. Na minha humilde concepção, o sujeito é gay e pronto. É o mesmo que está muito grávida ou pouco grávida! Talvez o “muito” deva-se ao fato dele ser um super-herói, então ele é um super gay. Como perguntou o cartunista Adão Iturrusgarai: “Se o Batman é muito, muito gay, o que sobra para o Robin?”. Mas isso é o de menos...
A declaração provocou debates na internet pelo fato em si e também por que o roteirista disse que não estava usando o termo gay “num sentido pejorativo”.  No blog americano Bleeding Cool, especializado em quadrinhos, um internauta indignou-se por que Morrison “se referiu a Batman como uma pessoa infeliz por causa da opção sexual”. Aí já é outra história. A felicidade de Batman, ao que parece, está não mãos (também nas mãos!) de Robin. 

sexta-feira, 27 de abril de 2012

O STF ou: O boteco do Birica


Estamos acostumados com o ar austero dos tribunais. Quando vemos os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), a suprema corte brasileira, entrando no plenário para discutir a constitucionalidade das leis do país, logo nos lembramos dos lordes ingleses entrando em salões suntuosos para tomar o chá das cinco. Sabemos que não é bem assim. Ali, como em qualquer ambiente de trabalho há competição profissional, vaidades pessoais, fofocas e intrigas.  A discussão entre os ministros Joaquim Barbosa e César Peluso mostrou que o STF está mais para o boteco do Birica do que pra salão nobre inglês.
Em entrevista ao site Consultor jurídico, Peluso disse que Barbosa tem uma personalidade difícil e tem uma pessoa insegura. Barbosa, em resposta, disse que Peluso “se acha”.
Se fosse no boteco do Birica a conversa seria diferente:
- Viado! – xingou Quincas.
- Viado é você! – rebateu Cezão.
- Olha o palavrão, bando de filho da puta! – repreende Birica.
Enquanto os ministros do STF eram escolhidos entre os melhores e mais brilhantes, entre aqueles de notável saber jurídico e reputação ilibada, o judiciário tinha a cara do judiciário. Depois que passou a prevalecer a indicação política, o judiciário está cada vez mais parecido com o executivo e o legislativo. Nem o mais delirante dos ficcionistas imaginava  ver uma discussão de porta de botequim entre ministros da mais alta corte do país.
- Mais uma cerveja, Birica! 

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Entre letras e cifrões


Na esteira do sucesso da Flip (a Feira Literária de Paraty) as feiras literárias viraram uma febre Brasil afora e transformaram-se numa forma dos escritores ganharem um a mais. Até aí tudo bem, afinal o mercado editorial tem que sobreviver. Mas os coordenadores da Feira Literária de Bento Gonçalves (RS), que é organizada pela prefeitura local, exageraram.  Eles acertaram um cachê de R$ 170 mil com o rapper e autor de literatura infantil Gabriel o Pensador.  Até aí, mais uma vez, tudo bem. Mas depois fecharam, alegando limitações orçamentárias, com o poeta e frasista Fabrício Carpinejar e outros escritores o pagamento de apenas R$ 1 mil por suas participações no evento.
Parece brincadeira, mas é verdade. De pronto Carpinejar, em carta aberta, cancelou a sua participação no evento. Eu faria o mesmo. Mas há uma explicação para tanta disparidade nos cachês. Com a banalização das feitas literárias, os organizadores sentem a necessidade de colocar “iscas”, para atrair grandes públicos. Gabriel é essa “isca”. A suposição é que parte do público, como migalhas que caem de um banquete, chegará até as atrações menos dotadas de “celebridade”. Esse é o caso de Carpinejar. 
Não é que Carpinejar e os outros escritores não tenham talento, nem que a literatura esteja fadada à derrota, apenas ela exige ser avaliada por outros critérios. O prefeito de Bento Gonçalves, Roberto Lunelli (PT), justifica o cachê dizendo que a presença do rapper serviria de estímulo à leitura entre os jovens. Tenho minhas dúvidas. Me causa estranheza colocar Gabriel o Pensador como um grande nome no meio literário. 

quarta-feira, 25 de abril de 2012

O clube dos 30


Hoje eles já são senhores na casa dos 50. Mas marcaram época ao transformarem-se nos porta-vozes de uma geração que queria ser ouvida e ouvir. Era uma geração que não queria apenas ouvir Roberto Carlos, Gonzaguinha, Amelinha e Zizi Possi. Queria ouvi-los também. Mas só eles não bastavam. Esse ano Barão Vermelho, Kid Abelha, Titãs, Blitz e Paralamas do sucesso comemoram 30 anos do chamado “Rock dos anos 80”. Claro que o movimento é bem mais abrangente, envolve muitos outros bons artistas. Mas o ano de 1982 marca, de alguma forma, essas cinco bandas.
Foi em 1982 que o Barão Vermelho e a Blitz lançaram seus primeiros discos (não havia CD ainda), “Barão Vermelho” e “As aventuras da Blitz”, respectivamente. A Blitz estourou com o hit “Você não soube me amar”. Foi também nesse ano que Paralamas, Kid Abelha e Titãs fizeram seus primeiros shows. Correndo por fora, Eduardo Dussek, cantor revelado na MPB, lançou, também em 1982, o disco de rock “Cantando no Banheiro”, que reuniu o novato Léo Jaime e João pensa & Seus miquinhos Amestrados.
Entre os cantores individuais, Lulu Santos lançou, em 1982, seu primeiro LP solo, “Tempos modernos”, mas avisa que está fora “do barco das celebrações balzaquianas”. Lobão (ex-baterista da blitz), no mesmo anos, lança “Cena de cinema”, seu primeiro LP solo, mas diz que está concentrado na composição de um novo disco (“passado é passado”). Lembro que tinha 13 ou 14 anos quando comecei a ouvir uma banda chamada “Heróis da resistência”, liderada por Leoni, ex-Kid Abelha. Foi a partir dela que comecei a ouvir outras bandas desse movimento. Quem tem mais de 40 sabe do que estou falando...

