terça-feira, 6 de março de 2012

Pérolas nada preciosas

Jogadores de futebol, em sua maioria, falam todos iguais. Parece que o sujeito recebe um formulário já pronto, onde ele só tem que colocar o nome dele. A fórmula é a mesma. Quando tentam fugir do script, alguns terminam falando frases que entram para o folclore do futebol. Lembro que nos anos 70 (eu era criança) o Campinense tinha um jogador chamado Pedrinho Cangula, que é pai do Marcelinho Paraíba, jogador do Sport do recife. Certa vez, ao final de uma partida, perguntado como tinha feito determinado gol, respondeu: “eu fiz que ia e não fui, mas terminei fono.” A autoria da frase não é comprovada. No quesito “conjugação de verbos”, Nunes, ex Fla, e Cangula estudaram na mesma escola, apesar do ex rubro-negro negar a autoria da frase a seguir: “A bola ia indo, ia indo e iu...”. Como será a conjugação do verbo voltar?

Mas as gafes verbais não estão apenas dentro de campo. Vicente Mateus era presidente do Corinthians nos anos 70 e 80 e respondeu dessa forma aos franceses que queriam contratar o jogador Sócrates: “O Sócrates é invendável, inegociável e imprestável.” O jogador deve ter ficado muito contente. Voltando aos gramados a épocas mais recentes. Dimba, ex Fla e ex Botafogo, ao reclamar que um juiz teria roubado a sua equipe, disse que aquilo era caso “para a Polícia Federal, para o FMI.” Não seria o FBI? Fábio baiano, ex Fla e ex Vasco, sempre foi uma figura divertida, menos para os jogadores que ele marcava. Certa vez, no avião, ao tentar elogiar a aeromoça, disse que a moça “além de muito bonita, era uma troglodita (poliglota) muito inteligente”. A moça deve ter ficado nos ares de contentamento.

Mas tem três frases que deveria entrar no Top Five (olha a gafe) das frases folclóricas. A primeira delas é atribuída a Claudiomiro, ex inter, que ao chegar à Belém para disputar uma partida pelo Brasileirão de 1972, disse: Tenho o maior orgulho de jogar na terra onde Jesus Cristo nasceu." Jesus deve ter descido da cruz. A segunda é atribuída a Fabão, ao chegar ao Fla:A partir de agora, meu coração tem uma cor só: é rubro-negro." Por último temos a pérola de Jardel, ex Grêmio, que era um craque não apenas com a bola no pé, mas também em produzir gafes verbais: "Eu, o Paulo Nunes e o Dinho vamos fazer uma dupla sertaneja." E que dupla...

segunda-feira, 5 de março de 2012

A última revolta de Jesus Cristo*

(baseado numa história que tudo indica ser real)

