domingo, 11 de setembro de 2016

Clímax – Chuck Palahniuk

“Com desculpas a Simone de Beauvoir, Penny não queria ser a terceira geração de nada”.
Tudo em Clímax, romance do norte-americano Chuck Palahniuk, publicado em 2014, é clichê. A começar pela sinopse: “Garota comum se envolve com bilionário bonitão de gosto sexual pouco ortodoxo”. Diria até que faz lembrar 50 tons de cinza. Nada disso! Palahniuk, com sua narrativa subversiva, bruta e incômoda, usa clichês para levar o leitor a refletir sobre gênero, sexualidade, vícios e mercantilização do sexo. Apesar de bem diferente de Clube da luta (1996), seu primeiro e mais conhecido romance, em Clímax Palahniuk trata de temas que domina, como os instintos primitivos humanos em conflito com a sociedade moderna.
“Vibradores, segundo Clímax, estava entre os primeiros eletrodomésticos a utilizar eletricidade”.
Penny Harrigan é uma jovem do interior dos Estados Unidos, recém-formada em direito que, enquanto não passa no exame da ordem, trabalha num famoso escritório de advocacia em Nova York servindo cafezinho. É lá que conhece C. Linus Maxwell, um nerd bilionário que comanda uma gigantesca companhia com diversas áreas de atuação. Conhecido por namorar mulheres famosas, entre elas a presidente dos Estados Unidos, Clímax (como a mídia o apelidou) é o homem mais rico do mundo. O encontro dos dois, numa situação constrangedora para ela, mudará sua vida em todos os aspectos.
“A cultura em geral vinha usando o sexo displicentemente para atacar os cérebros jovens e masculinos havia tanto tempo que a sociedade incorporara essa prática maligna como se fosse algo natural”.
Penny se transforma, da noite para o dia, na queridinha da imprensa, o novo amor de Clímax. Só que a coisa não era bem assim. Durante exatos 136 dias, como aconteceu com suas namoradas anteriores, Clímax vai estimular sexualmente Penny de todas as formas, usando vários instrumentos que ele mesmo criou. Só que tudo isso não é amor nem erotismo. É apenas uma experiência! Penny passa 136 dias sendo cobaia para o lançamento de uma linha de brinquedos eróticos chamada Beautiful You. Com capacidade ilimitada de dar prazer às suas usuárias, os brinquedos criados por Clímax levará bilhões de mulheres mundo afora a abandonarem trabalho, família, maridos e namorados de lado. E somente Penny, a última ex-namorada de Clímax, poderá salvar a humanidade.   

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Clube da luta – Chuck Palahniuk

“Onde Jesus estaria se ninguém tivesse escrito os Evangelhos?”
O jornalista norte-americano Chuck Palahniuk nasceu em Washington em 1962 e, antes de se dedicar às letras, foi lutador amador, caminhoneiro e mecânico de automóveis. Baseando-se na sua experiência de vida começou a escrever contos e publicá-los em pequenas revistas, até que, em 1996, publicou seu primeiro livro tendo como base um desses contos. Era Clube da luta (o conto representa o capítulo 6 do livro) que, adaptado para o cinema em 1999 pelo cineasta David Fincher, virou best-seller.
“O que as pessoas são no clube da luta não tem nada a ver com o que são no mundo real”.
Palahniuk define seu estilo como “ficção transgressional” e seus personagens são indivíduos, de modo geral, marginalizados pela sociedade. Esse é o caso do jovem narrador de o Clube da luta, funcionário de uma seguradora que passa o dia viajando e fazendo relatórios, mas à noite padece de insônia e de uma profunda insatisfação com a vida que leva. Nas noites insones, frequenta grupos de apoio a doentes terminais, pessoas com problemas reais, em busca de sentido para a sua existência. Num desses grupos, conhece Marla Singer, jovem que também não tem nenhum problema de saúde, a não ser o vazio existencial, cuja presença vai perturbá-lo.
“Na academia há sempre um monte de caras tentando parecer homens (...). Como Tyler sempre diz, até um suflê parece bombado”.  
Numa das suas viagens a trabalho, o narrador conhece Tyler Durden, uma figura que vive ao seu próprio modo, totalmente alheio aos padrões convencionais e que, juntos, irão formar o Clube da Luta. O que seria apenas uma diversão, uma forma de extravasar através de atos violentos os dilemas internos dos participantes, se torna um projeto que visa mudar todo o padrão de uma sociedade voltada para o consumismo exacerbado e o superficialismo. Com uma narrativa subversiva e humor ácido, Palahniuk escreveu um romance provocativo. Vale a pena ler Clube da luta. Vale a pena ler Chuck Palahniuk!