terça-feira, 24 de abril de 2012

A caça aos incautos


Pode parecer implicância, mas não é. Vou dizer novamente: igreja é a melhor e menos arriscada forma de se ganhar dinheiro. Muito dinheiro. É isenta de impostos e vende um produto que o “cliente” não tem como reclamar caso não o receba. Nunca vi ninguém voltar do além para reclamar no Procon que foi parar no inferno e não no paraíso, cujo ingresso foi comprado através do dízimo. Encontrar testemunhas então é impossível. Todas tiveram o mesmo destino. Para provar que o dinheiro anda fácil nesse setor, vamos aos números.
Não vou nem me referir à compra de fazendas no valor de quase R$ 30 milhões feita pelo “missionário” Valdemiro Santiago. Em dinheiro vivo! Fato denunciado pelo irmão siamês do “missionário”, o “bispo” Edir Macêdo. Por falar nele, a sua igreja, a Universal do Reino de Deus, comprou no início do ano um prédio no centro de Los Angeles por U$ 17,5 milhões. De dólares! Não se sabe qual o destino do novo imóvel, se vai ser escritório da igreja ou mais circo de horrores, tão comum nos cultos da Universal.
Os “investimentos” de Macêdo não param por aí. Seus emissários articulam a criação de uma canal aberto de TV dedicado totalmente aos cultos da igreja, a iurdTV, que utilizará a estrutura física e as retransmissoras da da Rede Família e da TV Mulher, como também alugará outras retransmissoras no interior do país. Valores? Técnicos do setor avaliam que o projeto não sairá por menos de R$ 100 milhões. É muito dízimo! Mas ainda não acabamos.
A Band vai faturar R$ 280 milhões de maio desse ano até maio de 2013 com a venda de 43 horas semanais para três tele evangelistas: Valdemiro Santiago, da Igreja Mundial do Poder de Deus, R.R. Soares, da Igreja Internacional da Graça e Silas Malafaia, aquele que tem um problema freudiano mal resolvido com o movimento gay. Esse valor representa 30% do faturamento bruto da emissora e 25,5% da sua grade de programação.
Não há no Brasil uma legislação que regule a venda de horários pelas emissoras de TVs, que são concessões públicas, nem esses programas televisivos das igrejas, que são isentas de impostos e “vendem” o que querem, da cura à salvação. Está na hora de tributar o dízimo!  

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Por que delas é o reino dos céus*


