quarta-feira, 17 de agosto de 2016

O terceiro travesseiro – Nelson Luís de Carvalho



“Por que um sentimento tão verdadeiro podia incomodar tanto os outros?”
Livro de estreia do escritor Nelson Luís de Carvalho, empresário nascido e criado em São Paulo, publicado pela primeira vez em 2000, O terceiro travesseiro é uma obra cultuada principalmente no universo homossexual. Sinceramente não vejo motivos para tanto. É um livro, no máximo, “bonzinho”. Nelson é ainda o autor de Apartamento 41, publicado em 2007, livro com a mesma temática, sobre o qual falarei no próximo post.
“Deus teria que ser insensível para me condenar ao inferno”.
Marcus e Renato são dois jovens que estudam na mesma escola e se apaixonam um pelo outro. Era de se esperar que os dois enfrentassem aquela reação negativa típica da classe média quando descobrem que seus filhos “bem criados” não saíram ao que os seus zelosos pais esperavam. Não é o que acontece. Fora uns “chiliques” aqui ou acolá, até que as famílias assimilaram bem a notícia. O ponto central da trama, na verdade, é a chegada de Beatriz, ex-namorada de Renato, no romance dos dois jovens, provocando ciúmes a princípio, mas depois fazendo o “terceiro travesseiro” do título.
“O próprio ser humano constrói o seu inferno”.
Mas por que acho que O terceiro travesseiro é apenas um livro “bonzinho”? O autor, que tinha um tema bem interessante nas mãos, podendo focar na construção dos personagens e no relacionamento dos namorados, se atém a descrever as cenas de sexo entre os dois (algumas bem interessantes, vá lá!). O problema é que a proposta do autor não era escrever um livro erótico, mas uma história de amor entre duas pessoas que estão dispostas a enfrentar todas as barreiras em nome dessa relação. O resultado é uma narrativa imatura e pueril, com aquele ritmo de novela em que tudo acontece no último capítulo.        

domingo, 14 de agosto de 2016

Bom crioulo – Adolfo Caminha



”Como é que se compreendia o amor, o desejo da posse animal entre duas pessoas do mesmo sexo, entre dois homens?”
Quando foi publicado, em 1895, Bom crioulo, do escritor cearense Adolfo Caminha causou polêmica, pois trazia como personagem principal Amaro, um ex-escravo homossexual que se torna marinheiro. Essa obra pode ser considerada a primeira obra com temática gay da literatura brasileira. De físico avantajado, bom trabalhador e obediente (daí o apelido “Bom crioulo”), Amaro se transforma quando bebe, tornando-se agressivo.
“E consumou-se o delito contra a natureza”.
Aleixo, um grumete loiro (marinheiro de posição inferior), ainda imberbe, de apenas 15 anos, chega para servir na mesma corveta em que Amaro trabalha, mexendo com o coração do ex-escravo. Ingênuo e ligeiramente afeminado, o jovem grumete termina se tornando amante de Amaro, que o leva para morar num quartinho na pensão de D. Carolina, amiga do Bom Crioulo. Em um dos longos períodos em que Amaro fica embarcado, D. Carolina seduz o jovem Aleixo, despertando a fúria do amante traído.
“Agora compreendia que só no homem, no próprio homem, ele podia encontrar aquilo que debalde procurara nas mulheres”.
Pertencente à escola literária do Naturalismo, que destaca os ambientes sujos e sórdidos (numa clara contraposição ao Romantismo, em que tudo era perfeito e ideal) e defende a teoria do determinismo, onde a personalidade do ser humano é definida pelo meio em que ele vive, não havendo livre arbítrio, Bom crioulo foi um livro de conteúdo explosivo para a época por retratar não apenas um romance entre dois homens (o que, por si, já seria um escândalo), mas por trazer a história de um amor inter-racial, o negro Amaro e o loiro Aleixo. 

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Carol – Patrícia Highsmith

“Seria quase amor o que ela sentia por Carol, só que Carol era uma mulher. Não chegava a ser loucura, mas certamente lhe deixava feliz”.
Therese Belivet é cenógrafa recém-formada e trabalha na seção de bonecas numa loja de departamentos. Carol Aird é uma dona-de-casa misteriosa e linda. Therese trabalha como vendedora enquanto tenta construir a carreira de cenógrafa de teatro. Carol está recém-separada e disputa a guarda da filha com o ex-marido. As duas vão se conhecer no local de trabalho de Therese quando Carol procura uma boneca para presentear a filha em um natal dos anos 50.
“E não precisava perguntar se aquilo estava certo, não era da conta de ninguém, por que aquilo não poderia ser mais certo e perfeito”.
Desse momento em diante, os encontros entre as duas serão frequentes. E os dramas também. Therese namora Richard, mas não terá muito problemas em pôr um fim no relacionamento. Já Carol começa a ser chantageada pelo ex, que descobre a relação e passa a pressiona-la a abrir mão da guarda da filha. Para fugir da tensão do divórcio, Carol convida Therese para uma longa viagem de carro. É durante essa viagem que grande parte da trama se desenrola.
“Porém a questão mais importante não foi mencionada nem pensada por ninguém – que o ajuste entre dois homens ou duas mulheres pode ser absoluto e perfeito, de um modo que jamais pode ser entre a mulher e o homem, e que talvez certas pessoas desejam exatamente isso...”
Publicado em 1953 com o pseudônimo de Claire Morgan, Carol é o segundo livro da escritora norte americana Patrícia Highsmith. E é mais do que justificado o uso do pseudônimo. Contar uma história de amor entre duas mulheres numa época em que a luta das mulheres por direitos iguais ainda engatinhava e o direito de amar outra pessoa do mesmo sexo se mostrava algo impensado era, no mínimo, um atrevimento desmedido. Mas ela conseguiu a façanha com um texto que permite uma leitura ágil. Destaque para as descrições de várias cidades americanas nos anos 50, que a autora consegue fazer muito bem. 
“– Já se apaixonou por um rapaz? 
– Um rapaz?– Richard repetiu, surpreso.
– É.
Talvez tenham se passado uns cinco segundos, antes que respondesse:
– Não – num tom positivo e final.
(...)
– Já ouviu falar nisso? – ela perguntou.
– Ouvir falar? Você diz, de gente assim? Claro – Richard estava de pé, enrolando a linha em forma de oito.
Therese disse, com todo o cuidado, porque ele estava prestando atenção:
– Não estou falando de gente assim. Estou falando de duas pessoas que se apaixonam de repente uma pela outra, sem mais nem menos. Por exemplo, dois homens ou duas moças".