domingo, 4 de setembro de 2016

Grandes esperanças – Charles Dickens

“O asseio é como a religião, que muita gente faz insuportável à força de exageros descabidos”.
Publicado originalmente em série no jornal All the Year Round entre dezembro de 1860 e agosto de 1861, Grandes esperanças é um dos últimos e, para muitos críticos, um dos melhores romances de Charles Dickens. Nesse romance, como é recorrente na obra do autor, as desigualdades sociais e a ambição humana são os temas principais. O personagem central da história é o garoto Philip Pirrip, conhecido por todos como Pip, que narra a sua trajetória de vida entre os anos de 1812, quando tinha 7 anos, e 1840, já homem feito.
“Parece certo que desde que o homem contraiu o hábito de se vestir, toda roupa nova e impacientemente esperada jamais correspondeu em tudo à expectativa da pessoa para qual foi feita”.
Pip é órfão e vive com a irmã e o cunhado ferreiro e melhor amigo, Joe Gargery numa pequena aldeia na Inglaterra. Com uma situação financeira cheia de limitações, o passatempo preferido da Sra. Joe Gargery é atormentar a vida de Pip e Joe, um marido pacato e que evita se meter na relação da esposa com o irmão. Três fotos irão mudar a vida de Pip. O primeiro deles é o encontro do garoto com um prisioneiro fugitivo no pântano nas imediações da sua casa na véspera do natal de 1812, quando começa a narrativa. O segundo fato é o convite da rica e solitária Sra. Havisham para que Pip vá até sua casa para brincar a passa a frequentar a mansão da excêntrica senhora.
“Nunca deveríamos envergonhar-nos de nossas lágrimas. Elas são como uma chuva benéfica que lava a poeira dos corações endurecidos”.  
O terceiro episódio ocorre na casa da Sra. Havisham, quando Pip conhece a bela e misteriosa Estela, filha adotiva da dona da casa, por quem o garoto se apaixona. Repentinamente, Pip se vê destinado a uma grande fortuna, tornado herdeiro de uma pessoa misteriosa que quer vê-lo cavalheiro. O garoto se muda para Londres para estudar, mas o mistério de quem seria seu bem feitor não lhe sai da cabeça, com suas suspeitas recaindo sobre a Sra. Havisham. Tratando se temas como o amor, a desilusão, a culpa, a esperança, Dickens construiu personagens marcantes com os quais vai prender a atenção do leitor para desvendar o grande mistério da trama: afinal, quem quer fazer de Pip um grande cavalheiro?    

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

A dama da internet – Neville d’Almeida

“O movimento repetitivo dos passos da valsa – para um lado e para o outro – remetia Marcos a futuro monótono e previsível”.
Tem livros que vendem uma imagem para o leitor, mas entrega outra coisa. A dama da internet, do cineasta e escritor mineiro Neville d’Almeida é um desses livros. Logo no prefácio, assinado pelo empresário e jornalista Ricardo Amaral, a obra chega a ser comparada ao conto de Nelson Rodrigues A dama da lotação. Diante de tal comparação me empolguei, afinal Nelson Rodrigues para mim é uma lenda. Aí é que me senti logrado. Comparar Nelson e seu conto, publicado numa coluna que o dramaturgo tinha no jornal A Última Hora entre 1951e 1961, com o livro de Neville é, no mínimo, uma heresia. Talvez tal comparação se deva ao fato do cineasta mineiro ter feito a adaptação para o cinema do conto de Nelson Rodrigues. E qualquer comparação para por aí.
“Enquanto os homens de bem estão pensando em como agir, o canalha age”.
Luísa é bonita, jovem e atraente. Fora isso, a imagem que a personagem passa é de uma completa desocupada que só pensa em casar e, depois, vingar o falso príncipe (e todos os homens do planeta) que destruiu seus sonhos de um casamento perfeito. Marcos, o noivo de Luísa, é um sujeito bem sucedido cuja mãe acha que ele ainda não saiu da adolescência e que todas as mulheres do mundo querem tirá-lo de perto das suas asas. Logo na noite de núpcias o sonho de Luísa é destruído por Marcos que, embriagado, comete estupro contra ela. Os sonhos de Luísa continuam a ser destruídos quando descobre que Marcos tem uma amante. Aí começa a saga de Luísa para vingar-se de todos os homens que encontra pela rente.
“Quando o dinheiro sai pela porta, o amor pula pela janela”.