É estranho vê-Lo sorrindo agora, quase trinta anos depois. Mas o sorriso é o mesmo, não fossem as rugas e alguns cabelos brancos, eu poderia jurar que Ele ainda é o mesmo. Aproxima-se sem jeito, ainda rindo meio de lado e o sorriso dEle me desafina, me faz pensar que a minha vida inteira eu poderia ter sido uma pessoa melhor. Que eu poderia ter demonstrado mais o que sentia pelas pessoas e poderia ter feito mais por elas, entretanto não fiz. O caso é que nunca fui mesmo muito bom com esse negócio de sentimentos e emoções. É minha natureza, ou será que esse negócio da natureza é só mais uma das minhas desculpas? Como aquelas que sempre inventei pra não ter assumido o filho que perdi, pra ter abandonado a mulher que amava, ou pra ter comido e descartado tantas outras mulheres pelas madrugadas do mundo? Vai saber. Ele por seu turno continua sorrindo. Tento sorrir de volta, contudo há anos que desaprendi a sorrir e minha boca é como uma pintura colada na cara.
- Paga um doce. – Ele me pede, esfregando as mãos, como sempre fez a vida inteira. Estou tomando uma cerveja só para me lembrar, porque, afinal de contas, esse bairro pequeno e perdido no subúrbio é a minha memória, o meu lado mais humano, bonito e verdadeiro. Havia cinco anos que não vinha aqui. Nesse meu ramo de negócios não podemos ser muito humanos e nem muito verdadeiros. O fato é que, apesar de tudo, meu trabalho me deu muito dinheiro, mas muito dinheiro mesmo. Contudo Ele, meu amigo, não se importa com todo o meu dinheiro e continua esperando apenas o seu doce, ainda esfregando as mãos.
- Ô seu Mariano, o senhor tem caixa de bombom aí? – Pergunto ao dono do bar.
- Tenho.
- Faz um favor então, dá uma aqui pro meu amigo.
O dono do bar continua o mesmo desde que tínhamos oito ou dez anos. Tudo aqui parece continuar o mesmo. As pessoas envelheceram, mas não mudaram o olhar e nem o sorriso. As casas mudaram de cor, conservando o mesmo cheiro... o mesmo som. As ruas perderam o paralelepípedo e ganharam um asfalto novo e bonito com duas faixas amarelas pintadas no meio, no entanto ainda são as mesmas ruas onde jogávamos bola com gols feitos de chinelo ou de pedra.
- Posso me sentar aqui? - Ele pergunta com a caixa de bombom nas mãos, sorrindo ainda mais que antes.
- Claro. – Respondo e então Ele se senta ao meu lado, no chão da porta de entrada do bar.
- Desse jeito, vocês vão me fechar toda a porta e aí como é que os fregueses vão entrar? – Grita o seu Mariano atrás do balcão. Os pêlos do meu braço se arrepiam. Como é que pode? É a mesma frase que ele gritava pra gente trinta anos atrás, quando nos sentávamos ali na porta, toda a molecada, depois do futebol, pra tomar um refrigerante qualquer em copos descartáveis que ele nos dava pra não ter de lavar tantos copos depois.
- Esquenta não Seu Mariano. Eu dou uma caixinha gorda pro senhor depois. – Falo e ficamos os dois sentados ali, lado a lado, em silêncio, olhando a rua. Até que Ele abre um dos bombons e diz:
- Esse é o que eu mais gosto.
- Do que é?
- De chocolate, ora.
- Eu sei, mas ele não tem outro sabor, banana por exemplo?
- Não sei.
- Deixa eu ver a embalagem. – Ele me entrega o papel que envolvia o bombom. Crocante com recheio de creme de leite.
Eu peço mais uma cerveja e reforço para o seu Mariano a idéia de que ele tem de pegar uma cerveja lá do fundo, porque elas é que são sempre mais geladas.
- Tá tudo igual. –Ele grita de trás do balcão. Sempre teimoso e mal-humorado esse Seu Mariano. Há cinqüenta anos que vende a mesma cerveja morna.
- Esse carro bonito é seu? - Ele me pergunta com os dentes ainda cheios de chocolate enquanto aponta para o meu carro preto, conversível e importado, com rodas de liga-leve, direção hidráulica, trio elétrico e sistema de freios ABS.
- É sim, gostou?
- É bonitão.
Há trinta anos foi também um carro que mudou a nossa história. Tenho de pedir licença agora, pois o que vou contar não é algo de que me orgulho e também não é uma coisa lá muito bonita. Se quiser abandonar a história ainda é tempo.
Não é necessário repetir que éramos pobres, entretanto eu era o mais pobre de todos. Sempre descalço, sempre poupando o mesmo velho conga rasgado e vermelho pra escola. Filho de mãe solteira, empregada doméstica. Não era fácil suportar a tiração de sarro dos outros moleques. Ao contrário do que pregam, as crianças nem sempre são boas e inocentes. Mas eu não me deixava abater porque era forte e despeitado, quatrocentas lutas e quatrocentas vitórias, de modo que eu era o líder da nossa turma, mas não era um líder bom e nem piedoso. Este mesmo rapaz que está aqui sentado ao meu lado agora, comendo inocentemente seus bombons, foi um dos que mais sofreu nas minhas mãos.Uma das diversões da nossa turma, talvez a maior delas, era persegui-lo pelo bairro jogando pedras, paus, lixo, ratos mortos e tudo o mais que encontrávamos em cima dEle. Eu sempre na frente. Sempre liderando. Sempre tendo que me sobressair e mostrar a minha força, a minha coragem, a minha maldade. Não tinha mesmo piedade, se tivesse um revólver naquela época, talvez tivesse dado um tiro na cabeça dEle sem pensar duas vezes. Só pra mostrar o quanto eu era homem, o quanto eu era forte, o quanto eu era gigantesco, potente, maior, melhor, o quanto eu era inquestionavelmente um líder.
E aí um dia uma coisa aconteceu. É difícil contar isto com Ele aqui ao meu lado sorrindo e desembrulhando seus bombons, mas vou contar de qualquer forma. Mais uma vez, nós o estávamos perseguindo. Eu ia na frente dos outros, como de costume, jogando sobre Ele tudo o que encontrava pelo caminho. Ele era tudo o que eu mais odiava em mim mesmo, Ele era a representação física da fraqueza, e eu não podia deixar espaço para a fraqueza, nem uma brechinha sequer. Naquele dia, os outros desistiram cedo da perseguição, porque alguém havia acertado uma pedrada, ou uma paulada, ou coisa que o valha bem na cabeça dEle e agora ela, a cabeça, sangrava em abundância e Ele chorava, mas tinha de continuar correndo, porque eu estava atrás com toda a minha fúria. Era tarde e eu era o único a continuar na perseguição que já durava mais de três horas. Lembro que saímos do bairro, atravessamos a linha do trem, a avenida onde os ônibus passavam, entramos no outro bairro, onde moravam outros meninos, nossos maiores inimigos, mas não paramos de correr. Então, de repente, na adrenalina da perseguição, atravessamos uma rua sem olhar pra lado algum. Só ouvi o barulho da buzina, o carro derrapando, e então senti o baque nas minhas pernas e voei pelos ares. O carro desapareceu na rua escura. Não fez qualquer menção de parar. Minha testa agora também sangrava e minha perna devia estar quebrada, porque eu não conseguia movê-la um centímetro sequer.
Eles não nos tinham percebido e nós, a eles, também não, entretanto, com o barulho da batida, os meninos do outro bairro, nossos maiores inimigos, que estavam jogando futebol justo ali, na esquina da próxima rua, pararam com a bola e foram ver o que tinha acontecido. Era muita sorte pra eles. Eu ali, no meio do bairro deles, caído no chão e com a perna quebrada. Nem em seus maiores delírios eles imaginavam um milagre desses, nem em suas orações mais fervorosas eles tinham coragem de pedir a Deus que realizasse tamanho milagre, e, no entanto, era eu mesmo lá. Foram se aproximando devagar, feito hienas, feito ratos, feito vermes. Não sentia medo, há poucos dias tinha assistido ao filme Warriors, Guerreiros da Noite na televisão e estava pronto para morrer representando minha Gang. Não fechei os olhos ou tremi, contudo num determinado momento eles pararam, ficaram todos quietos no meio da rua. Eu não entendi. Esperava a surra, a depredação, o linchamento, a morte e nada disso vinha. Então olhei pra trás e lá estava Ele, a testa sangrando, mas imenso, com um pedaço de pau enorme na mão. Depois de alguns minutos um dos meninos gritou:
- Ih! Olha lá! Agora o Doidinho pirou de vez. Vai enfrentar nós todos só com aquele pedaço de pau na mão.
  Ele levantou o pedaço de pau acima da cabeça e falou com uma voz grossa e calma, como se tivesse trinta e não dez ou doze anos.
            - Vem pra você ver o que te acontece.
O menino fez uma cara de espanto, não, de espanto não, de medo mesmo e se enfiou entre os outros. Aos poucos, como um exército em retirada, foram se dispersando. Primeiro as fileiras de trás, depois as do meio e, por último, as da frente. Um dos derradeiros garotos ainda gritou:
- Vocês estão fodidos quando a gente pegar vocês seus filhos da puta. -
Ele fez mais uma ameaça com o pedaço de pau e o menino saiu correndo em disparada. Então se abaixou e me pegou por baixo dos braços, de frente e me sorriu esse mesmo sorriso de agora e... por Deus...  não pude entender mais nada e chorei... chorei... chorei... como nunca tinha chorado nem na frente do espelho e muito menos na frente de quem quer que fosse.
- Para com isso Marquinhos, você é o líder! – Ele disse e então me jogou nas costas com uma facilidade e com uma força que eu nunca imaginei que Ele tivesse e me carregou de volta para a nossa Vila, caminhando por mais de duas horas e doze quarteirões.
Agora Ele sorri de novo, comendo o último bombom e me pergunta, enquanto eu limpo com o dedo a baba que escorre pelo canto da boca.
- Posso pedir um guaraná?
- Claro.
Ainda sorrindo, bebe quase todo o guaraná, reclamando que está doendo a testa porque o refrigerante é muito gelado.
- Então bebe devagar. - Eu falo, só que, em vez de beber devagar, o que Ele faz é virar todo o refrigerante na boca de uma vez. Depois exclama com a mão na testa.
- Ai!
Vendo que Ele não tem jeito mesmo,  esboço também um sorriso e balanço a cabeça para os lados.
- Posso pedir uma última coisa? – Ele me diz.
- Vai lá, o que é?
Aponta para o carro meio sem jeito, sempre sorrindo.
- Que foi quer dar uma volta?  
Balança a cabeça indicando que sim. Então, eu pago a conta com uma nota de cinqüenta reais e mando o Seu Mariano ficar com o troco. Seu Mariano sorri, como sempre sorri quando vê dinheiro e me diz pra voltar mais vezes, não sumir assim. Digo que volto sim, abro a porta do carro e mando meu amigo entrar. Em seguida colocamos o cinto de segurança, ligo o aparelho de som para ouvir o bom e velho Elvis Presley... Like a bridge over troubled water... e dou a partida. Ele ensaia uma pequena batucada sorridente no painel, ao mesmo tempo em que saímos pelas ruas do bairro em baixíssima velocidade. Antes de alcançarmos a primeira esquina Ele aponta para o alto.
- Que foi quer que eu abaixe a capota? – Pergunto e Ele mais uma vez balança a cabeça indicando que sim. Aperto um botão e a capota aos poucos vai se guardando feito uma sanfona lá atrás. Ele está em êxtase e faz um dia lindo lá fora, como há muito tempo eu não via. Atrás do céu azul, espelho de tudo, está o universo e, atrás do universo, um sorriso nos lábios de Deus... um sorriso nos lábios de Deus...