Doía, muito doía, e não havia nada que pudesse fazer para estancar o sangue, que escorria. A impotência doía. Doía, e não enxergavam, não viam – ou não queriam ver? Doía e não era dor pouca, pois em todos os momentos se vira sozinho, todos desapareciam, sua única companhia era o desgosto, era. As aves no céu voavam indiferentes. E doía. Agora percebia enfim que doía, e não só percebia como sentia agora todas as dores passadas, agora. A solidão. A ausência machucava, doía. A ferida aberta, e os vermes vindouros. As mãos doíam, e muito. As pernas doíam, e muito. O tronco doía, muito. A flechada, os cuspes, a coroa, os espinhos – tudo doía. O sarcasmo era o que mais feria, doía. Os risos. Os socos tão-somente neste instante sentia, e doíam, como socos dados em vão, porque em vão foram. Apenas serviram para aumentar a dor. A hostilidade. Valeria o sacrifício, valeria? O sol quente. O céu claro. A vontade de urinar doía. Os rins doíam, sobretudo. O suor que sujo escorria. O sal. O fel. O mau hálito. As lembranças também doíam. Herodes (Jesus ainda bebê) mandara matar todas as crianças abaixo de dois anos. As mentiras inventadas, a hipocrisia. Herodes não queria adorá-lo, não queria. E o Pai, sabia? Fora cúmplice? Não fora tudo profetizado, não estava escrito? Doía. A crueldade de Arquelau. Os avisos de Deus. As interferências. As tentações de Satanás – tudo premeditado. Doía. Sua história não fora escrita por Si mesmo? A morte de João feria e fazia doer. A cabeça ensangüentada de João. Sangue. Os demônios. A lepra. Os fariseus, que tramaram sua morte. Hipocrisia. Ai de Jerusalém! Doía, porque davam dízimo, conheciam as Escrituras, jejuavam, oravam, mas não viviam segundo a justiça e a fé. Muito. Doía. Os judeus hostis. As enganações doíam, e muito. Todas as dores possíveis nele se convergiam. O tremor. A ira. O ódio. A vingança. As mortes dos que não estavam na Arca de Noé. Doía a piedade e o conseqüente remorso que sentia, agora, só agora, pelos não privilegiados do Pai. As crianças afogadas nas águas do dilúvio. As crianças se debatendo contra as águas salgadas. Seriam salgadas, seriam? A compaixão que nutria, agora, e só agora, por Caim. O sofrimento de Jó era ele, Jesus, que sentia, e doía, doía mais do que doeu em Jó. O gosto da fruta (amarga) que Adão comeu doía o estômago. A liberdade, a esperança perdidas, o paraíso, a felicidade perdidos – doíam, e era uma dor que feria. O pranto sobre a cidade condenada. A figueira estéril. As profecias doíam. A ambição dos humanos. A agonia passada. E, após todo o sofrimento, a sentença. Meu Pai. Este suor que escorre e se mistura ao sangue, estas lágrimas que escorrem e se misturam ao sangue, esta saliva que escorre e se mistura ao sangue, estes cuspes que escorrem e se misturam ao sangue. As feridas. Os raios do sol nos olhos ardem, doem. Ver a mãe chorando e nada poder fazer dói. Ver os irmãos chorando e nada poder fazer dói. Ver os amigos, sobretudo os falsos, e nada poder fazer dói. Ver os inimigos zombando e nada poder fazer dói. E o Pai, sabia? Fora cúmplice? Não fora tudo profetizado, não estava escrito? Doía. Zombaria. Zombarias? Este peso nas costas dói. O fardo pesado. Os pecados de todos. Os erros. Os desvios de conduta. Os assassinatos. As vinganças. Os adultérios. As ingratidões. Doía. As feridas. As traições. As armadilhas e provações. O fardo. Os tapas no rosto. Os socos. Esta barba espessa e suja. Essa feiúra. Esta ausência. Trinta e três anos de falta doem. Trinta e três anos de mentiras e maldades doem. As marcas das correntes nos pulsos doem. Este zunido intenso nos ouvidos. Os zunidos, conseqüência dos gritos nos ouvidos, doem. Esse riso cínico dói, e muito, demais. As marcas profundas nas costas doem. As pernas cansadas, conseqüência do longo trajeto com esta cruz pesada nos ombros, doem. E os tombos. Meu Deus, afaste este cálice de mim. Afaste a onisciência de mim, afaste essa capacidade de imaginar o futuro de mim. Afaste a lucidez de mim. Afaste este choro amargo de mim. Afaste de mim este soluço convulso que ninguém vê. Pai, por que não disseste antes que minha morte não era para todos? Pai, por que me enganaste? Pai, que culpa têm os que não reconheceram nem reconhecerão como verdade o que eu preguei? Pai, Tu me fizeste profetizar a traição de Judas. Pai, por que me fizeste antever que Pedro me negaria? Se tudo continuar assim, entre ódios privilégios injustiças rancores pesares mortes gratuitas, sobretudo por causa dos seres à imagem e semelhança de Ti, ó Pai, renego a condição de Salvador. Se for para eu ter remorsos eternos, renego, ó Pai. Pai, porque lhes perdoar o que fazem se eles sabem exatamente o que fazem e mesmo assim continuam fazendo? Essas zombarias. Se tu és o rei dos judeus... Não és tu o Cristo?... Mas este nenhum mal fez. Mulher, eis aqui o teu filho. Sim, filho, e eis aqui tua mãe, chorando. Dor. Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste também desamparo a Ti e aos teus. Vede, chama por Elias. Tenho sede... Rãnnn. Este gosto acre. Ha-ha-ha. Sei, Pai, que sempre fizeste todas as coisas para os Teus próprios fins, e até o ímpio para o dia do mal. Sei, Pai, que tudo acontece para que as Escrituras se cumpram. Mas, Pai, que não seja feita mais a Tua vontade. Por um segundo apenas quero ter vontade, apenas por um segundo.

E (talvez porque ainda doía) com a pouquíssima força que restara enfim murmurou:

__ Pelos camelos...

Deus, perplexo, com toda a autoridade possível:

__ Quê?! – esbravejou.

__ Pelos camelos... came... eu... eu vou... morrer... pelos camelos... – fechou os olhos e expirou.

Não escurecera. Nem escureceria.

*Rogers Silva é escritor, professor, pesquisador e publicitário. Editor e co-fundador do coletivo O BULE.

sábado, 3 de março de 2012

Pornopopéia

Acho que vou mudar o discurso sobre aquela idéia de que não leio um livro se não tiver alguma referência a respeito dele. Quebrei a cara mais uma vez. Agora com Pornopopéia, de Reinaldo Moraes. Nunca tinha lido nada dele, nem mesmo ouvido falar. Ou seja, não tinha referências. Mas, num impulso, resolvi comprar o livro e ler. É de tirar o fôlego! Um bom livro é aquele em que o autor diz o que quer dizer de forma acessível e ainda desperta a curiosidade do leitor para outros livros do mesmo autor. Pornopopéia é isso. O leitor não consegue desgrudar dele e ainda fica curioso em ler a obra de Reinaldo.