 Compará-lo às obras menos inspiradas de Nelson Rodrigues já seria um disparate. Mas a história deixa a desejar mesmo sem a comparação por que possui um enredo tolo. Quem espera um suspense com erotismo se decepcionará! O pouco erotismo que dá para ver com muito esforço e boa vontade é meio forçado. O grande mérito do livro é a capa na cor vermelha, detalhe que atrai os leitores que buscam coisas que Neville, infelizmente, se recusou a entregar nas páginas de A dama da internet. 

domingo, 28 de agosto de 2016

O pintassilgo – Donna Tartt

“Imaginar algo acontecendo com minha mãe era particularmente assustador, porque meu pai não era muito confiável”.
Lançado em 2013 nos Estados Unidos e na Europa, O pintassilgo, da americana Donna Tartt, chegou ao Brasil no ano seguinte com status de best-seller, com 1,5 milhão de exemplares vendidos somente na terra do Tio Sam e a conquista do prêmio Pulitzer de ficção. A obra atraiu opiniões extremadas e apaixonadas, tanto negativas como positivas. Num calhamaço de mais de 700 páginas, Donna Tartt elaborou uma história intrincada e prolixa, com muitos personagens e tantas idas e vindas que podemos compara-la a um conto de fadas. Porém, isso não faz de O pintassilgo um livro ruim e cansativo.
“O champanhe fazia cócegas no céu da minha boca – uma alegria distante e empoeirada, engarrafada num ano mais feliz em que minha mãe ainda estava viva”.
Theo Becker tem 13 anos e mora com a mãe, Audrey. Numa visita a um museu em Nova York mãe e filho são vítimas de um ataque terrorista que mata Audrey, mas Theo consegue escapar dos escombros levando consigo um quadro do pintor holandês Carel Fabritius, pintado 1654, intitulado “O pintassilgo”.  Sem ter para onde ir, já que tinha sido abandonado pelo pai alcoólatra, Theo vai morar na mansão da família de um amigo da escola, onde se sente deslocado e triste. Atormentado pela ausência da mãe e sentindo solitário, Theo se apega a pintura retirada do museu.
“É um mito a ideia de não se pode funcionar à base de narcóticos: injetar era uma coisa, mas pra alguém como eu (...) as pílulas eram a chave para que fosse não só competente mas altamente funcional”.
Com o aparecimento do pai, mais interessado nos lucros que a morte da ex-mulher poderia lhe trazer, Theo vai viver em Las Vegas, onde conhece Boris e com quem comete pequenos crimes e consome drogas em escala industrial. Negligenciado pelo pai trambiqueiro e pela madrasta desleixada, resta a Theo se atirar às aventuras da adolescência na companhia de Boris. Com a morte do pai, Theo foge da madrasta e retorna para Nova York, onde irá encontrar algum conforto emocional num antiquário, mas continuará atuando à margem da lei.
“Para os humanos – aprisionados na biologia – não havia misericórdia: vivemos por um tempo, fazemos um pouquinho de cena e morremos, apodrecemos no chão como lixo”.
Inicialmente, a narrativa é bastante arrastada. Mas superada essa etapa, a leitura assume contornos mais fluidos e vontade de descobrir qual será o destino de Theo prende o leitor. É um livro que deve ser lido com respeito, apesar das escorregadelas da autora. Como disse Stephen King, o livro é uma raridade que aparece meia dúzia de vezes por décadas. Não sou eu que vou questionar...  

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Só por hoje e para sempre: diário de um recomeço – Renato Russo