*Daniel Lopes 

sábado, 21 de abril de 2012

O aborto, segundo Veríssimo


Muito bom o artigo sobre o aborto do escritor gaúcho Luís Fernando Veríssimo, publicado no blog do Noblat. Veríssimo afirma que “esta (o aborto) é uma decisão que deveria acontecer o mais longe possível de qualquer consideração legal, no íntimo da mulher, que é dona do seu corpo e do seu destino”. Ou seja, a decisão de ter o filho ou não é exclusiva da mulher, não é uma decisão de estado. Eu acrescentaria mais: não é também uma decisão da Igreja. Enquanto a criança não nasce, ela faz parte das entranhas da mulher que a carrega. Nem Estado nem Igreja deve se imiscuir nas estranhas da mulher. Nada mais íntimo, nada mais seu do que suas entranhas.
Discute-se quando se inicia a vida, quando o feto passaria a ter a proteção do aparato estatal. Os adversários do aborto alegam que esta prática seria um atentado à vida. Porém, qualquer prática no sentido de interromper a gravidez é considerada pela legislação como crime de aborto, não homicídio. Portanto, legalmente, deveria ser considerado como o início da vida o nascimento. Não quero a banalização do aborto, mas apenas o direito da mulher de decidir se quer ou não ter o filho que carrega no seu íntimo.
Semana passada o STF decidiu pela legalização do aborto de fetos anencéfalos. Aos que berraram histericamente contra a decisão, um lembrete: a lei não obriga a mulher que carrega um feto anencéfalo a abortar, ela apenas dá direito ao aborto à mulher que quer interromper a gravidez nessas circunstâncias. Não cabe ao estado nem a Igreja dizer se e quando a mulher pode decidir. Ao Estado cabe o dever de assegurar um parto ou aborto com as melhores condições possíveis. À Igreja cabe dá apoio espiritual a quem necessita e quer em qualquer das situações. 

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Suplicy e seus ídolos


O que você faria se tivesse a oportunidade de encontrar o seu ídolo? Pediria um autógrafo? Tiraria uma foto com ele? Daria um abraço nele? O senador Eduardo Suplicy não fez nada disso. Ao se encontrar com o cantor americano Bob Dylan, na saída do show do roqueiro em Brasília, preferiu falar sobre o seu projeto de renda mínima. E ainda deu para ele um exemplar do seu livro Renda de cidadania: A saída é pela porta. Suplicy é fã assumido de Dylan, a ponto de ter cantado, em plena tribuna do Senado, Blowing in the Wind (tirem as crianças da sala!), clássico do roqueiro americano. Mas desconfio que isso não será suficiente para fazer da obra de Suplicy o livro de cabeceira do cantor...
Todo fã de futebol, independente do time pelo qual torce, admira o futebol o futebol da dupla santista Neymar e Ganso. Suplicy adora futebol e é santista de carteirinha (para o azar de Neymar e ganso). Numa visita do time santista ao Congresso em comemoração ao centenário do clube, Suplicy presentou os dois ídolos santistas com... O livro Renda de cidadania: A saída é pela porta. O senador não sabe se a dupla vai ler o livro (eu sei!), mas garante que gostaram do presente (tenho minhas dúvidas!). Desconfio que Neymar e Ganso estejam mais interessados em correr atrás de uma bola e fazer suas estripulias dentro das quatro linhas...
O Projeto de Renda Mínima virou uma obsessão na vida do senador. Não interessa onde ele esteja (velório, casamento, batizado), o tema é um só. E se já não bastasse a chatice do tema único, o interlocutor ainda tem que aguentar o tom monocórdio da sua voz e a prolixidade do senador. É de dá sono! Torça para não encontrar o senador Eduardo Suplicy nas suas andanças. Fatalmente você será “presenteado” com a sua obra. The answer, my friend, is blowin' in the Wind...

quinta-feira, 19 de abril de 2012

O guardião de memórias – Kim Edwards

Durante uma violenta tempestade de neve no inverno de 1964, o Dr. Henry é obrigado a fazer o parto dos seus filhos gêmeos. O menino, o primeiro a nascer, é perfeitamente saudável. A menina, logo o médico percebe, é portadora da síndrome de Down. Diante desse fato, Dr. Henry pede para que a sua enfermeira, Caroline, entregue a criança para adoção e fala para a esposa que a criança faleceu. Sensibilizada, a enfermeira decide sair da cidade e criar o bebê, Phoebe, como se fosse sua filha.

Esse é o ponto de partida de O guardião de memórias de Kim Edwards. A atitude do Dr. Henry irá provocar um imenso vazio em Norah, sua esposa, que nunca irá se recuperar da perda da filha. A partir daí, uma intricada rede de mentiras, traições e segredos se desenrolam. Durante o resto da sua vida, o Dr. Henry vai viver em conflito, dividido entre contar ou não à sua esposa o que realmente aconteceu. Sendo traído por Norah, não irá recrimina-la, como forma de recompensá-la oela sua atitude no passado.

O livro tem tudo para ser meloso. Mas não é! Com uma trama tensa e cheia de surpresas, O guardião de memórias emociona. Tem uma construção bem amarrada, personagens de um realismo pouco visto e, acima de tudo, uma capacidade de prender o leitor do início ao fim. O livro tem o poder de nos mostrar o profundo significado das nossas escolhas. É um livro que vale a pena não apenas ler, mas devorar página a página.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Tempo, tempo, tempo

Tempo, tempo, tempo. Dias, meses, anos e décadas. Três décadas. No escuro, o tempo cessa de ser tempo e o espaço de ser espaço. Como será o tempo pra quem não é mais? Mas onde estarás? Estarás no escuro? Pra quem fica o tempo voa. Típico das abstrações. Para onde o trânsito o terá levado? Da voz, quase nada. Do olhar, apenas uma 3X4. Do caminhar, apenas as pernas finas e ligeiramente tortas, a fragilidade infantil. Das brincadeiras, muitas lembranças. Futebol, pião, bola de gude, carrinhos de ferro, falco, correria na escola. Para onde o trânsito o levou?

Tempo, tempo, tempo. As vestes da imortalidade não nos pertencem. Restam-nos a enormidade da morte e as vagas lembranças que o tempo não conseguiu varrer. O que teria sido da pequenez da vida se não fosse a máquina fatídica? Filhos, família, cidadão modelo? Nunca saberemos! O tempo não anda pra trás. Anda incólume, sorrateiro, invencível, rumo ao desconhecido. Para ti, a barca cruzou o rio. Fiquei a olhar a correnteza. Por ela vi passar brinquedos, brincadeiras de criança, desavenças logo vencidas pelas avenças.

Tempo, tempo, tempo. Por onde andas? O que terá sido de ti? Nunca saberei! Ou saberei? Nunca saberás das novas gerações. Ou sabes? O que teria sido dessas três décadas se a imprudência não tivesse cruzado o teu caminho? Carro, casa, emprego, faturas? Nunca hei de saber! Planos para uma vida não vivida. Para ti, o tempo deixou de ser tempo. O espaço deixou de ser espaço. Não verás nada passar. Hoje, hoje, hoje...

terça-feira, 17 de abril de 2012

Os 3

O filme dirigido por Nando Olival, lançado no ano passado e tendo três estreantes como atores principais, é mais profundo do que parece ser. Basta assisti-lo com o olhar um pouco aguçado e observar os detalhes. O filme conta a história de três estudantes: Cazé (Gabriel Godoy), Camila (Juliana Schalch) e Rafael (Victor Mendes) se conhecem no primeiro dia da faculdade de jornalismo e decidem dividir apartamento. O projeto de conclusão de curso do trio consiste num reality show via internet, no qual é possível comprar os produtos usados pelos participantes que são vigiados 24 horas por dia.