domingo, 7 de agosto de 2016

Duas iguais – Cíntia Moscovich



“Eu aprendi: o amor exige expressão. Ele não pode permanecer quieto, não pode permanecer calado...”
Já tinha dito aqui que o Rio Grande do Sul é um celeiro de grandes escritores do passado, como Érico e Luís Fernando Veríssimo, Moacyr Scliar e Josué Guimarães. Mas também é um berço de bons escritores contemporâneos como David Coimbra, Letícia Wierzchowski e Tabajara Ruas, sobre os quais já falei aqui no blog. Hoje eu vou falar de Duas iguais, segundo livro da gaúcha Cíntia Moscovich, publicado em 2006.
“Você vai fazer que nem o cachorro que late até a morte e que quando o carro para não sabe o que fazer”.
A temática judaica é recorrente na literatura de Cíntia que tem como inspiração o escritor judeu Isaac Singer. Nesse romance, a temática é o amor homossexual entre duas mulheres, mas a influência judaica no local onde a trama se desenvolve, o Bom Fim, tradicional bairro judaico de Porto Alegre, onde vivem Ana e Clara, duas adolescentes que se apaixonam quando estudavam numa escola judaica e têm que encarar uma comunidade conservadora, o que vai gerar uma série de conflitos que vai acompanha-las pela vida afora. 
“Havíamos decidido alimentar a primeira paixão de nossas vidas e evitávamos explicações porque havíamos aprendido que as explicações nos levavam para algo do qual tínhamos medo”.
Evitando o engajamento e sem querer transformar sua obra num manual de bons modos, Cíntia aborda um tema ainda polêmico com franqueza e sensibilidade. Dando toda a espontaneidade ao romance entre as duas adolescentes, a autora enfatiza o choque cultural e emocional que a relação traz para a comunidade em que elas viviam, levando Ana a auto exilar-se em Paris e Clara a penetrar no complexo mundo adulto. Mas as circunstâncias farão com que as duas voltem a se encontrar...    

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Em uma só pessoa – John Irving

“Nós somos formados pelo que desejamos. Em menos de um minuto de excitação e desejos secretos, eu quis me tornar escritor e fazer sexo com a Srta. Frost – não necessariamente nessa ordem”.
Billy Abbott é um escritor bem sucedido que mora em Nova York e resolve fazer, em 2010, uma retrospectiva das suas paixões ao longo da vida. Paixões essas que incluíam o teatro, a literatura, as mulheres e os homens. Na casa dos sessenta anos, Billy relembra sua infância e adolescência na pequena e fictícia First Sister, no estado americano de Vermont, até a idade adulta de forma não linear, uma sua existência marcada pela não aceitação social da sua bissexualidade e pelo amor à arte.
“Será que minha mãe e Nana Victória não conseguiam ver que eu me sentia ao mesmo tempo perplexo e assustado pela vida na terra?”
A narrativa começa nos anos cinquenta na pequena cidade natal de Billy quando ele, aos treze anos, vai fazer seu cartão na biblioteca pública e se apaixona pela escultural Srta. Frost, a bibliotecária. É ela quem o inicia na literatura, indicando livros sobre “atrações pelas pessoas erradas”, a pedido do garoto, já que Billy, ao mesmo tempo em que nutria a paixão pela bibliotecária, se sentia atraído pelo padrasto Richard Abbott. O coração de Billy também batia mais forte pela sua terapeuta e mãe da sua melhor amiga, Elaine, e por Jacques Kittredge, capitão da equipe de luta livre da escola.
“O lutador com o corpo mais bonito se chamava Kittredge. Ele tinha um peito sem pelos com músculos peitorais absurdamente bem definidos; esses músculos eram de uma clareza exagerada, de história em quadrinhos”.
Numa família de mulheres extremamente críticas, que tentavam a todo custo esconder a identidade verdadeira do seu pai biológico e vivendo numa cidade pequena e conservadora, Billy buscava apoio na figura do seu avô, Harry, conhecido pela competência em interpretar papéis femininos no grupo de teatro amador da cidade e pelo gosto em vestir-se de mulher até o final da vida. A trama atravessa os anos 60 e 70 com Billy buscando sua identidade em várias cidades do mundo e desemboca nos anos 80 em plena epidemia de AIDS, que atingiu vários amigos e ex-amantes do narrador.
“Eu corria da escola para casa para ler; eu lia correndo, sem conseguir obedecer à ordem da Srta. Frost para ler mais devagar”.
Além da trama em si, o que fascina nesse romance são as indicações bibliográficas que a Srta. Frost dá para o pequeno Billy. São romances dentro do romance. Charles Dickens se torna a grande paixão do pequeno leitor graças às indicações da bibliotecária, mas outros autores são indicados ou citados pelo narrador como marcantes em sua vida: James Baldwin, Emily Brontë, Charlotte Brontë. Para quem gosta de literatura, esse romance é prazer em dose dupla. Ou múltipla!