“Eu me adoro, eu não gosto é do mundo”.
O apetite dos fãs da banda Legião Urbana é insaciável. Qualquer coisa que se publique sobre a banda ou sobre qualquer um dos seus ex-integrantes vai vender. Por mais que se pense que todos os assuntos referentes à banda estão esgotados, sempre há algo mais a ser revelado ou um boato a ser confirmado. E quem cuida do espólio de Renato sabe disso. Seu filho, herdeiro único, anuncia já no prefácio, intitulado O homem por trás do mito, que Só por hoje e para sempre: diário de um recomeço, publicado em 2015, é apenas o primeiro de uma série de livros que reunirão diários, poemas, letras, obras de ficção e desenhos deixados pelo ex-líder da Legião Urbana.
“O mundo lá fora me causa um misto de medo e indiferença (se isso é possível)”.
Não que não seja importante saber pelo próprio Renato das suas angústias, de detalhes da sua vida pessoal, de momentos importantes durante as turnês da banda, da sua relação com seu filho, Giuliano. Indiscutivelmente, tudo isso é importante para quem é fã. Mas percebe-se certa voracidade de todos aqueles que se envolveram, direta ou indiretamente, na carreira da Legião Urbana em tirar algum proveito dessa vivência. Por isso, fãs da legião Urbana, preparem-se, pois muita coisa ainda irá sair sobre a Legião e, principalmente, sobre Renato Russo.
“Raramente beleza vem acompanhada de inteligência e charme”.
O diário de um recomeço começa quando Renato toma a decisão de se livrar do vício em álcool, maconha, heroína e cocaína. Estamos no ano de 1993 e a internação na Vila Serena dura 29 dias entre os meses de abril e maio. O tratamento envolvia várias dinâmicas e escrever sobre si mesmo e sobre o tratamento estava entre elas. O que se vê nos diários é uma pessoa só, angustiada e desorientada, que possuía uma descrença generalizada no mundo e nas pessoas, descambando para a autodestruição.
“O maior conflito que vivia na ativa era o de só me sentir bem comigo mesmo quando alcoolizado ou drogado. (...) Achava o mundo cruel e sem sentido, e as pessoas estúpidas ignorantes, falsas e más”.
Mas a sua genialidade aparece até nesses momentos tortuosos. As marcas desses dias de confinamento podem ser vistas no CD da banda lançado no final daquele ano, O descobrimento do Brasil. Na canção Vinte nove, cujo título se refere à quantidade de dias que ele ficou confinado na clínica, Renato coloca o sintético verso “decidi começar a viver”. O fato é que, independente dos interesses por trás dos lançamento de livros sobre a Legião e sobre Renato, o fato é que fã não quer saber disso e eu sou fã! Por isso, a leitura do livro foi um deleite para mim.  

domingo, 21 de agosto de 2016

Apartamento 41 – Nelson Luiz de Carvalho

"Certo de que havia um desvio moral em meu caráter, passei da infância à adolescência aprendendo a mentir, como na vez em que comecei a namorar Berta só para ficar próximo do irmão dela, meu querido Dori."
Podemos afirmar com segurança que o escritor Nelson Luiz de Carvalho amadureceu muito a sua narrativa no intervalo de sete anos que separa O terceiro travesseiro, seu primeiro romance, e Apartamento 41, publicado em 2007. No seu segundo romance, o principal personagem da trama deixa de ser jovens descobrindo a sexualidade e passa a ser um homem maduro que reprimiu por anos a sua verdadeira identidade sexual em nome da família.
“Envolvido demais nesse admirável mundo novo, já não consigo só me masturbar pensando em alguém; tenho de me realizar nesse universo de corpos em que beijos e olhares insinuantes predispõe um inusitado balé de falos”.
Leonardo trabalha numa editora de revistas, casado há mais de uma década e pai de uma criança de cinco anos.  O cidadão modelo para os padrões tradicionais se não fosse por um detalhe: Leonardo é homossexual e sente o vazio de quem não suporta mais levar uma vida dupla, fazendo papel de pai e marido por um lado e, por outro, buscando prazeres com homens em lugares obscuros e marginais.
“Não quero que o futuro me seja indiferente, por eu interpretar com a máscara da obediência meus verdadeiros sentimentos”.
As dificuldades para quem está numa situação semelhante à de Leonardo não são poucas. A primeira delas é contar para a esposa e enfrentar a sua frustração por se sentir enganada em seus sentimentos. Decidido a assumir a sua verdadeira personalidade, Leonardo se depara com outros dilemas: como encontrar novos parceiros? Que lugares frequentar? Vencida mais uma etapa, vem a exposição e Leonardo, antes o queridinho do patrão conservador, perde o emprego depois que esse descobre a sua condição sexual. As provações não para por aí: Leonardo sofre com a falta de compromisso de vários parceiros e com as desilusões com o gueto homossexual.    
“Acostumado ao cabresto social, nunca sei se estou mais próximo de Deus ou do Diabo”.
E Nelson consegue retratar todo esse drama com maturidade entremeado de momentos quentes e eróticos (e bastante interessantes...)