O roteiro é apimentado com um detalhe: os três acabam virando cobaia do próprio projeto surgindo, daí, o pretexto para um viés dramático na trama. Rafael (que narra a história) nutre um sentimento confuso com relação aos outros dois. Ao mesmo tempo em que se diz apaixonado por Camila e tem ciúmes dela com Cazé, não consegue se separar dos dois. Quando o trio começa a criar situações para aumentar o número de acessos ao programa na internet, Rafael começa a se questionar o que é ficção e o que é realidade numa vida midiática.

A vida do trio trancado num apartamento e monitorada 24 horas por dia vai revelar muitas verdades, mentiras e cenas patéticas. Tudo ao jeito brasileiro, com uma pitada de melodrama e outras de malícia, sexo e humor. Um bom passatempo...

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Que menina!*

Que coisas desastrosas são os maria-vai-com-as-outras. Há muitas pessoas desse tipo neste mundo! Eu, inclusive, já contara a história de um Juquinha-Piolho, fino representante dessa abundante espécie.

Agora, nesta fábula, o nome da personagem até coincide com o primeiro nome da alcunha popular dessa classe de viventes: chamava-se Maria.

Por causa da mania de não resistir a chamados e conselhos de qualquer um, já se metera em muitas confusões. Algumas tristes, outras hilariantes, outras ridículas, outras trágicas e, de vez em quando, se engamelava em algumas que eram o misto de tudo isso.

Certa feita, a pedido de um amigo, atirou água quente em um casal de cães que copulavam. Que coisa horrível e sem graça interromper coitos abruptamente, sobretudo os dos pobres animais que não devem respeito à moral alguma.

Em outra ocasião, a conselho alheio, cutucou, com uma vara curta e fina, o sob-rabo de uma égua que pastava tranquilamente. Recebeu, como recompensa, um coice nas canelas.

Houve um dia em que andou pelada pelas ruas, porque, pasmem, acreditou nas colegas que lhe juraram piamente terem vestido nela uma roupa somente invisível para quem a usava.

No ano passado, quase reprovou de série. Ficara trinta dias internada no pronto-socorro e outros tantos de molho em casa. Uma colega lhe aconselhara a fazer o jogo da “chicken”. Detalhe: ela estava de bicicleta e o oponente de caminhão. Quase virou pastel de galinha (não se avexem, não tomem galinha pelo que talvez vocês estejam pensando: a nossa menina não era dadivosa – é que, pelo jogo, quem saísse da frente primeiro, dando passagem ao outro, seria a galinha; ela, felizmente, para que a desgraça não fosse total, conseguiu, de último instante, curvar-se à direita e evitar o choque frontal; coitadinha! só quebrou as pernas e a bacia: coisa de somenos importância, nada que um ortopedista João-paulino não pudesse consertar).

Mas nada disso chegou perto do que ela, recentemente e pela última vez, fora capaz de fazer por conselho dos queridos amigos. Foi a Claudinha quem falou:

- Mana Maria, ontem assistimos um filme que um homem tomava um remédio e morria. Mas só por alguns minutos. Depois ele voltava à vida. Sãozinho em folha!

E convenceram a pobrezinha de que elas tinham conseguido a tal poção e Maria deveria tomá-la. Tadinha, nem sabia o que era o Auto da Compadecida.

- Veja, Maria, você toma o remédio e morre por alguns minutos. Vê nosso Senhor Jesus Cristo, fala com ele e pode até pedir algo de especial.

Se Maria falou com Jesus, não se sabe, pois notícia comprovada do outro mundo ainda não se teve. Mas, se conseguiu tal feito, o Nosso Senhor, usando uma expressão tão ao gosto do nosso Machado, deve ter dito:

- Menina, qualquer dia destes, dou-te um piparote. Vá ser jega assim na p.q.p.!

*Elio Oliveira Cunha

sábado, 14 de abril de 2012

Titanic: fatos e mitos

O fato a ser lembrado nesse mês é o centenário do naufrágio do Titanic, que teria afundado na madrugada do dia 15 de abril de 1012, portanto, nessa madrugada. Criou-se em torno desse fato uma teia de informações que ninguém sabe onde termina o fato e onde começa a imaginação. O primeiro mito é que o naufrágio do Titanic teria sido a maior tragédia marítima da história, com 1.514 vítimas. Não foi! O incêndio de a embarcação filipina Doña Paz matou mais de quatro mil pessoas em 1987. Então por que se criou tanto mito em torno do naufrágio do Titanic? Por que o fato é tão lembrado até hoje, se houve tragédias muito maiores? Talvez por que tenha afundado na viagem inaugural depois de colidir num iceberg no meio do Oceano Atlântico e com a presença de celebridades a bordo.

Na história, sabemos que todo acontecimento tem heróis e vilões. No caso do Titanic é o comandante do navio, Edward John Smith. Tudo bem que ele não se compara a Francesco Schettino, comandante do Costa Concórdia, que foi o primeiro abandonar o navio. Mas ele não é tão herói assim. Smith foi imprudente ao não diminuir a velocidade do navio mesmo recebendo informações sobre a presença de icebergs na região. Ao permitir que botes salva- vidas saíssem parcialmente ocupados, deixou de salvar a vida de pelo menos 500 pessoas, um terço das vítimas.

O vilão é J. Bruce Ismay, diretor da White Star, administradora do navio, que não permitiu que se acrescentassem mais 44 botes por causa dos custos e da estética, já que, nesse caso, os botes a mais teriam que ser alojados no convés da 1ª classe. Ismay não violou a lei ao não permitir esses botes a mais. A legislação britânica previa para navio do tamanho do Titanic a presença de 16 botes. Portanto, a navio estava com quatro botes além do que rezava a legislação. Mesmo assim, Ismay passou o resto da vida como pária e viajando incógnito em trens e navios.

Outro grande mito é sobre a quantidade de tesouros guardados no cofre do navio naufragado. Por ter muita gente endinheirada a bordo, acreditava-se que o cofre estivesse recheado de ouro, joias e dinheiro. Isso despertou a ambição de caçadores de tesouros. Se deram mal! Em 1987, diante das câmeras de uma equipe de TV dos EUA, o cofre foi aberto. Dentro dele apenas um bracelete de diamantes. A fortuna que o Titanic carrega não está nos seus cofres, mas na imaginação de quem quer lucrar de alguma forma com ele.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

A casa da água – Antônio Olinto

Na maioria das vezes procuramos o livro para ler. Algumas vezes (poucas, diga-se) o livro te procura. Foi o que aconteceu com A casa da água, de Antônio Olinto. Achei-o por acaso numa banquinha de promoção num sebo. Uma edição antiga do Círculo do Livro que me custou R$ 8,00. É um livro fascinante! Mas as boas notícias não terminaram aí. Já ao término da leitura, descobri, por acaso, que ele é o primeiro volume de uma trilogia chamada Alma da África, cujo segundo volume é O rei de keto e o terceiro é Trono de vidro. Comprei-os imediatamente e deles falarei depois de lê-los.