O livro é uma baixaria de alto nível, inspirada, criativa e engraçadíssima. Zeca, o personagem-narrador, é um ex cineasta que vive na base do improviso, sem dinheiro, sem trabalho (ou quando consegue é de baixa remuneração e qualidade duvidosa), e com uma disposição indisfarçável para se meter em confusão. “Respeite o meu baixo nível, é o alto favor que lhe peço. Faça da minha vulgaridade um parque para as suas diversões”, diz Zeca. Extremamente crítico com relação a tudo e todos, menos com ele mesmo, só encontra a ternura ao lembrar-se do filho, Pedrinho. Mas a sua participação como pai resume-se a levar o garoto, esporadicamente, ao shopping para ficar subindo e descendo a escada rolante.

A vida de Zeca se complica de vez quando ele, consumidor voraz de todo tipo de substância lícita e ilícita, se vê envolvido, injustamente, na morte do seu traficante-fornecedor. O que já era um desbunde geral vira uma epopéia pornográfica, uma pornopopéia. Destaque para os neologismos, para os trocadilhos e para fala dos personagens, que chama a atenção para a condição social dos mesmos. Para quem procura um romance contemporâneo de qualidade é uma boa pedida.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Vai entender as mulheres

A cidadã entra num relacionamento, onde já há dois, como amante e como amante vive durante um bom tempo. O romance entre os dois titulares acaba e entra outra titular. É o fim da picada! A amante passa a cobrar a titularidade no romance. Afinal, a vez é dela! Sem conseguir o intento, escreve uma carta romântico-rancorosa rompendo o que não existia. Pois até onde eu sei relacionamento com amante não começa nem termina. A dita e famigerada carta sai (não se sabe por maldade de quem) no Diário Oficial. Se ela queria ser a oficial, se deu bem. Afinal, nada mais oficial do que o Diário Oficial. Com vergonha, ela pediu exoneração. Vai entender as mulheres.

Isso aconteceu no Diário Oficial do Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região, na Paraíba. Ao contrário do que disse a imprensa, não é uma “carta de amor”, está mais para “carta de rancor”, associado a uma melosidade de fazer inveja a comedor de jaca. Eu diria que o “gostosão” se deu bem se livrando da autora da missiva, que começa comEu fiquei muito mal comigo mesma...”. Não parece. Então por que não mandou a carta desaforada para ela mesma? Fica mal consigo e manda desaforos para os outros?

Numa outra passagem da carta, para mostrar as suas “boas intenções” com o boa pinta (sem trocadilho, por favor) ela disse que o convidou a se encontrarem na casa dela, “porque não me dou muito bem com as energias de motel”. E segue: “A minha energia sutil é que me sustenta e me protege e a respeito muito”. Camarada, perua energizada é a maior furada. Ou dá choque ou tem blecaute. Tô fora! Mas a missivista desiludida prova que é mulher de verdade. Devolve o presente do ingrato que sangrou seu coração (Eita! Peguei pesado agora.) e lasca um “Aproveitem-se!”, típico de mulher trocada por outra. Na realidade, ela queria, no fundo do seu coração hemorrágico, que ele se “aproveitasse” dela. Vai entender as mulheres.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Educação pra quê?

O MEC reajustou o piso nacional do magistério em 22,22%, passando para R$ 1.451,00. Uma fortuna! De pronto a Confederação Nacional dos Municípios (CNM) convocou os prefeitos à Brasília para dizer ao governo que as prefeituras não tinham condições de pagar o piso. Pediu também para que o governo mude a fórmula do cálculo do piso. O MEC usa como referência o valor mínimo por aluno do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb). Os prefeitos querem que o aumento do piso seja de acordo com a inflação do período.

Não me espanta essa postura dos prefeitos. Ficaria estupefato se os prefeitos tivessem ido à Brasília cobrar do Congresso uma lei que limitasse a criação de cargos comissionados nos estados e prefeituras. Ficaria babaquificado se os prefeitos tivessem ido à Brasília fazer uma manifestação contra o aumento do número de vereadores em seus municípios.

A Lei do Piso foi aprovada no Congresso em junho de 2008 para entrar em vigor em janeiro de 2009, no valor de R$ 950. Ao invés de ajustar as contas para cumprir a lei, prefeitos e alguns governadores preferiram contestar a constitucionalidade da lei. Se deram mal. Diminuam os cargos comissionados e paguem o piso. Enxuguem os gastos das máquinas que os senhores administram e paguem o piso. Cortem as despesas dos legislativos municipais e estaduais e paguem o piso.

O que é revoltante é que, enquanto algumas categorias profissionais (procuradores, desembargadores, juízes) brigam para poderem ganhar além do teto salarial do funcionalismo público, essas “lideranças políticas” esperneiam para não pagar o piso salarial aos professores. Como eles acham que a Coréia do Sul deixou de ser um rincão perdido nos confins da Ásia e transformou-se num tigre asiático? Como eles acham que a China alcançou tamanho desenvolvimento econômico a ponto de ameaçar a economia americana? Construindo praças e coretos?

Como eles acham que Argentina e Chile, nossos colegas sul-americanos, alcançaram um desenvolvimento econômico e social maior do que o nosso? Colocando criançinhas catarrentas no colo em época de campanha eleitoral? O desenvolvimento do Brasil (ou de qualquer país) passa, obrigatoriamente, pela mudança da forma como encaramos a educação. Uma revolução na educação brasileira passa, necessariamente, por duas palavras chaves: formação e valorização.