A história começa em fins do século XIX, uma década após a abolição da escravidão no Brasil e atravessa 70 anos. Era uma época em que muitos ex escravos voltavam para a África e eram chamados de agudás. Catarina, ex escrava, resolve voltar à Nigéria, onde tinha sido vendida pelo tio, levando consigo a filha, epifania e os netos. Mariana, uma das netas de Catarina, é a personagem central do romance. Mulher de gênio forte e espírito empreendedor, torna-se uma rica comerciante com negócios nas colônias europeias no golfo do Benin.

O título da obra refere-se a uma construção em Lagos, na Nigéria, uma casa com poço artesiano feita por brasileiros. E é exatamente a partir de um poço que a fortuna de Mariana irá ser erigida. A trilogia Alma da África é consequência do tempo em que Olinto serviu o governo brasileiro como adido cultural na Nigéria e lá conheceu vários agudás. A casa da água foi escrito em três meses, entre junho e setembro de 1969. O livro apaixonante que revela todo o carinho e o interesse que o autor tinha pela África.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Desculpas eternas

O escritor alemão Gunter Grass (foto acima) publicou nessa quarta um poema em prosa com duras críticas à Israel. Intitulado O que é preciso dizer e publicado no jornal alemão Suddeutsche Zeitung e no espanhol El país, o poema diz que Israel com suas armas atômicas “coloca em perigo a paz mundial por si só já frágil”. O poema ainda denuncia eventuais ataques preventivos israelenses contra instalações nucleares iranianas como um projeto que poderá “exterminar o povo iraniano”. Diz que Israel dispõe de um “crescente potencial nuclear, fora de controle, já que é inacessível a qualquer inspeção”. Grass denunciou também o “silêncio geral sobre esse fato”, numa clara alusão à conivência das potências ocidentais com relação à Israel.

Grass, Prêmio Nobel de Literatura em 1999, admitiu em 2005 ter feito parte, aos dezessete anos e por nove meses, das Waffen-SS, uma tropa de elite do exército nazista. Na época da revelação, os judeus pediram a cassação do prêmio ao escritor, o que foi negado pela academia sueca. Claro que as revelações do passado potencializaram as reações ao poema e mais uma vez foi pedida a retirada do prêmio e mais uma vez a Academia Sueca negou, afirmando que a decisão de premiar Grass em 1999 esteve baseada nos seus “méritos literários”.

Não se discute que os crimes atrozes cometidos contra os judeus na Segunda Guerra foram abomináveis e não devem jamais ser esquecidos. Mas também não podemos passar o resto da eternidade pedindo desculpas e nos sentindo culpados pelo que aconteceu. As potências mundiais tratam Israel como um marmanjo que tudo pode por que teve coqueluche na infância. Após a segunda Guerra, cheios de culpa por não terem evitado o Holocausto, as potências vencedoras tentaram recompensar os judeus com um país independente, não se preocupando com outros povos que vivia na mesma área destinada à criação de Israel.

Até hoje esse país recebe proteção e apoio financeiro dos EUA. Tornou-se uma das nações mais bem armada do mundo e com um arsenal atômico desconhecido. E ninguém ousa apontar-lhe o dedo sob pena de ser chamado de antissemita. Não se ignora os perigos que os judeus estão sujeitos com os vizinhos que tem, mas já está na hora de pararmos de pedir desculpas e enquadrar o Estado de Israel nas mesmas regras a que outras nações estão submetidas.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Padre Cícero - Lira Neto

O jornalista cearense Lira Neto consumiu dez anos para escrever Padre Cícero: poder, fé e guerra no sertão. O resultado é um livro com uma leitura agradável, um texto envolvente e uma reconstituição histórica primorosa. Em alguns momentos acredita-se que se está lendo um romance, tal a pormenorização dos diálogos. Como o autor conseguiu reconstituir tais diálogos com tanta minúcia? Lira Neto contou com o acervo da Cúria do Crato, que tem mais de 900 e cartas e com uma fonte valiosa do Vaticano, que ele não revela.

Toda a polêmica envolvendo Padre Cícero, então um jovem sacerdote, começa em 1889, quando, ao oferecer a comunhão à beata Maria de Araújo, viu a hóstia sangrar. Com a continuação do fenômeno, médicos foram chamados e não conseguiram explicar o que estava acontecendo. Daí para a população de Juazeiro considerar milagre foi um pulo. Apesar de não ser religioso, Lira Neto não nega de forma taxativa esses eventos: “Algo aconteceu ali”, afirma. Suspenso das atividades sacerdotais pela igreja, que não aceitava tais eventos como milagrosos, Cícero se volta para a política, demonstrando sua capacidade de reinvenção e revelando sua sagacidade na hora de fazer alianças.

Além de Cícero, um homem sagaz e inteligente na hora de fazer alianças, mas pouco culto, o livro nos traz outros personagens curiosos. O primeiro deles é a própria Maria Araújo, negra, analfabeta e protagonista do “milagre de Juazeiro”, foi obrigada a se exilar de Juazeiro por ordem da Igreja. Depois de Cícero, o personagem mais intrigante é floro Bartolomeu. Sempre ouvi no curso de história que esse homem misterioso, de quem não se sabia de onde veio nem que fim levou, era usado por Cícero como testa de ferro nos seus projetos políticos. O livro dá a entender que Cícero foi usado por Floro na sua ambição de ganhar dinheiro e conquistar poder com o carisma do sacerdote e sua suposta capacidade de realizar milagres. Uma grande obra tanto para ser lida como lazer quanto como fonte de pesquisa.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Esquerda, direita, volver

João Goulart foi derrubado em março de 1964 por que os militares queriam frear as reformas sociais que o seu governo estava fazendo com o intuito de aprofundar a democracia no brasil. O presidente tinha o apoio das esquerdas que, unidas, defendiam a manutenção do Estado democrático de direito e o respeito à constituição do país. Após o golpe, a esquerda passou a combater a ditadura militar e lutar por democracia no país. Todo esse parágrafo é tão falso quanto uma jura de amor de pau duro.

A esquerda brasileira não apoiava o governo de João Goulart. Preferia-o a uma ditadura militar. Portanto, o governo Goulart era um mal menor. Ou um inimigo mais fácil de ser derrotado. Se o fraco e incompetente João Goulart não tivesse sido deposto pelo golpe militar (golpe, não revolução), teria sido deposto por um golpe da esquerda (golpe, não revolução), se ela tivesse força e unidade para isso. Aí teríamos uma “ditadura do proletariado” que, como o nome diz, não é uma democracia.

A esquerda é tão democrática que tentou impedir que militares comemorassem o aniversário de 48 anos do golpe militar no mês passado. Sábado passado, divulgaram o endereço do legista que assinava atestados de óbitos falsos para justificar as mortes de presos políticos. Por que eles não fazem o mesmo e denunciam os asseclas dos barbudos cubanos que a mais de meio século estão fossilizados no poder na ilha caribenha?

Agora tentam criar uma tal de Comissão da Verdade para reabrir processos que apurarão crimes cometidos durante a ditadura. Mas apurarão os crimes cometidos pelos militantes de esquerda também (assaltos, sequestros e assassinatos)? Aaaaah, mas esses crimes foram cometidos em nome da causa, para combater um governo autoritário! Os crimes dos militares também foram cometidos em nome da causa. Da causa daqueles que acreditavam que o comunismo tinha que ser combatido por que era uma ameaça para o país.

De que lado está a verdade? Para os dois lados, a verdade está do seu lado.

Um dos pilares da democracia é o respeito às leis. Inclusive respeito à lei da anistia, que foi ampla, total e irrestrita. Perdoou os crimes cometidos pelos dois lados. Apurar os crimes para fins históricos se aceita. Apurar os crimes para buscar a punição de seus autores é um atentado à democracia. Mas que sejam esclarecidos TODOS os crimes, inclusive aqueles cometidos em nome da “causa”.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

O mico

Tenho muitos conhecidos, mas com o Marcinho tenho uma identificação muito grande. Não me pergunte por que, pois somos quase o oposto um do outro. Ele é aquele cara que fala muita abobrinha, eu sou meio caladão. Ele bebe de segunda a segunda se não precisasse trabalhar, eu sou mais contido no quesito álcool. E a maior das diferenças: ele pega todas as mulheres (ou pelo menos diz que pega), eu namoro pouco, mas faço minhas estripulias de vez em quando.

- Lembra da fulana? Aquela gostosa que chegou na nossa mesa sábado passado? Peguei! Gata, né? – eu ouço isso sempre que me encontro com o Marcinho.

E o que mais detesto é que ele fica esperando a confirmação de que a gata com quem ele ficou é estonteante. É a mesma pergunta no final de cada frase: “É gata, né? Hein?” Na maioria das vezes é mesmo. Mas precisa ele ficar me torturando? Só por que eu não fico com uma ínfima quantia das mulheres que gostaria e ele fica ou, nunca custa nada repetir, diz que fica? Eu odeio esse “hein” dito incontáveis vezes até que eu confirme que realmente a garota é muito bonita.

Nos encontrávamos quase todos os finais de semana. Não vou repetir que ele sempre conta alguma aventura que teve no meio da semana com alguma mulher que nós vimos no final de semana anterior: É gata, né? Hein? Hein? Para meu deleito, às vezes ele fracassava nas suas conquistas. Mas ele não me contava, ficava sabendo por outras pessoas.

Mas quero deixar bem claro que não havia competição entre nós. Eu não tinha como competir com ele!

Mesmo com essa irritante capacidade de conquistar (que eu não tinha), eu me identificava com ele. Gostava de sair com ele para as farras. Falo sempre no passado por que já faz muito tempo que tudo isso aconteceu.

Num certo final de semana, Marcinho me chamou pra um churrasco na casa de um conhecido dele. Eu conhecia o dono da casa apenas de vista. Fomos.

Quando cheguei no churrasco, olhei todos e percebi que, a exceção do dono da casa, não conhecia ninguém. Mas me detive numa criaturinha de pele branca, cabelos longos e lisos. Devia ter uns 18 anos. Na época, eu tinha pouco mais do que isso.

- Quem é aquela ali de blusa branca? – perguntei ao Marcinho.

- Sei lá! – Respondeu-me e já entrou numa conversa com outra pessoa que estava na mesa conosco. Ele adorava fazer isso: não dá a mínima quando eu manifestava interesse por alguém. Quando isso acontecia com o cafajeste ele ficava naquele “hein, hein?” irritante.

Ela tinha uma criança no colo, que dormia. Devia ter entre seis e oito meses o bruguelo. A julgar pela pequena barriga que ela possuía, o filho deveria ser dela. A julgar pela mesma barriga, fruto do parto recente, deveria ter um corpo e tanto antes da gravidez.

Continuei a observá-la. Ao lado dela estava um senhor de cabelos grisalhos, visivelmente embriagado que ficava mexendo nas mãos da criança adormecida e encostando a cabeça no ombro da mãe .

Lá pelas tantas, eu já estava mais pra lá do que pra cá depois de muita cerveja. Como a maioria das pessoas já tinham ido, todos ficaram numa roda em torno de uma mesma mesa, inclusive a minha musa.

(vou abrir esse parêntese para dizer que, depois de algumas cervejas, eu facilmente encontro musas, por quem nutro um amor eterno até que o efeito da cerveja passe).

Voltando. O senhor de cabelos grisalhos continuava ao seu lado brincando com a criança (agora acordada). Percebi que a cadeira do outro lado estava vazia. Resolvi colocar em funcionamento meu dispositivo de conquista (uma decisão infeliz, descobri depois).

Sentei-me ao seu lado e lancei na sua direção um sorriso mal disfarçadamente desinteressado.

- Oi. Tudo bem? – falei.

Ela apenas sorriu um sorriso sem graça. O senhor, com sinais indisfarçáveis de embriaguez, continuava brincando com a criança. A cara dela era de quem estava incomodada. Ou seria eu, também meio embriagado, que queria que ela estivesse incomodada para que pudesse dá uma de herói?

Foi nessa hora que tomei outra decisão infeliz. Inclinei-me para bem perto dela e sussurrei:

- Esse senhor está incomodando você? Se você quiser eu posso colocar a minha cadeira entre ele e você. – falei com aquele ar de herói.

Ela me olhou como quem olha para um misto de imbecil e débil mental.

- Ele é meu sogro.

sábado, 7 de abril de 2012

O photoshop a serviço da fé

Veja a imagem acima. Na foto da esquerda, o patriarca da Igreja Ortodoxa russa, Cirilo I aparece ostentando um relógio suíço Breguet, avaliado em R$ 58 mil. Na foto da direita, o relógio desapareceu como por milagre divino. O problema é que o “santo” que fez o “milagre” esqueceu de apagar o reflexo do relógio na mesa. A preocupação da Igreja Ortodoxa com o relógio não é gratuita: mostra aos críticos que o patriarca não vive uma vida de austeridade que ele recomenda para os seus seguidores. Nada original o patriarca.

Sem contar que Cirilo I tinha desafiado seus críticos dizendo que quaisquer fotos que surgissem mostrando um relógio no seu pulso eram meras falsificações. O que não falta na vida do patriarca são críticos. Principalmente pelo apoio que ele deu ao presidente russo Vladimir Putin nas últimas eleições. O patriarca afirmou que os 12 anos de Putin na Presidência da Rússia foram um “milagre de Deus”. E esses críticos provaram que a foto foi manipulada. Nada original o patriarca.

O patriarca Cirilo I não está nem um pouco sendo original por que essa é uma prática inerente às religiões. Aliás, elas são criadas para isso. A religião, qualquer uma, é por definição a fé manipulada. Por definição e objetivo. Qualquer religião, em qualquer época e em qualquer lugar. Se Deus (na sua divina sabedoria) se importasse conosco, jamais teria nos dado a religião. Não me surpreende a postura da Igreja Ortodoxa e seu líder. Essa é uma prática generalizada. A voz que mora em mim não cansa de perguntar: Alguém já viu um grande líder religioso viver na austeridade aconselhada aos seus seguidores? Nisso o patriarca Cirilo I também não é nada original.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Casa de encontros – Martin Amis

O livro Casa de encontros, do escritor inglês Martin Amis, é uma obra de ficção escrita a partir de pesquisas que o autor fez para escrever um ensaio sobre Stálin. A narrativa tem a forma de uma carta escrita pelo protagonista, em 2004, para sua filha nos Estados Unidos. Ele está voltando à Rússia depois de décadas de ausência para morrer. O livro critica as dimensões obscuras do totalitarismo soviético no período comunista. Mas as críticas do autor não ficam apenas na ex URSS. Sobra também para a Rússia moderna, ou nem tão moderna assim, na visão de Amis.

O narrador e protagonista é um ex preso de um campo de concentração para dissidentes da ex União Soviética. A razão para a sua prisão não fica muito clara, uma vez que qualquer motivo era motivo. Seria ele um herói? Nem um pouco. Soldado na II Guerra Mundial, estuprou várias mulheres quando seu país invadiu a Alemanha. Depois que saiu da prisão, transformou-se em traficante de armas e ficou rico vendendo-as para o mesmo estado que o submeteu à fome, à tortura e à escravidão.

A história de desenvolve a partir de um triângulo amoroso (o narrador, seu irmão Liev, também prisioneiro no campo de trabalhos forçados, e Zoya, uma bela intelectual judia e liberal). O título refere-se ao local em que os prisioneiros recebiam suas esposas para encontros conjugais. Foi lá que Liev recebeu Zoya para uma noite de sexo que mudou a sua vida para pior. Com a relação manchada pelo ambiente do gulag, o casamento acaba depois da liberdade de Liev. Amis parece ser russo tal a familiaridade com que trata os assuntos do país. Um bom livro.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Sou contra a copa no Brasil

Sou apaixonado por futebol. Sou do tipo que não precisa saber quem está jogando. Eu assisto ao jogo. Acho a copa do mundo não apenas o maior espetáculo esportivo do mundo, mas o maior espetáculo do mundo. Apesar de toda essa paixão pelo futebol, sou contra a copa do mundo no Brasil, nos termos que a FIFA quer. Tenho o sonho de assistir uma copa do mundo e 2014 seria uma ótima oportunidade. Mas sou contra essa copa. A FIFA não faz copa para torcedor, faz para turistas que não sabem diferenciar um impedimento de um lateral, um bandeirinha de um gandula. Mas tem dinheiro!

Não se discute que o evento traz benefícios para o país que o sedia, como melhoria no setor hoteleiro, nos meios de transportes, nas comunicações. Mas as exigências que a FIFA faz relacionadas às novas arenas vão deixar alguns estados com elefantes brancos inoperantes. Ou você acha que o futebol do Distrito Federal e estados como Mato Grosso e Amazonas têm público para encher um estádio com capacidade para 60 mil pessoas? Estima-se que o investimento será de R$ 25 bilhões. Repito: ganharemos em infraestrutura, mas herdaremos várias obras inúteis. Concluo que os prejuízos serão maiores que os benefícios.

Sem contar as exigências que a FIFA faz para trazer o evento para cá. Algumas delas ferindo a legislação brasileira, como a discussão sobra a venda de bebidas alcoólicas nos estádios. O Estatuto do Torcedor proíbe tal comércio, mas isso não é do interesse mercantilista da entidade máxima do futebol. E vontade de ganhar dinheiro não encontra obstáculos para os dirigentes da FIFA, que queriam que o governo brasileiro assumisse toda a responsabilidade civil do evento, ressarcindo a entidade de eventuais prejuízos independente da culpa. Não conseguiu. Mas os lucros não serão divididos. O que é meu é meu, o que é teu é meu também.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Josué Montello

Josué Montello (1917-2006) foi um jornalista, professor, teatrólogo e escritor maranhense. Era um mestre no romance histórico, passado, invariavelmente em cenários do seu estado natal. Há uma década, aproximadamente, li Os tambores de São Luís (1975), uma narrativa na terceira pessoa que se dá de um anoitecer até o amanhecer. Porém, é uma jornada épica que conta a vida do personagem Damião, desde quando chegou ao Brasil, ainda criança, num navio negreiro, passando pela sua adolescência e chegando a fase adulta sofrida com a escravidão. O autor apresenta todo o ambiente cultural do século XIX através do perfil de dezenas de personagens que se cruzam.

Há dois anos li A vida eterna do major Taborda (1981), a divertidíssima história do major que, mesmo beirando os cem, não ver a morte lembrar-se dele. Do alto de sua experiência temporal e tendo visto duas guerras, andado de automóvel e apreciado moças vestindo biquínis, persistia nele uma dúvida: ou ele ou seus semelhantes haviam enlouquecido. A prosa elegante e a narrativa excepcional de Montello não dão sinais de arrefecimento mesmo quando ele abandona o romance histórico e se dedica a enredos modernos.

Recentemente li A mulher proibida e Enquanto o tempo não passa, ambas de 1996. Na primeira obra, há o conflito entre duas gerações: a do pai viúvo, ainda moço, e a da filha única, envolta pela permissividade de sua própria geração. Acrescente-se a isso o conflito interior em que vive o personagem, cuja filha, já crescida e bela, não é legítima. Enquanto o tempo não passa, tem um personagem central que é herói e vítima. Ao mesmo tempo, Montello expõe o problema da depressão e a luta da medicina para desvendar os mistérios do cérebro humano. Indiscutivelmente, o presidente da Academia Brasileira de letras entre janeiro de 1994 e dezembro de 1995 é um gênio das palavras.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Elvis & Madona

Não sou muito fã de cinema. Mas num sábado a noite ocioso e já cansado da leitura habitual, resolvi dá uma olhada no Canal Brasil e tive uma agradável surpresa. Assisti a Elvis & Madona (Brasil, 2011), uma comédia romântica centrada no relacionamento amoroso entre uma lésbica e um travesti. Madona (Igor Cotrim) é um travesti que trabalha num salão como cabelereiro e faz show na noite. Elvis ou Elvira (Simone Spoladore) é uma entregadora de pizza e sonha em ser fotógrafa em tempo integral.

Numa dessas entregas, Elvis conhece Madona que estava desesperada por ter sido roubada pelo bandido João tripé, com quem tinha um conturbado caso de amor. Surge uma intensa amizade que, em pouco tempo, se transforma numa paixão. O filme é um desafio, mesmo que inconsciente (ou não) a identidade sexual da figura masculina e feminina? Por que um gesto ou uma roupa tem que definir essa identidade sexual?

Independente dos questionamentos, intencionais ou não, o filme expõe na tela os problemas universais presentes em qualquer relacionamento, como o medo de se entregar ao outro e amar. Elvis & Madona, independente de qualquer coisa é simplesmente uma história de amor entre um homem e uma mulher. Divertido e provocante, é um convite para que possamos abrir a nossa cabeça e nos livrarmos de preconceito.